Poema Se Tu falasses, Senhor, escutar-te-ia muito bem,
Porque toda a voz humana prà minh’alma se calou,
Fico só junto da minha força abatida,
Deixei todo o apoio, quebrei os elos todos.
Meu coração meditativo que bebe a luz
Ter-te-ia absorvido, sim, quebrando as leis,
Como o vento das noites que penetra nas pedras
Teu verbo inflamado descesse sobre mim!
Nada te ansiava com tanta indigência:
Ter-te-ia festejado ao som do timbale
Se, no meu triste e laborioso silêncio,
Tivesse ouvido a tua voz e conhecido o teu nome.
Por mais forte que fosse a sombra nos teus rostos,
Sublime Trindade, eu teria afastado a noite;
Meu espírito teria prosseguido sem fadiga
E eu teria aportado à tua luminosa margem.
Mas nunca nada em mim te revelou,
Senhor! Nem o céu pesado como água parada,
Nem a exaltação do verão sobre os trigais,
Nem o templo jónico na montanha agreste;
Nem os sinos que são um incenso cadenciado,
Nem a coragem humana, nunca recompensada,
Nem os mortos, cujo silêncio hostil e penetrante
Parece uma renúncia invencível e cansada;
Nem as noites em que o espírito sustém como uma prova
A sua aspiração ao bem universal;
Nem a Lua que sonha e vê passar o rio
Dos beijos furtivos sob os céus eternos.
Mas, ai! Nem estas manhãs da minha infância ardente,
Onde, nos prados inundados com uma nuvem de perfume,
Eu sentia, tanto o êxtase em mim jogava sua lança,
Um anjo nos céus que me arrancava o coração!
Mas tem piedade! Que a tua mão pendente
Venha guiar minha sorte dolorosa e desbotada:
Anseio por Ti, Esplendor, Razão deslumbrante!
Mas não te vejo, ó meu Deus! E canto
Por causa do vazio infinito!
Anna de Noailles
Escritora francesa com ascendência na nobreza romena e búlgara, Anna de Noailles (1876-1933) conviveu com a elite artística de época (Marcel Proust, André Gide, Frédéric Mistral, Paul Valéry, Jean Cocteau…).Escreveu três romances e diversa poesia. Foi a primeira mulher a receber a Legião de Honra, que é a mais alta condecoração francesa.
