1 – Retomar temas fracturantes da sociedade portuguesa em momento de crise é estratégia catastrófica. Não serve senão o calculismo partidário. Torna-se pretexto de distracção dos portugueses, com um duplo prejuízo: passam ao lado as questões reais e os problemas candentes que afligem a Nação, em cuja resolução é preciso empenhar, com justiça, todos os concidadãos; por outro lado, esses temas, sérios, importantes, diluem-se no turbilhão das preocupações da crise.
2 – Está em moda darem-se os países ares de modernidade. O que não pode ser é a qualquer preço. E muito menos ao preço do desprezo pela vida, ao preço da instituição de uma cultura de morte. Mas é aquilo que, face à incapacidade de rasgar caminhos de futuro, por reformas estruturais consolidadas, governantes incompetentes vão tentando fazer, toldando a visão aos cidadãos, com “factos políticos” pontuais ou com “temas” importantes, mas cujo tratamento ou repercussão na vida prática, nessas circunstâncias, acabará por não ter significado relevante.
3 – A questão do aborto – e do referendo com ele relacionado – é de capital importância. A vida humana, o seu valor e significado social, é tema estruturante na concepção cultural e na prática social de um país. Querer inverter o rumo de uma cultura e prática social humanista da vida, para encetar o caminho da cultura e prática social de morte é uma revolução ímpar. Tratar o assunto no meio de acusações sucessivas de “trapalhadas” orçamentais, de juras de verdade, de embustes constantes… não é sério. Chamar o Povo a pronunciar-se entre duas eleições soa a desacreditar o assunto ou a desejo de capitalizar resultados, para cobrir saldos negativos ou direccionar opções – e também é reprovável.
4 – Com tudo isto, vão ficando adiadas as revoluções necessárias, que acabariam elas mesmas por solucionar, na maioria dos casos, as situações dramáticas de dar ou não dar lugar à vida. Duas são as reformas estruturais em que estamos a pensar: a educação, pautada por uma concepção elevada da pessoa humana, por trabalho e valores, fundamentais em todas as aprendizagens; e a reforma da economia, baseada na justiça social e na perspectiva do bem comum.
5 – Os “remendos” solicitados por sectores minoritários da nossa sociedade – legalização do aborto, das uniões homosexuais, das “famílias” não institucionais… – poderão levar a que as excepções se tornem a regra do tecido social, e anomalias as estruturas normais. Não há verdadeiro rosto moderno num rumo destes. Com todo o respeito pela diferença, a perversão da textura de uma sociedade humana não lhe trará solução para qualquer problema!
