História da Padroeira Texto da conferência que Monsenhor João Gonçalves Gaspar preferiu no Museu de Aveiro, no dia 28 de outubro, no início das comemorações dos cem anos desta instituição.
Em Lisboa, na corte
A princesa Santa Joana, filha de el-rei D. Afonso V e da rainha D. Isabel, nasceu em Lisboa no dia 06 de fevereiro de 1452, sendo logo jurada como herdeira do trono – privilégio que o irmão D. João, nascido em 03 de maio de 1455, inocentemente vir-lhe-ia a usurpar. Órfã de mãe aos quatro anos de idade, pela morte da rainha em 02 de dezembro de 1455, a princesa desde logo procurou praticar a mais edificante virtude, apesar do fausto e do ambiente da corte que a rodeavam; e assim foi crescendo, acompanhada desveladamente por sua tia, D. Filipa de Lencastre, filha do infante D. Pedro, senhora de vasta erudição e versada em várias línguas. A circunstância de ser órfã desde tenra idade ajudou-a a amadurecer mais rapidamente, porque a dor e a responsabilidade apressam o desenvolvimento da personalidade. Também recebeu as lições da leitura, da escrita e da oração em português e em latim, ministradas pelos pedagogos frei João Rodrigues e padre dr. Vasco Tenreiro, e pelo humanista italiano Mateus de Pisa, que já por 1446 estava em Portugal ao serviço do príncipe D. Afonso (futuro rei), vindo a falecer em 1466. Teve ainda a oportunidade de ler e reler as obras correntes na época, algumas saídas da pena dos seus antepassados próximos, como D. João I, D. Duarte, o infante D. Pedro e D. Afonso V. Mas não só. Tantas vezes recolhida no seu oratório particular, meditou e interiorizou muitas das páginas da Sagrada Escritura e refletiu sobre os conceitos da ‘Vita Christi’, manuscrito que fora redigido por Ludolfo de Saxónia, prior da Cartuxa de Estrasburgo, falecido à volta de 1370, e que o infante D. Pedro teria adquirido numa das suas ‘partidas’ pela Europa para oferecer a sua filha, a infanta D. Isabel (mais tarde rainha e mãe de D. Joana), que o mandou traduzir. Também teria manuseado alguma literatura sobre as vidas de santos e de heróis. A princesa, à medida que ia prosseguindo na idade, debruçar-se-ia ainda sobre o assaz conhecido ‘Espelho de Cristina’, versão portuguesa de ‘Le Livre des Trois Vertus’, escrito por volta de 1405, sendo sua autora Christine de Pisan – mulher que fez os estudos e recebeu educação esmerada em Paris, na corte do rei de França, numa época de grande esplendor cultural e artístico. Um apógrafo do livro, talvez trazido também pelo infante D. Pedro, chegou às mãos da aludida sua filha, que, entre 1447 e 1455, o mandou traduzir para poder ser útil na formação feminina, dentro dos limites do respeito e dos deveres morais e sociais.
A par disto, D. Joana preocupava-se com o cumprimento das obras de misericórdia, ordenando que se distribuíssem esmolas, vestissem pobres, visitassem presos, confortassem doentes e ajudassem desamparados, peregrinos e estrangeiros. Ela própria mandava que, em quinta-feira santa, lhe trouxessem doze mulheres, «as mais estrangeiras, pobres e miseráveis», sem lhes dizerem para onde iam; por si mesma, de joelhos, seguindo o exemplo de Cristo, no segredo da sua câmara, lavava-lhes os pés e as mãos, os limpava e os beijava; por fim, vestia-as e dava-lhes dinheiro para alimentação e calçado. E, antes de sair de Lisboa e deixar o paço, distribuiu dotes às suas donzelas que a serviam e benesses aos seus oficiais.
Em Aveiro,
no mosteiro de Jesus
No desejo de seguir o seu projeto de vida religiosa na consagração a Deus, D. Joana deixou a corte e resolveu vir para a pobre vila de Aveiro, entrando no mosteiro de Jesus em 04 de agosto de 1472; contava vinte anos de idade. Depois de refletir profundamente durante algum tempo, tomou o hábito albi-negro da Ordem de S. Domingos e iniciou o noviciado de formação em 25 de janeiro de 1475.
A partir de então, a princesa, como qualquer noviça, passou a fazer vida em comum, sob a orientação da mestra, madre Isabel Luís. Conforme lho permitiam a fragilidade do organismo e a debilidade da saúde, não se furtava às obrigações do coro, à ementa vulgar da mesa, à maneira simples do vestuário e a tudo o que lhe competia. Causava admiração o modo como se adaptara aos diversos serviços; coisas que nunca tinha feito nem jamais viria fazer, saíam-lhe tão naturais como a qualquer das antigas criadas. Pela sua ordem, transportava a água-benta, a cruz ou os ciriais, acendia e apagava as velas, entoava os versículos e as antífonas, fazia as leituras do ofício, ia à estante e registava os livros. No dia do sacramento da Reconciliação, esperava na claustra a sua própria ocasião, «para ir como a mais pequena noviça em seu grau». No passadio, não aceitava «iguaria» que não fosse para todas, nem se desgostava do menos apetitoso alimento; e «não comeu nem bebeu mais em prata, mas malga de barro era sua humilde baixela». Servia-se da cama conventual, sem conforto, com lençóis de sarja ou de lã; usava peças de vestir, ligeiras no feitio e na fazenda, que não a diferençavam das outras irmãs. Aprendeu a fiar e a fazer cilícios e disciplinas e, por suas próprias mãos, curava chagas e feridas. Segundo o costume dos conventos femininos, às semanas e por vez, visitava as irmãs doentes de quem carinhosamente cuidava, servia no refeitório e na copa, limpava o trigo, amassava o pão e tratava da roupa. Em varrer o chão, assear a casa, arrumar objetos e utensílios, lavar as acomodações de aves e animais, acarretar lenha, telhas e tijolos, também era uma qualquer, pois no mosteiro não havia ainda servas ou fâmulas. Nem se distinguia nos momentos de descanso ou de recreio, a não ser na alegria e na animação que lhes dava. Não lhe agradavam possíveis dispensas, por muito que a prioresa estivesse disposta a conceder-lhas, nem consentia «lhe fossem feitas cerimónias de cortesia em obras e falas». Sempre serviçal, aconselhava e socorria as irmãs atormentadas pela angústia ou pela dúvida; «conhecendo em alguma religiosa não andar em paz com sua consciência e trazer fadiga espiritual, por todos os modos e maneiras que podia e sabia ela dava sua alma e corpo em sacrifício por inteiramente a remediar e consolar, cumprindo em si mesma o mandado do Salvador pondo sua alma e vida pelas do próximo e amigos e por elas lançando lágrimas de dor e compaixão».
Deixou de receber as visitas de senhores nobres, limitando-as apenas a pessoas eclesiásticas – «a saber, cardeal, arcebispos, bispos, prelados e religiosos» – que somente lhe viessem falar «das Sagradas Escrituras e coisas de Deus». Para suprimir a designação que lhe identificava o nascimento real, nem sequer queria assinar ‘Infanta’, sendo necessário que a prioresa lho impedisse, quer por homenagem a pais tão excelentes e virtuosos, quer para edificação das religiosas que assim recordariam a nobre condição da humilde princesa. Nas tabelas dos ofícios corais e dos deveres domésticos, aparecia o seu nome em último lugar, por ser a mais nova das noviças: ‘Irmã Infanta Joana’. «Não é possível coisa poder-se dizer e menos crer a grande e profunda humildade, obediência e sujeição desta senhora infanta, espelho de todas as virtudes» – assim escreveu a memorialista.
Como lia e entendia o latim, gostava de bons livros neste idioma, adquirindo uns para si e comprando outros para o mosteiro, ainda necessitado de breviários capazes para o ofício coral. Sabendo que, no convento dos dominicanos de Benfica, existia um magnífico breviário de estante e um diurnal, ambos escritos à pena e em pergaminho, propôs a sua compra aos padres, então reunidos em capítulo naquele convento; estes concordaram em vendê-los a troco de uma soma razoável de cruzados. D. Joana solicitou ao pai que lhe desse o dinheiro suficiente para a aquisição; D. Afonso V satisfez o pedido da filha, e o mosteiro de Jesus viu-se provido daqueles livros para o coro.
A princesa, que em Lisboa tivera estado real e governara soberanamente o seu paço, sentia-se agora feliz em obedecer; realizava-se e encantava-se na humildade – virtude que, não querendo esquecer no dia-a-dia, ambicionava praticar sempre com maior perfeição. Fiado por essa roca e pelas mãos delicadas de D. Joana, saiu linho para toalhas, corporais, palas e sanguinhos de altares – fruto de uma perfeita simbiose do esforço e do trabalho com o silêncio e a oração.
Frei Luís de Sousa, comentando o teor de vida da filha de D. Afonso V, escreveu ser ela, na verdade, um «espelho em que se deviam ver e a ele compor vidas e costumes todos os sujeitos que buscam a religião: os que nasceram grandes para se saberem humilhar e os pequenos para se lembrarem sempre da pobreza de seu pó e não pretenderem inchar-se onde os maiores se abatem». Desenganem-se completamente – continua o mesmo cronista dominicano – os que «vindo buscar a humildade de Cristo não queiram sujeitar-se a todas as leis dela no trato, no vestido, na comida, na clausura, no trabalho, no abatimento!» Seria «manter no ermo os fumos da Babilónia»; seria povoar as comunidades conventuais de «profanadores da religião, não religiosos». Numa humanidade de rosto indiferente, frio e empobrecido, só no autêntico amor se encontrará a força para as soluções radicais e para os compromissos definitivos. Quando um homem ou uma mulher não forem capazes de entregar a vida por amor, não têm outro motivo para a entregar. A questão será ter coragem de amar sem medo, Santa Joana foi desta têmpera.
Protetora dos aveirenses
Embora obrigada a suspender o noviciado por motivo de saúde e por conselho de médicos e confessores, Santa Joana continuou a viver no recolhimento do mosteiro; mas, como se habituara por formação desde a infância, a princesa prosseguiu em múltiplas ações de bem-fazer. Eram os auxílios materiais e espirituais; eram as palavras de pacificação e consolação; eram as orientações em dúvidas inquietantes e em lutas interiores; eram as visitas de conforto às irmãs doentes; eram as admoestações pela mudança de vida de quem, na vila de Aveiro, vivia desonestamente; eram as lições de catequese cristã aos mouros, escravos e escravas, que el-rei, seu pai, lhe enviava e que, uma fez instruídos na fé católica, ela forrava, defendia e fazia felizes, casando-os e não esquecendo os próprios filhos destes.
Todavia, se D. Joana se interessou pelo mosteiro e pelas religiosas dominicanas – a que chamava a sua ‘Lisboa, a pequena’ – também foi alma aberta às gentes e às coisas da vila de então, cujos habitantes considerava como entregues aos seus cuidados, especialmente os mais necessitados. Neste capítulo, sabe-se que ela, em 28 de abril de 1483, escreveu aos vereadores da Câmara Municipal de Coimbra, rogando que retomassem o carpinteiro João Fernandes no ofício de aferidor de medidas, para que o pobre homem usufruísse do ordenado de que carecia. E agradeceu como feito a si própria o favor de o reconduzirem no emprego.
Também em 28 de julho do mesmo ano, a pedido dos interessados, aceitou por contrato o senhorio de Britiande, Várzea da Serra, Mezio e Campo Benfeito, a sul de Lamego, para guardar os privilégios, liberdades, foros, usos e bons costumes dessas terras serranas da Beira-Alta – o que foi ratificado por el-rei, seu irmão.
Sob outro aspeto, a sua ação em defesa de Aveiro ficou bem demonstrada na resolução do caso ocorrido em 1487, quando, em tempo de peste, os campos estavam abandonados, escasseava o pão e rareavam os mantimentos. A Câmara Municipal aparelhara com carga o navio ‘Cadramoz’ para seguir com destino à ilha da Madeira, o qual voltaria com um carregamento de trigo. Chegando, porém, ao litoral aveirense, o mestre Pero de Lemos não pôde entrar na ria e viu-se coagido a rumar para a foz do Douro; os portuenses, ao darem com aquele inesperado e apetecido tesouro, apreenderam o navio e a carga. Dado o alarme para Aveiro, os juízes, vereadores, procurador e homens bons da vila acorreram a D. Joana, tornada sua conterrânea e amiga, a fim de ela intervir favoravelmente junto do Senado da cidade do Porto. Efetivamente, a solícita princesa escreveu em 04 de outubro, por inter-médio de Álvaro Luís, às autoridades nortenhas, fazendo-lhes ver que a arribada do navio fora forçada e que o seu carregamento pertencia a Aveiro; «eu vos rogo muito e vos encomendo – lia-se na carta – que deixeis vir o dito navio com seu pão para a minha dita vila […], em o que sede certos em que, se fizerdes em maneira que por isso não recebam agravo, me fareis prazer e serviço e vo-lo agradecerei muito». Dada a categoria da suplicante, decerto que a diligência alcançou o resultado previsto.
Na verdade, sempre desprendida dos bens temporais e amiga da virtude da pobreza, D. Joana deu um singular exemplo de pessoa interessada pelo bem de todos. Acerca da sua faceta de bem-fazer, conclui-se pelo testemunho do humanista Cataldo Parísio Sículo, que a princesa era de uma generosidade extrema, senão mesmo algo ingénua, sendo dadivosa para com todos sem exceção, não distinguindo dos pobres verdadeiros os que eram viciosos e falsos pedintes; entre estes, o referido autor enumerou ‘peregrinos’ que nunca tinham ido a Roma, a Jerusalém ou a Compostela, ‘náufragos’ que nunca tinham andado sobre as ondas do mar, ‘estudantes’ que nunca tinham frequentado qualquer escola, ‘frades’ que nunca tinham estado em nenhum convento, ‘aleijados’ de boa saúde, criminosos da mais variada espécie…
Já muito doente e quase sem forças, Santa Joana, que nem sequer era noviça, sentava-se ao lado da estante do coro durante o canto das orações litúrgicas, e era um esteio seguro para a irmã titubeante na voz e na melodia. Se era dotada e adquirira formação humanista, entendia ser seu dever ajudar na caridade, mesmo nessas circunstâncias. E, nas derradeiras horas da sua vida, foi pedindo que não se afligissem por ela, mas que todas estivessem «alegres umas com as outras em Deus» – repetia, afirmando que ia para o muito bom Senhor, junto de quem se lembraria de todas. Pensava sobretudo nas outras pessoas… até à suprema hora da morte!…
Este momento chegou na madrugada do dia de 12 de maio de 1490; contava trinta e oito anos e três meses de idade, dezoito dos quais vividos em Aveiro.
Os sinos, no convento e na vila, não paravam de dobrar plangentemente a finados. A gente de Aveiro acordara sobressaltada, mas pressentia o motivo. De casa em casa, a consternação era geral; morrera a protetora dos aveirenses, a mãe dos pobres, dos órfãos e das viúvas. Iriam sentir a falta aqueles que careciam de pão na improvisada mesa familiar, não possuíam habitação ou roupa, saúde ou trabalho, haviam perdido o sentido da vida e a companhia de uma verdadeira amiga, se viam sem amor, alegria e esperança; os pobres iriam ser ainda mais pobres, sem aquela que com eles partilhava a dor e a solidão. E as religiosas do mosteiro? Causava-lhes profunda dor só o pensar que já não tinham consigo aquela que, a cada uma, «consolava, alegrava, aconselhava e agasalhava»; que já não tinham a quem ir quando, cansadas, procuravam algum repouso, algum conselho ou esclarecimento.
Memória agradecida
Acabadas as exéquias pela defunta, todos se retiraram em silêncio pesado e compungido. Mas nem todos… porque, na igreja, continuava grande parte da assistência, «dando vozes de muita miséria e dor; e cada um, tanto mais quanto conhecia e sentia a sua dor e orfandade e desamparo ser maior». A romaria, em volta da sepultura, que então começara, iria continuar… e ainda hoje perdura. Então era de luto e de dor; hoje é de memória agradecida e de culto piedoso. Beatificada pelo papa Inocêncio XII em 04 de abril de 1693, tumulada em precioso mausoléu marmóreo em 23 de outubro de 1711, invocada como protetora de Aveiro a partir da sua morte e reconhecida oficialmente como nossa padroeira pelo papa Paulo VI em 05 de janeiro de 1965, a princesa Santa Joana é uma personagem marcante da era quatrocentista na história de Portugal e, particularmente para nós, uma personagem singular na história de Aveiro.
Para as gentes cristãs da Beira-Ria, no meio de quem a princesa viveu, as suas relíquias venerandas não podem ser – nem são – apenas um mero objeto de museu; consideram-se, sobretudo, como termo de piedosas peregrinações e rodeiam-se com o incenso de religioso amor e com o murmúrio de profunda prece. É que as personagens eminentes do passado serão tanto mais válidas no presente, quanto mais a sua memória inesquecível e o seu testemunho extraordinário se tornarem patentes na vida de todos os dias.
