A Árvore de Zaqueu*
* «Porque era de baixa estatura, subiu a uma árvore para ver Jesus» (Lucas 19,3-4)
Se treparmos até ao cimo, todas as coisas da vida servem para ver melhor.
VI DOMINGO TEMPO COMUM – C
Assim reza a tradicional cantiga açoreana afamada por Zeca Afonso. Com nome tão «feliz», como é que este navio veio a naufragar? Trata-se, na verdade, de uma forma simplificada de «Macário», adjectivo que, no grego antigo (antes de Cristo), só era aplicável aos seres divinos, significando que eles estão isentos de todos os cuidados humanos. Com o tempo, aplicou-se aos seres humanos, quando a situação destes fazia lembrar o bem-estar dos deuses. Estranhamente, é com este adjectivo que S. Lucas classifica os que agora se encontram em sofrimento, por oposição àqueles que parecem estar bem na vida.
Quem não se sentiria em segurança, viajando num navio de nome tão promissor?
O pior é que não basta ter bom nome – embora convenha muito ser bem parecido!
Quando S. Lucas fala dos «macários» que choram, que têm fome, que são pobres… e dos «não macários» que são ricos, fartos, e gozam de boa vida… não estará a pensar que as coisas não são o que parecem?
É que nem uns nem outros se definem pelo nome – como ninguém neste mundo. Nem há, nesta vida, «nomeações definitivas».
O texto de S. Lucas é mesmo chocante: quer pelo realismo tão cru, quer pela dureza do estilo ao invectivar os «agora felizes». Aliás, esta dureza condiz tão pouco com o estilo habitual de Lucas, que há quem ponha em dúvida a autenticidade dos «ais» ameaçadores. Porém, a antítese felizes/infelizes é uma figura literária frequente em todo o Antigo Testamento e particularmente nos livros proféticos. Não se trata de modo nenhum de bênção para uns e maldição para outros (o que seria um ridículo juízo divino – o «juízo final» é que recompensa ou castiga a orientação positiva ou negativa que cada ser humano livremente tomou), mas de alerta para uns e outros: quem está mal não se deve julgar condenado e quem está bem não se deve julgar premiado. Todas as situações neste mundo servem para bem e para mal. Todos sabemos muito bem que a pobreza também leva ao crime e à guerra – mas a riqueza e poder também o fazem e de um modo muito mais planeado e sofisticado, com a lógica fria de quem pode ser o opressor e o abusador. Por outro lado, o esforço conjugado de uns e outros e a sabedoria de como investir na justiça transformariam, como diziam os profetas (ver Isaías 2,4), as espadas em arados.
Lucas revela, nos seus escritos, sensibilidade à «questão social», sabendo que o verdadeiro discípulo de Cristo tem que se preocupar pelo bem-estar de todos (este evangelista fala muito no que pode estar implicado em «ser discípulo»). São os nossos sentimentos e acções que fornecem a matéria-prima para o «reino de Deus», como num campo onde há trigo e joio. O aparecimento de Jesus é visto como o enraizamento do tempo da justiça – e de um modo que continua a chocar a humanidade e a desafiá-la para superiores «performances».
A esperança de justiça é fundamental, mas definha sem o exercício de actos justos, seja qual for a situação na vida. No texto de Lucas, a aplicação ao presente mostra como é neste que se vê o futuro.
De resto, as leituras de hoje deixam transparecer que todos desejamos ser «macários» (mas nunca fiando, que já alerta a sabedoria popular: «Fia-te na Virgem e não corras…»).
Jeremias não quer apostar no que morre: aposta apenas naquele que é Vida.
Para S. Paulo, se não acreditamos que Jesus Cristo vive desta Vida, não vale a pena ter pretensões de a vivermos algum dia. A experiência de Cristo vivente é como que o protótipo da nossa experiência como seres ancorados na vida e não na morte, por muito que esta pareça retirar-nos da vida (nem faz sentido pôr a vida ao mesmo nível da morte).
E para S. Lucas? A experiência de Deus, tão visível em Jesus, alargou os nossos horizontes de vida e mostrou como são insuficientes e erradas as regras de jogo de uma vida estreita. É necessário apostar, mesmo nos negócios desta vida, numa segurança de grande visão e «a longo prazo».
Não é por nos agarrarmos ao «São Macaio», que este deixa de ir ao fundo (e nós com ele). «Toda a gente se salvou», continua a cantiga. Pois, porque se afastaram a tempo do «São Macaio»…
Manuel Alte da Veiga
