São Nicolau de Flue-Sachen

Poço de Jacob – 57 Poucos o conhecem. É o padroeiro da Suíça. Conheci-o por um acaso providencial. Nasceu em 1417. Foi camponês de boas posses. Foi juiz e casado com Doroteia. Teve dez filhos. Um dia, quando tinha 50 anos, Deus convidou-o para deixar tudo.

Não nos admiremos. Na sociedade de hoje, a cada passo, a crise dos quarenta e a falta de princípios arrastam homens e mulheres casados para aventuras que destroem lares e empresas no afã de gozar a vida, esquecendo-se de filhos, empresas, cônjuge, promessas, famílias, etc.

Conheço casos de homens e mulheres. Há dias, uma mãe veio chorar no aconchego da Igreja por causa do filho preso há 10 anos, por assassinato. Era homem honrado até aos 40. Bombeiro. Trabalhador. Bom filho e bom irmão. Por sorte, era solteiro, se não, mais gente choraria hoje. O mundo da droga e uma mulher casada no seu caminho, a falta do sentido do pecado e até da vida, mergulharam-no no inferno da droga. E hoje é um farrapo humano, consumido pelo vício e enchendo de lágrimas a velhice da sua mãe.

Mas Deus também chama para Ele. E há quem largue tudo para o seguir. O resultado é inverso ao dos que se perdem.

Apesar das dores de separações necessárias e muita renúncia, reina a paz e a confiança nos corações empenhados em cumprir a vontade de Deus. Assim foi com este Nicolau. Depois de muitas lutas interiores e orações, ele e a esposa decidiram separar-se. Deus chamava-o, imaginem, para ser eremita. E a esposa devia dar o seu consentimento. Para quem é casado, a vontade de Deus só se manifesta no assentimento, ou não, do cônjuge, caso ele seja vivo. Doroteia teria de cuidar da casa, terras e dos filhos ainda menores, pelo menos alguns. Os filhos mais velhos também deram o seu consentimento. Viveu mais 30 anos num belíssimo vale vizinho. Amava sua esposa. Mas renunciou a tudo para viver de penitência e oração.

Apesar de estar a um quilómetro de sua casa, não aceitava nada da família. Era consultado até por reis. Foi um grande pacificador em guerras internas do país e entre nobres e povo. Como outros santos, só se alimentou da Eucaristia diária. Rezava a Nossa Senhora e é representado com um terço na mão. Evitou a guerra civil no seu país. Morreu em 1487. Foi canonizado por Pio XII. João Paulo II visitou a sua casa e ermida. É interessante que hoje é representado ao lado de Doroteia, como casal. Modelo de família cristã.

Parece um paradoxo. Mas, como lá nos explicaram, o amor não é os dois viverem juntos porque se gostam. Isto, está provado, não leva a nada. Mas os dois, sim, viverem juntos por terem, no amor, um projecto comum e olharem os dois para a mesma direcção. Neste caso, o projecto comum veio da vontade de Deus, através do convite misterioso para a vida de eremita, ele no vale, ela na montanha, cuidando dos filhos e da casa. A vocação foi um mistério que não atingiu só o marido, mas também toda a família. Lembrei-me dos mordomos de nossas igrejas e as zeladoras, que gastam tantas horas ao serviço da comunidade. Os catequistas, eles e elas, alguns casados e com filhos, os membros dos conselhos pastorais e económicos. Se ali estão, supõe-se que a maioria tem o assentimento, por vezes sacrificado, da família toda. Na hora de agradecer, é preciso referenciar os que nos bastidores também disseram sim à renuncia de serões juntos, passeios, convívio, refeições… e ficaram simplesmente nos bastidores. Mas lembrei-me também dos diáconos permanentes. Há dias, ao ouvir um colega a falar do trabalho do diácono permanente da sua paróquia, fiquei admirado com a carga que lhe era confiada, e vinha de tão longe. Ao interpelá-lo sobre isso, ele disse que o fazia com alegria e amor. Lá em casa, a esposa. Doente, silenciosa, sofrida, mas fiel no seu sim.

S. Nicolau bem poderia ser considerado o padroeiro dos nossos queridos e necessários diáconos permanentes. Como sacerdotes, em nome de todos nós, o obrigado aos Nicolaus-diáconos de Aveiro e às suas Doroteias-esposas… Bem-hajam, pelo vosso sim ao projecto que não vos separa mas que vos une no grande amor que é Deus.

P.e Vitor Espadilha