A morte de Saramago (Azinhaga, Golegã, 16 de Novembro de 1922 — Tías, Lanzarote, 18 de Junho de 2010) não deixou a Igreja Católica indiferente. No sítio do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC), dependente organicamente dos bispos portugueses, uma nota do dia 18 de Junho, por “dever de cordialidade”, realça a aproximação do Nobel do texto bíblico e lamenta os “balizamentos ideológicos”. “Como é público, o cristianismo e o texto bíblico interessaram muito ao autor como objecto para a sua livre recriação literária. Há uma exigência e beleza nessa aproximação que gostaríamos de sublinhar. O único lamento é que ela nem sempre fosse levada mais longe, e de forma mais desprendida de balizamentos ideológicos. Mas a vivacidade do debate que a sua importante obra instaura, em nada diminui o dever da cordialidade de um encontro cultural que, acreditamos, só pode ser gerado na abertura e na diferença”, escreve o SNPC.
Mais com cepticismo do que com humildade, o Nobel da Literatura português escreveu que “o universo não tem notícia da nossa existência”. Mas o Vaticano tem e deu nota dela no “L’Osservatore Romano”, tanto em 1998, quando Saramago recebeu o prémio máximo da Literatura e o jornal do Vaticano qualificou o escritor português como “vetero comunista”, isto é, comunista dos antigos (a expressão foi mal traduzida na altura e tomada por “comunista inveterado”), como no fim-de-semana passado. Num texto intitulado “A (presumível) omnipotência do narrador”, numa referência ao tipo de narrador que o escritor preferia nos seus romances, Claudio Toscani afirma que Saramago foi “um homem e um intelectual de nenhuma admissão metafísica, ancorado até ao final numa confiança arbitrária no materialismo histórico”.
“Colocado lucidamente entre o joio no evangélico campo de trigo, [Saramago] declara-se sem sono pelo pensamento das cruzadas ou da Inquisição, esquecendo a memória do ‘gulag’, das purgas, dos genocídios, dos ‘samizdat’ culturais e religiosos”, lê-se no longo artigo, interpretado pela imprensa portuguesa como um sinal de que o Vaticano não fez as pazes com o falecido escritor.
Na realidade, se, como tanto se tem dito, a melhor forma de homenagear Saramago é lê-lo, convém não esquecer a matriz ideológica do autor. E nisso o jornal do Vaticano é certeiro. “Relativamente à religião, atada como esteve sempre a sua mente por uma destabilizadora intenção de tornar banal o sagrado e por um materialismo libertário que quanto mais avançava nos anos mais se radicalizava, Saramago não se deixou nunca abandonar por uma incómoda simplicidade teológica”, escreve Toscani. “Um populista extremista como ele, que tomou a seu cargo o porquê do mal do mundo, deveria ter abordado em primeiro lugar o problema das erróneas estruturas humanas, das histórico-políticas às sócio-económicas, em vez de saltar para o plano metafísico”, acrescenta.
O autor mais bíblico
Em Portugal, P.e Tolentino Mendonça, director do SNPC e interlocutor de Saramago em debates sem fundo religioso, realçou numa entrevista à TSF, com três notas, como “um ser humano foge sempre às etiquetas”.
A primeira: “Na altura [do lançamento de “Caim”] disse-lhe: «O Saramago, que faz estas afirmações incendiárias em relação à Bíblia, é contudo o mais bíblico dos autores contemporâneos, porque a sua escrita tem uma musicalidade, uma cadência e uma porosidade por onde a Bíblia entra». E ele sorriu”.
A segunda: “Um outro momento interessante foi quando eu lhe recordei um texto de um amigo dele, um colunista do jornal «El Pais», que escreveu que Saramago não andava longe dos místicos. Saramago concordou e disse que aquele texto lhe tinha agradado muito. E de certa forma, o nada do ateísmo que Saramago proclamava como que se encontra numa viagem diversa…”
“O terceiro apontamento foi eu ter percebido, durante a conversa, que ele estava a guardar uma espécie de trunfo para o final, porque tinha junto de si um volume no qual mexia de vez em quando e que eu não conseguia ver o que era. No fim ele mostrou-mo: era uma edição de Jordi Savall das «Últimas Sete Palavras de Cristo na Cruz», do compositor Joseph Haydn. Essa edição trazia um texto de um teólogo catalão e outro de Saramago. E ele quis muito dizer que é chamado para escrever sobre Jesus, num texto que é de facto muito belo. E ele acaba por afirmar uma coisa que, a mim, que sou crente e teólogo, me interessa muito: para ele, Saramago, não era relevante a forma como Jesus ilumina a questão de Deus, porque para ele essa questão não se põe. Mas é muito importante a forma como a figura de Jesus ilumina a questão do homem, este enigma que nós somos. Ele achava que Jesus iluminava muito esse enigma”.
Teologia do protesto
No final da entrevista, Tolentino Mendonça afirma: “Em José Saramago há muito do que eu chamaria uma espécie de teologia do protesto. Um homem que não aceita soluções fáceis para as grandes perguntas da existência. E que a tudo diz que não, protestativamente. Isso é uma coisa que nos faz bem a todos. Numa cultura muito conformista e de assentimentos fáceis, [é preciso] perceber o seu “não”, mesmo discordando dele e percebendo as limitações de algumas das suas declarações e do seu pensamento. Penso que esse ar de profeta que ele carregava é muito importante porque a cultura e um criador têm também uma responsabilidade civil que é de lançar esse inconformismo, de lançar a pergunta. Nesse sentido, a pessoa de José Saramago cumpria muito bem essa imagem”.
Albert Camus (1913-1960), francês, também Nobel da Literatura, autor do romance “A Peste”, que dizem ser modelo do “Ensaio sobre a cegueira”, escreveu que “a revolta é uma ascese, se bem que cega, porque o revoltado blasfema na esperança de um novo Deus”. Saramago teve esperança em Deus? Conscientemente, dizia que não. Nas cerimónias fúnebres, a ministra da Cultura afirmou: “Saramago não tinha fé em Deus, mas Deus, se existir, certamente teve fé nele”. Não sei se Saramago teria gostado da afirmação, porque decidiu viver “ilhado”, como escreve Pedro José nesta edição. “Ilhado” em mais do que um sentido. “Seu ateísmo, supostamente radical, não ajuda os bons ateus… quanto mais os maus crentes”.
Jorge Pires Ferreira,
com Agência Ecclesia
