“Se não pedirmos e não recebermos, não poderemos dar”

Desde 1997, depois de uma longa carreira militar e de funções na Câmara Municipal de Aveiro, como vice-presidente, Martinho Pereira é presidente da direcção do Banco Alimentar Contra a Fome – Aveiro. Nos dias 27 e 28 de Novembro realiza-se mais uma campanha de recolha de alimentos. Por causa dos tempos de crise, Martinho Pereira considera que “as pessoas que têm alguma coisa para si vão lembrar-se mais dos que não têm nada”. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.

CORREIO DO VOUGA – A próxima campanha, nos dias 27 e 28, em contexto de dificuldades económicas, é para o Banco Alimentar Contra a Fome – Aveiro (ou simplesmente Banco), a mais importante de sempre?

MARTINHO PEREIRA – Eu acho que sim. Muita gente me questiona dizendo que vai ser uma má campanha porque os tempos estão maus. Eu acho o contrário. É nos tempos de crise que as pessoas que têm alguma coisa para si que se lembram mais dos que não têm nada. É desse espírito de partilha que o Banco vive. As pessoas sabem que o Banco não quer nada para ele, mas para dar. Há muitas dificuldades, mas quem recebe o seu vencimento no fim do mês vai lembrar-se de quem está no desemprego e não recebe nada.

As notícias dizem que a fome reaparece em Portugal. Há aumento de pedidos no Banco?

Estou seriamente preocupado porque, de facto, há instituições a pôr o problema. A pressão das instituições aumenta. Por isso, temos necessidade de divulgar a campanha e de sensibilizar as pessoas. Se já não podemos fazer a multiplicação dos bens, ao menos façamos a divisão. A nível nacional, os diversos bancos estão a contactar os párocos no sentido de ajudarem na divulgação da campanha nas duas vertentes: voluntariado e cidadãos que possam dar. Se não pedirmos e não recebermos, não podemos dar. O ciclo termina. Para o Banco, não queremos nada. O que temos é para dar às instituições.

Sentimos uma amargura grande por vermos sistematicamente a chegar pedidos: “Precisamos de mais. Precisamos de mais. Precisamos de mais”. E nós não temos para dar.

As instituições descarregam no Banco. O Banco não apoia pessoas. Apoia instituições. Quem recebe os pedidos das pessoas e quem tem mais sensibilidade para as necessidades são as instituições. Nós recebemos os pedidos delas. Dizem-nos que já distribuíram tudo e que aparece mais gente.

Por dia útil, distribuímos, em média, 7,3 toneladas de alimentos. Ficamos apenas com algum fundo de maneio para emergências que possam surgir.

Quantas instituições apoia o Banco de Aveiro?

184 do distrito de Aveiro. Permanentemente. O que equivale a cerca de 32 mil pessoas. Desde a infância até à terceira idade. O Banco apoia instituições na sua globalidade.

Analisamos antes de apoiar. Quando uma instituição se candidata, há uma equipa que vai visitá-la, não com um “espírito pidesco”, mas para ter a noção do que é e faz a instituição.

Dar é fácil. Dar com justiça é tremendamente difícil. Aparecem sempre problemas. Mas temos uma norma que habitualmente usamos na direcção, quando analisamos os casos: na dúvida é preferível dar a não dar.

Temos cerca de 30 instituições em lista de espera. As 184 instituições recebem os seus cabazes normais, dois por semestre. Há depois os cabazes extraordinários, que até são em maior número.

Chegam ao Banco, por exemplo, 80 toneladas de iogurtes. Então, chamamos não só as 184 instituições, mas também as outras. A vida desse género alimentar é curta, pelo que tem de ser logo distribuído. Por outro lado, os bens dados têm de corresponder às necessidades e condições de quem os recebe. Um grupo Cáritas e ou de vicentinos não pode receber muitos iogurtes porque não têm meios de conservação. Têm de distribuí-los de imediato às famílias que apoiam.

Numa campanha angariamos 200 toneladas. Mas distribuímos mil e tal. Hoje as empresas já sabem que é melhor dar do que pagar para destruir e poluir o ambiente. Dando ao Banco, recebem um recibo correspondente ao que dão, que é majorado em 140 por cento em sede do IRC.

Quais os géneros alimentares de que o Banco necessita na próxima campanha?

Géneros alimentares não perecíveis, como sempre: arroz, massa, feijão, grão, farinha, açúcar, azeite… Os sacos que distribuímos têm impressa uma lista desses alimentos.

São alimentos que habitualmente as indústrias não dão…

Sim. Mas também já tem havido dádivas de bens deste tipo.

Há alguma campanha junto das empresas?

Contactámos as empresas agrícolas e do ramo alimentar, para que saibam que é preferível dar o Banco a terem de destruir. As empresas estão sensibilizadas. Não enumero nenhuma, mas são várias as que dão ao Banco.

O sucesso da campanha depende muito de quem dá, mas também dos voluntários que dão os sacos e recolhem os alimentos…

O voluntariado é o grande capital do Banco. Sem voluntários, o Banco cairia por terra. Ficaria como uma empresa que paga aos seus funcionários. O Banco não paga. Recebe trabalho de quem dá de si antes de pensar em si. O espírito de solidariedade é extraordinário. Basta ir à sala de triagem [onde se separam os alimentos] ou a qualquer posto de recolha para ver que está ali o corte social de Aveiro, desde a pessoa do campo ao juiz, do médico ao professor. Há uma amostragem de toda a sociedade aveirense. O Banco precisa de 1800 voluntários para uma campanha. Só para Aveiro são 500. Sem voluntários, não conseguimos pedir. Sem pedir, não recebemos. Se não recebemos, não temos para dar.

Montar a campanha é pôr em funcionamento uma máquina muito pesada. Para transportar os alimentos até ao Banco, por exemplo, temos de bater a muitas portas de pessoas que têm carrinhas. Felizmente, além dos veículos das instituições, há empresas amigas, inclusive empresas de rent-a-car, que emprestam viaturas.

Há recolha em todos os concelhos do distrito?

Arouca e Castelo de Paiva são os únicos concelhos do distrito onde não há recolha. Mas pode vir a haver em breve.

Falava-se há tempos da mudança de instalações do Banco Alimentar. Dizia-se que teria de deixar as instalações do Centro Coordenador de Transportes, junto à estação da CP…

Foi um problema que nos causou muita instabilidade. Chegámos a pensar que a próxima campanha já não se realizaria naquelas instalações. A Câmara tem sido sensível ao problema do Banco Alimentar. O local é óptimo. É muito central em relação à cidade. Tem óptimos meios de acesso. Vamos continuar por ali. Se nos for amputada uma parte das instalações, será acrescentada outra.

Contacto telefónico do Banco Alimentar Contra a Fome – Aveiro para recepção de voluntários

234 381 192

Na semana passada, na página 15 do Correio do Vouga, o número de telefone estava incorrecto, bem como o nome da funcionária do Banco Alimentar, que é Clara Amorim. Aos visados, as nossas desculpas.