A oração de Jesus ao Pai foi um clamor intenso, carregado de interpelação e ansiedade: “Que todos sejam um, como nós somos Um”… Interpelação contundente aos discípulos mais íntimos, que O rodeavam e se tornavam, por Sua vontade, o sinal da continuidade da Sua presença no meio de nós. Ansiedade por garantir que se perpetuasse o Seu testemunho de íntima comunhão com o Pai, condição necessária para uma caridade transbordante, garantia de credibilidade da fé que se anuncia.
A Igreja católica deu passos gigantescos na busca desta unidade dos cristãos. Sob o ponto de vista doutrinal, o Concílio Vaticano II reconheceu a presença da Verdade de Jesus Cristo nas Igrejas irmãs, afirmando a sua orientação específica para o Único Salvador. E vai mesmo mais longe, afirmando a presença de sementes do Verbo até em expressões religiosas que desconhecem Jesus Cristo. O diálogo ecuménico tem sólidos fundamentos para dar passos claros em busca da unidade. O diálogo inter-religioso, a montante, permite criar uma atmosfera de distensão e vontade comum de oferecer à Humanidade um testemunho de empenho comum pelo bem de toda a pessoa e da pessoa toda.
Há sempre a possibilidade de líderes carismáticos personalizarem a interpretação religiosa e conduzirem as confissões de que são timoneiros a um de dois caminhos: abrir janela de esperança, cimentar o desejo do encontro e traduzir em gestos e caminhos comuns esse desejo, sem trair os princípios perenes; ou radicalizar as divergências, assoberbar os atritos e bloquear por completo todos os esforços de pacificação e caminho conjunto, confundindo a fidelidade às origens com fundamentalismos irracionais.
Em pleno século XXI, não têm qualquer sentido guerras de religião. Conflitos entre católicos e protestantes como a Irlanda, atrocidades entre fações islâmicas como as do Iraque, quaisquer outras lutas fratricidas são sinal de uma barbárie que nos envergonha. O bem comum da Humanidade reclama sentido de respeito pelas diferenças e cooperação em tudo o que nos une e aproxima.
Criados à imagem e semelhança de Deus, somo-lo também nesta perspetiva de relação e comunhão. Aos crentes cabe vivê-lo intensa e explicitamente, para que o mundo creia que Deus não é inimigo do Homem, mas o seu aliado por excelência.
