Sal da Tunísia e França mata salgado histórico de Aveiro

De três centenas passou a meia dúzia O salgado aveirense continua a ser uma incógnita.

Chegaram a ser três centenas de marinhas. Hoje são meia dúzia

Ando, nesta marinha da Troncalhada, há uns vinte anos e quando a Câmara a comprou em 1995 já cá andava. Trabalho nisto há 34 anos. Conheço o sal por dentro e por fora, sei quanto é salgado, quanto custa a safra…” diz-nos o João Banca, no intervalo do trabalho, comendo belos petiscos, produto do mar e da ria, com uns amigos, ali nas proximidades das Pirâmides.

E a descrição de uma vida salpicada de odisseias, vem-lhe espontaneamente. Estava-lhe na pele bronzeada, evoluía-lhe do coração entre o humorístico e a realidade de uma actividade que fez história, que já está em livros. Faz parte da história de Aveiro. Quem a quererá olvidar? Quem a quererá trocar pelo sal da Tunísia?

“Isto está a acabar: das 300 marinhas que havia há trinta e tal anos hoje só já temos a trabalhar nove, mas destas apenas cinco funcionam em pleno. As outras estão a fazer sal aos suspiros, um bocado aqui ou outro ali, numa desorganização confrangedora. Daqui até São Jacinto só vê muros partidos; marinhas não vê nenhuma.

— No seu entender porque é que isto está assim tão abandonado? Falta de pessoal, de estrutura aglutinadora…

— Haver pessoal há, o que falta são condições para podermos trabalhar, viver. Possivelmente formar-se uma empresa, à qual ficássemos agregados, onde tivéssemos, no fim de mês, o nosso ganha-pão garantido. O sal não se vende, não temos a quem vender. O sal desta marinha, que é da Câmara e me está alugada, é de dois anos. Aqui já não há espaço para tirarmos o sal. Estamos ligados aos armazenistas, mas não lhes interessa pôr o nosso sal à venda por causa do sal que vem de França ou da Tunísia, onde ganham mais de meio por meio. A Câmara ficou de nos construir um armazém. Se assim for é um passo andado e conseguiremos escoar o sal, vendendo-o directamente ao consumidor. Aqui não se vende gato por lebre. O sal de Aveiro é mesmo sal de Aveiro. Falta-lhe só a certificação, o que urge que se faça — disse-nos o Banca, adiantando que ainda houve esperança na Cooperativa, mas hoje está falida. “Ainda estamos associados e eu até sou Director da Cooperativa, mas tenho de dizer que temos, presentemente, uma cooperativa de fachada”

A marinha da Troncalhada, que tem cerca de cinco hectares, produziu no ano passado, segundo aquele responsável, cerca de cem toneladas, este ano fica-se por umas quarenta. Neste trabalho é ajudado pelo filho, mas apenas na tiragem do sal.

— É de referir que os tais clássicos moços acabaram em 1984…

— Se tivesse de viver disto morria de fome. De Inverno faço outras coisas — esclarece — reforçando que o sal de Aveiro está morto mais que morto, mas temos possibilidades, se nos derem condições. Daqui a três ou quatro anos temos 30 ou mais marinhas a produzir sal. A Câmara já faz a sua obrigação, não pode ir mais além.

Soubemos que sal da Tunísia ou Francês está a ser comercializado com o rótulo de Aveiro. E o da Tunísia é sal marinho? — eis a questão. Quem zela por uma transparência económica, por salvar o salgado aveirense?