Ano Paulino Na proximidade do dia da Conversão de São Paulo (25 de Janeiro) e da peregrinação nacional da Fátima (24 e 25 de Janeiro), apresenta-se esta figura marcante da fé cristã por meio de 23 palavras-chave entre muitas outras possíveis. Texto de Jorge Pires Ferreira.
Apóstolo
Paulo não foi um dos Doze. O seu nome não surge nos quatro evangelhos. Mas foi Apóstolo. Aliás, é conhecido por “o Apóstolo”. Ninguém como ele assumiu o sentido da palavra: “ser enviado”. É apóstolo, em “nada inferior aos superapóstolos” (2 Cor 12,11), ainda que não tenha conhecido o Evangelho “à maneira humana”, “mas por uma revelação de Jesus Cristo” (Gl 1,11). Por isso, inicia as suas cartas com uma saudação deste género: “Paulo, apóstolo por vontade de Jesus Cristo…”
Benjamim
Tribo a que pertencia Paulo (tal como o primeiro rei de Israel, Saul). Apresenta-se assim em Fl 3,5-6: “Circuncidado ao oitavo dia, sou da raça de Isarel, da tribo de Benjamim, um hebreu descendente de hebreus; no que toca à Lei, fui fariseu…” Tinha orgulho nos seus pergaminhos. Mas depois… “Tudo quanto para mim era ganho, isso mesmo considerei perda por causa de Cristo… por causa da maravilha que é o conhecimento de Cristo” (Fl 3,7-8)
Caridade
O “hino à caridade” ou “cântico do amor” é dos textos mais apreciados de Paulo. Muito lido em casamentos, não fala propriamente do amor entre homem e mulher, mas de um “caminho que ultrapassa todos os outros” e que pode estar presente em todos os estados de vida. “Ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas, se não tiver amor, nada sou (…) Ainda que entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada me aproveita” (1 Cor 12,31-13,13).
Damasco
Foi perto da capital da Síria que Paulo se viu “subitamente envolvido por uma intensa luz vinda do céu”. Apareceu-lhe o próprio Jesus que perseguia. Começa a conversão de Paulo. Dirigia-se às sinagogas de Damasco “a fim de que, se encontrasse homens e mulheres que fossem desta Via [ou seja, cristãos], os trouxesse algemados para Jerusalém” e continua o caminho, mas deixa de ser perseguidor, para passar a perseguido. “Passado muito tempo, combinaram matá-lo” (Act 9,23).
Epístolas
Paulo é o autor mais lido de sempre. Não é o que mais livros vendeu, mas a leitura dominical de um dos seus textos, habitualmente a segunda leitura, faz de Paulo o autor mais lido e ouvido. Das treze cartas que são atribuídas a Paulo, nem todas serão do próprio. Os entendidos dividem-nas em proto-paulinas (as que ele e o seu secretário escreveram: Romanos, Gálatas, 1 Tessalonicenses, 1 e 2 Coríntios, Filipenses e Filémon), e dêutero-paulinas (escritas talvez pelos seus discípulos: 1 e 2 Timóteo, Tito – também conhecidas por “Cartas Pastorais” – e Efésios, Colossenses, 2 Tessalonicenses).
Fracasso
Na fé cristã, os óculos do sucesso e do fracasso de pouco servem. Aparentemente a vida de Paulo teve diversos fracassos. Os atenienses troçam dele (Act 18,32). Tem de refutar calúnias (2 Cor 10,1ss). O seu carácter de apóstolo é posto em causa e tem de se defender perante as críticas (1 Cor 9,1ss). A vida de missionário não é fácil. “Cinco vezes recebi dos judeus os quarenta açoites menos um. Três vezes fui flagelado com vergastadas, uma vez apedrejado… Perigos nos rios, perigos dos salteadores, perigos da parte dos meus irmãos de raça, perigos na cidade… perigos da parte dos falsos irmãos”, escreve em 2 Cor 11,24-26. Mas… “de bom grado prefiro gloriar-me nas minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo… Pois quando foi fraco, então é que sou forte” (2 Cor 12,9s).
Galamiel
Paulo teve educação de fariseu. Gamaliel foi seu rabi. “Sou judeu, nascido em Tarso da Cilícia, mas fui educado nesta cidade [Jerusalém] aos pés de Gamaliel, em todo o rigor da Lei dos nossos pais e cheio de zelo pelas coisas de Deus” (Act 22,3)
Homem
Ao longo da história, muitas revoluções são feitas em nome do Homem, para libertar o Homem. Paulo é colaborador da maior das libertações, a da filiação em Deus. “É que todos vós sois filhos de Deus em Cristo Jesus, mediante a fé; pois todos os que fostes baptizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo mediante a fé. Não há judeu nem grego; não há homem e muher, porque sois todos um só em Cristo Jesus” (Gl 3,28).
Ibéria
Não se sabe se Paulo chegou a empreender a viagem à parte mais ocidental do Império Romano. Há quem diga que é provável. O desejo ficou escrito na Carta aos Romanos: “Há muitos anos que ando com tão grande desejo de ir ter convosco, que quando for de viagem para a Espanha… ao passar por aí espero ver-vos” (15, 24). Espanha refere-se, naturalmente, à Península Ibérica.
Jesus
Jesus Cristo é o princípio, o centro e o fim da vida de Paulo. Di-lo de muitas formas. Mostra-o com a vida. “Estou crucificado com Cristo. Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,19). “Se morremos com Cristo, acreditamos que também com Ele viveremos” (Rm 6,8). “Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a forme, a nudez, o perigo, a espada?” (Rm 8,35). “Corro, para ver se o alcanço, já que fui alcançado por Cristo” (Fl 3,12).
Lei
A Lei é o conjunto de obrigações reconhecidas por Israel como reveladas por Deus através da mediação de Moisés. Paulo considera que com Jesus a Lei deixou de ter sentido. As obras da Lei são incapazes de justificar o ser humano. “Justificar” quer dizer “salvar”. Só (a fé em) Jesus pode salvar (cf. Gl 2,16). As boas obras não são causa de salvação. São consequência de quem se sabe salvo. “Todos, sem o merecerem, são justificados pela graça de Deus, em virtude da redenção realizada em Jesus Cristo” (Rm 3,24). “Quem ama o próximo cumpre plenamente a lei” (Rm 13,8).
Missionário
Paulo é o missionário incansável, é o modelo de evangelizador. Tem sempre presente o conteúdo do anúncio (“Enquanto os judeus pedem sinais e os gregos andam em busca da sabedoria, nós pregamos um Messias crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios”, 1 Cor 1,22). Tem método e pedagogia (“Prefiro dizer cinco palavras com a minha inteligência, do que mil em línguas” 1 Cor 14,19; “Como hão-de invocar aquele em que não acreditaram? E como hão-de acreditar naquele de quem não ouviram falar? E como hão-de ouvir falar, sem alguém que o anuncie?”, Rm 10,14). Tem consciência de instrumento (“Quem é Apolo? Quem é Paulo? Simples servos, por cujo intermédio abraçastes a fé, e cada um actuou segundo a medida que o Senhor lhe concedeu”, 1 Cor 3,5; “Fiz-me servo de todos para ganhar o maior número”, 1 Cor 9,19). Sabe onde está a sua fragilidade e força (“Trazemos este tesouro em vasos de barro, para que se veja que este extraordinário poder é de Deus e não nosso. Em tudo somos atribulados, mas não esmagados; confundidos, mas não desesperados; perseguidos, mas não aniquilados; abatidos, mas não abandonados” 2 Cor 4,7-9). Aguenta com paciência as tribulações, os açoites, as prisões (2 Cor 6,4).
Nome
“Saulos” é a forma grega de “Saul”, nome judeu de Paulo. Nos Actos, a forma hebraica “Saul” (traduzida por “Saulo”) encontra-se sempre na boca dos que falam hebraico ou aramaico: Jesus Cristo e Ananias (9,4.17; 22,7.13; 26,4).
Oração
As cartas de Paulo estão pontuadas de hinos que são belíssimas orações: Eis algumas: Rm 8,35-39; 1 Cor 13,1-13; Ef 1,3-3,21; Fl 2,5-11; Cl 1,15-20.
Pagãos
Paulo é o apóstolo dos pagãos, dos gentios. Percebe, primeiro que todos os outros, que a luz do Evangelho não pode ficar encerrada nos cristãos de origem judaica. “Voltamo-nos para os pagãos, pois assim nos ordenou o Senhor: «Estabeleci-te como luz dos povos, para levares a salvação até aos confins de Terra»” (Act 13,47). O anúncio aos pagãos quase causava a primeira divisão entre os cristãos. Alguns diziam que os pagãos, para serem cristãos, tinham primeiro de cumprir a Lei de Moisés. O Concílio de Jerusalém (Act 15) esclarece que não. Esta questão é motivo de discussão entre Pedro e Paulo (cf. Gl 2,11)
Queda
“Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: «Saulo, Saulo, porque me persegues?»” (Act 9,4) Esta queda marca o início da conversão de Paulo. Diz a tradição que Paulo caiu do cavalo. E assim é pintado. Mas o Novo Testamento é omisso quando a isso. A conversão de Paulo é comemorada a 25 de Janeiro. A 29 de Junho celebra-se a festa das duas colunas da Igreja, Pedro e Paulo.
Roma
Capital do Império. Paulo sabe que tem de ir a Roma para que o Evangelho chegue a todas as pessoas. Lucas, que segundo a tradição é discípulo de Paulo, mostra bem o percurso Boa-Nova. No Evangelho, a Boa-Nova (Jesus), sai da Galileia e faz o percurso até Jerusalém. No Actos, sai de Jerusalém e, com Paulo, vai até Roma. Objectivo: chegar a todo o lado.
Salvação
“Para mim, viver é Cristo e morrer, um lucro” (Fl 1,21). A salvação (ou justificação) é o resultado da corrida para Cristo. Aliás, é a própria corrida.
Trabalho
Paulo trabalhava com as suas próprias mãos. Apesar de achar que como Apóstolo teria direito ao sustento (2 Cor 9,6-8), não queria ser pesado para as comunidades e só dos filipenses aceita auxílio económico (Fl 4,16). Actos diz que Paulo era “fabricante de tendas” (10,3). Em 2 Ts 3,10 um discípulo de Paulo escreve: “Se alguém não quer trabalhar também não coma”.
Últimos anos
O Novo Testamento não refere a morte de Paulo. O livro dos Actos termina com São Paulo em Roma, “anunciando o Reino de Deus e ensinando o que diz respeito ao Senhor Jesus Cristo, com o maior desassombro e sem impedimento” (Act 28,31). Paulo vai para Roma porque, no meio de perseguições e julgamentos judaicos, sendo igualmente cidadão romano, decide apelar a César (Act 25,11). Morre em 67 d.C., quando Nero é o César, numa das primeiras perseguições aos cristãos. O seu túmulo encontra-se na basílica de São Paulo Extra-Muros, na Via Ostiense, local apontado como sendo o do seu martírio. São Paulo é representado com uma espada porque foi esse o instrumento do martírio. Sendo cidadão romano, foi decapitado.
Viagens
Paulo serve-se dos meios de que o Império dispõe para anunciar o Evangelho. As vias terrestres e marítimas ao serviço do Evangelho. O livro dos Actos apresenta tês “viagens missionárias” (13,1-14,28; 15,35-18,22; 18,23-21,26) mais uma “de cativeiro” (27,1-28,29).
X de Incógnita
Há algumas incógnitas em relação a Paulo. Há incertezas quanto aos últimos anos. Diz-se, também, que sofria de uma doença, a que chama “espinho na carne” e “anjo de Satanás” (2 Cor 12,7). Não se sabe, inclusive, se seria casado ou não (1 Cor 9,5). Mas sabe-se onde está a sua glória. “Quanto a mim, porém, de nada me quero gloriar, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gl 6,14).
Zelo
Praticante do judaísmo ou como cristão, o zelo caracteriza Paulo. É um zeloso perseguidor (Act 8). “Tão zeloso eu era das tradições dos meus pais” (Gl 1,13). Mas reencaminha toda a força para Cristo. “Tudo perdi e considero esterco a fim de ganhar a Cristo” (Fl 3,8).
