Semana da cultura cristã quis dissipar a fumaça wue encobre o valor do cristianismo

A Semana da Cultura e Identidade Cristã, realizada de 4 a 8 de Abril, foi uma oportunidade para “dispersar a fumaça que funciona como tela na qual se projectam novas visões anticristãs, como se essas visões correspondessem à realidade”, afirma Luís Silva, membro da direcção do Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro, que organizou a iniciativa. “Soprou-se na fumaça para que volte a transparecer a realidade”, acrescenta. E qual é a realidade? É a influência positiva do cristianismo na cultura mundial, quando surgem crescentes tendências a negá-la ou a afirmar que tal influência foi prejudicial.

No último dia da semana falou-se de “cristianismo e música” e destacou-se o caso do músico francês Olivier Messiaen (1908-1992), católico, também compositor de música sacra, um dos mais destacados do séc. XX. Ora, o grande contributo do cristianismo para a música foi nem mais nem menos do que a própria linguagem musical, conforme demonstrou o professor e maestro António Mário Pinto da Costa. Foi na música litúrgica, no canto gregoriano, que nasceram a pauta, as notas, as claves, enfim, todo o sistema que permitiu que finalmente fosse possível escrever sons num papel. Os gregos, os romanos e todas as culturas antigas tinham música. Mas não sabemos como era. Só a partir da Idade Média, por invenção dos monges, é possível fixar as melodias de forma a que qualquer pessoa que conheça a linguagem musical possa interpretá-las sem grandes diferenças de intérprete para intérprete. Hoje, quando na China ou em África uma criança lê uma pauta musical, usufrui de uma invenção cristã e homenageia, sem o saber, os monges do canto gregoriano.

Ao longo da semana desfez-se a ideia do cristianismo obscurantista que alguns sectores da sociedade voltam a realçar. A tendência não é de agora. No dia 6, o matemático Jorge Buescu, afirmando-se agnóstico, relatou, por exemplo, como na antiga Universidade de Évora, dirigida por padres jesuítas, houve a preocupação, após o afastamento da congregação religiosa, em destruir duas centenas de painéis de azulejos que representavam tratados de Matemática. No dia seguinte, Zita Seabra, política e editora, apresentou o livro “O que a Civilização Ocidental deve à Igreja Católica”, que relata um conjunto de contribuições para a ciência, a moral, a política. Na mesma linha foram as contribuições de Belmiro Pereira, no dia 5 (Henrique Pereira, devido a doença, não pôde comparecer), sobre cultura e cristianismo, e de José Rui Teixeira, no dia 4, sobre literatura e cristianismo.

A participação nesta semana, cerca de uma centena de pessoas, algumas presentes em todas as sessões, ficou aquém do que seria expectável, mas Luís Silva manifestou agrado por ver “muita gente não comprometida” eclesialmente. Chegar a outros públicos era um dos objectivos da semana. P.e Querubim Silva, director da escola, nas palavras finais, entre agradecimentos, apontando iniciativas recentes do ISCRA, manifestou algum desagrado porque “as estruturas pastorais da diocese ainda não perceberam que o diálogo com o mundo passa por isto”. Para que o diálogo continue, foram elaborados painéis sobre 18 católicos proeminentes na cultura. Alguém observou: “Nem uma mulher!” – o que constitui uma lacuna assinalável. Mas é uma exposição muito válida para mostrar a relação fé/cultura. Está patente nos corredores do ISCRA (Seminário de Aveiro), mas prevê-se que em breve possa circular pelas paróquias.