Educar… hoje 1. Dantes, a melhor forma de incutir a noção de responsabilidade era, por exemplo, através da atenção que um animal doméstico requer: cão, peixe, tartaruga ou hamster. Actualmente, estes animais são substituídos por tamagochis1 ou ovos. Sim, ovos! Para inculcar a ideia da responsabilidade subjacente a criar um filho, numa série televisiva de grande aceitação pela nossa camada adolescente, propôs-se que cada casal de personagens (de 18 anos ou menos) acompanhasse dois ovos. Mas chegaram à conclusão de que era complicado não os partirem, tendo mesmo havido quem os comesse (não há animais que comem os próprios filhos?)!
Em tempo escolar, a noção de responsabilidade não deveria ser fomentada de acordo com as tarefas de cada um: estudar não é tarefa suficientemente responsável? Quem faz os trabalhos de casa? Talvez seja mais interessante tomar conta de um ovo. Será esse um projecto de vida comparável aos estudos?! Partiu-se? Não há problema: deita-se fora, ou come-se. Vá lá que o desperdício não será assim tão grande! Quanto aos estudos: reprovou? Não há problema: no próximo ano, repete-se.
E não pense que as telenovelas não têm influência na vida real: já há meninas de 12 anos a tomar conta de ovos… e a parti-los!
2. Para conseguir o tão almejado telemóvel, deixou desenhos no quarto dos pais, nas almofadas da cama aberta para uma noite de descanso, na cozinha, na sala e noutros sítios que os seus oito anos lhe ditavam como os mais frequentados pelos progenitores em ambiente doméstico. E, na noite de 24 de Dezembro, pôde telefonar do seu novo brinquedo, graças aos desenhos e às repetidas manifestações de afecto, com que presenteava os pais, desde beijos e abraços, passando por declarações verbais de “Gosto muito, muito de ti!”. A história repetiu-se pouco tempo depois: ele já não quer viver naquele prédio, pelo que os desenhos agora são de vivendas com jardim. Re-petem-se beijos, abraços e declarações de afecto. De repente, temos um casal preocupado com as atitudes interesseiras do filho. Como lhe explicar que a estratégia, que os enterneceu e levou a comprar o telemóvel, perdeu o interesse agora que o alvo é uma casa?!
3. Nas sociedades ditas primitivas, para se tornar homem, um rapaz tem de passar por uma fase iniciática. De entre as múltiplas situações existentes, destaco uma que vi, numa reportagem, que consistia no seguinte: toda a comunidade masculina construía uma alta torre, feita de troncos e lianas; depois, os adultos atiravam-se do mais alto possível. Os rapazes participavam na construção da torre, mas só se atiravam quando estivessem preparados. Enquanto não o fizessem, não se tornavam homens. Porém, só o faziam quando estavam preparados.
Também na nossa sociedade se dá o salto para o mundo dos adultos de muitas formas, cada vez mais cedo. E parece estar a desaparecer uma conquista dos tempos moder-nos, o respeito pela infância e pela adolescência, privilegiando-se antes do tempo atitudes próprias do adulto. Se estudar veio estender o tempo da dependência parental, por que razão se atribuem, cada vez mais cedo, às crianças e adolescentes acções típicas de uma vida económica e mentalmente autónoma?
