Se não é tarde…

1. Os problemas do País não se resolvem com lamentações – é verdade! E nos momentos quentes que atravessamos – os da canícula, os dos incêndios, os de acusações e desmentidos, de afirmação de transparência e de correcções quase imediatas… – não resultam mesmo nada as lamúrias de pessimismo. Como também não resultam as solenes “descobertas da pólvora”, como por exemplo, a da necessidade de um ordenamento florestal capaz, envolvendo sinergias públicas e privadas.

2. Perante o aterrador espectáculo do “ladrão” que nada poupa na sua frente, vivem-se e sentem-se os mais profundos gestos de solidariedade, superando todas as diferenças de opinião, cor da camisola ou da pele, credo religioso ou nacionalidade. Quantas histórias de heroísmo anónimo, em favor do próximo, dos seus bens, do bem público! Aliás, bem visíveis mesmo para além fronteiras, quando a natureza surpreende ou a maldade dos homens cria a devastação.

3. Então e o País não está a arder: na sua atmosfera económica, na sua estrutura produtiva, na sua textura de segurança e garantias sociais, nos seus equilíbrios demográficos, no seu processo educativo…? E não somos capazes de depor, nessas circunstâncias, os brios clubísticos, o fanático hábito de procurar ganhos nas perdas dos outros, para pormos em prática estratégias consistentes de reabilitação?

4. Um Presidente da República leva quase no fim dois mandatos. Não lhe caberão responsabilidades de ter deixado “andar à solta” tanta gente, tantas estruturas, tanto desgoverno? Absolutamente claro que ele, primeiro que ninguém, tem de despir camisolas partidárias, como garante da liberdade de todos, como vigilante das instituições, como promotor do compromisso de todos, como aglutinador de todas as sinergias, públicas e particulares. Mas isso tem de ser visível desde o primeiro momento da sua investidura, doa a quem doer, custe a quem custar!

5. Sabemos que não é da sua competência a responsabilidade da governação. Mas é a de evitar o desgoverno, de o travar, de “chamar à pedra” os agentes implicados na coisa pública, seja para os estimular, seja para os advertir, sejam eles seus simpatizantes ou de quadrantes diferentes. E o desgoverno não é – não nos queiram fazer crer tal coisa! – nem dos últimos meses, nem dos últimos anos. Vai muito tempo, desde que a derrapagem nacional entrou em progressão geométrica. Se não é tarde demais, que, em vez de palavras, em vez de discussão de temas fracturantes e laterais, sejamos todos – mas todos! – convocados para a reabilitação nacional!