Sem museu perde-se a memória da cerâmica aveirense

Embora com grande tradição na cerâmica, falta a Aveiro um museu que preserve louças, máquinas e processos produtivos.

Aveiro é um dos municípios fundadores da Rota Europeia da Cerâmica / Urban Network for Innovation in Ceramics (UNIC), liderada pelo município francês de Limoges, e que inclui também outras cidades europeias famosas pela cerâmica que produzem, nomeadamente Castellon e Sevilha (Espanha), Cluj Napoca (Roménia), Delft (Holanda), Faenza (Itália), Selb (Alemanha), Pecs (Hungria) e Stoke-on-Trent (Reino Unido).

A rede pretende alargar a sua ação a outros continentes, com especial destaque para a Ásia, de modo a acolher cidades emblemáticas da cerâmica mundial como Jingdezhen, considerada a capital da porcelana chinesa, bem como congéneres da Coreia do Sul, do Japão e da Turquia.

No entanto, a memória da cerâmica aveirense vai-se diluindo no esquecimento com o desaparecimento dos ceramistas que deram alma a indústrias, oficinas e ateliês cerâmicos que existiram na cidade e arredores, porque não há um museu que preserve e divulgue o acervo dessas unidades produtivas que foram fechando, tanto no que se refere a louças (porcelanas e faianças) e azulejaria, como à indústria do barro vermelho e à olaria, o mesmo se passando com os equipamentos produtivos, desde os artesanais até aos industriais.

Nas instalações do Centro de Emprego e Formação Profissional ainda existe um dos antigos fornos da Fábrica Jerónimo Pereira Campos, forno que poderia ter um enquadramento museológico de modo a ter um papel formativo e informativo sobre a cozedura do barro vermelho e do grés praticada nessa antiga fábrica.

Das fábricas que fecharam nos últimos anos, tal como das que encerraram ao longo do século XX, praticamente nada resta que possa ser reutilizado num museu que tenha uma componente de arqueologia industrial, em que o visitante possa “acompanhar” a evolução dos equipamentos usados na indústria de cerâmica aveirense.

Louças e azulejos

Das louças produzidas em Aveiro há ainda peças suficientes e de boa qualidade em coleções particulares. Mesmo produções mais antigas ainda estão disponíveis para venda, não só em antiquários e casas da especialidade, como também através da Internet, como facilmente se pode constatar.

Azulejos antigos produzidos em Aveiro ainda vão persistindo em fachadas, um pouco por toda a cidade. No entanto, muito se perdeu e se continua a perder com substituição de antigas habitações por novos edifícios.

O Banco do Azulejo, da Câmara Municipal de Aveiro, possui um bom acervo que poderia ser a base da secção de azulejaria de um futuro Museu da Cerâmica Aveirense, cuja localização ideal seria o edifício da antiga Estação da CP, que apresenta quase meia centena de painéis de azulejos nas suas fachadas exteriores.

Com contributo de muitos

Felizmente, algumas das empresas abaixo enunciadas ainda laboram. Das outras, que já encerraram a produção, muitas estão completamente esquecidas na memória das novas gerações de aveirenses.

Emuneramos as fábricas: Argilart, Argitral, Artibus, Buraco, Cerâmica Aveirense, Duarte & Graça, Duarte Tavares Lebre & Companhia, Empresa de Cerâmica da Fonte Nova, Empresa de Cerâmica do Vouga, Empresa de Louças e Azulejos, Empresa Olarias Aveirenses, Fábrica Aleluia, Fábrica da Pinheira, Fábrica de Louças da Fonte Nova, Fábrica de Louças dos Santos Mártires, Fábrica do Côjo, Fábrica Jerónimo Pereira Campos, Faianças da Capoa, Faianças de S. Roque, Faianças Primagera, Funceramics, Ibis, Neoclássica, NG, Olarte, Porcelanas das Leirinhas, Primus Vitória, Regipor, Vidrocerâmica, Vitória & Irmão.

O património cerâmico aveirense também deve muito a artistas e artesãos como Afonso Henrique, Alberta, Anibal, Evaristo Silva, Felica, Francisco Cunha, Jaime Borges, João Mateus, José Loura, Rui Campos, Vasco Branco, Zé Augusto, entre outros que continuam a criar arte, a que se junta ainda Fernando José e o CEARTE.

A. Menezes, Armando Andrade, Cândido Teles, David Cristo, Francisco Pereira, João Calisto, João Marques Oliveira e Licínio Pinto foram alguns dos artistas já falecidos que deixaram o seu nome ligado à cerâmica aveirense.

Cardoso Ferreira