Sendo Jesus tão importante para a humanidade, porquê o silêncio da história acerca dele? (1)

Perguntas & respostas* Fora dos escritos do Novo Testamento e de outros de natureza cristã, quase nada encontramos acerca de Jesus. Este silêncio quase completo e quase por completo foi às vezes preocupante para os crentes, ao quererem provar a solidez histórica do facto «Jesus», e por vezes explorado pelos não crentes como objeção contra a existência histórica de Jesus. O facto «Jesus», considerado humanamente e sob o ponto de vista dos números e estatísticas, pode-se dizer um fracasso. Quanto à ressonância do movimento cristão depois da morte de Cristo, até meados do séc. II não assumiu a importância dum fenómeno político ou cultural digno de relevo.

Estudando os testemunhos dos historiadores não crentes que falaram de Jesus, convém ter presente o que podia representar para a cultura oficial do tempo o fenómeno Jesus. Os autores em questão (Plínio, Tácito, Suetónio, Flávio Josefo) não são uns isolados. Atrás deles existe todo um ambiente de cultura.

PLÍNIO MOÇO, procônsul da Bitínia, em 111-113 consultava o imperador Trajano por causa da propagação do cristianismo; narrando o modo de agir dos cristãos, diz que os obrigou a amaldiçoar Cristo («maledicerent Christo») e que eles “antes do nascer do sol entoavam um hino a Cristo como a um deus».

O juízo de Cornélio TÁCITO. Discípulo de Plínio Maior, nos seus “Anais”, escritos entre 67-117, narrando o incêndio de Roma sob Nero, menciona Cristo como um parêntesis para explicar o verdadeiro nome dos «cristãos», que foram supliciados em grande número como culpados do incêndio: «Este nome (de cristãos) deriva de Cristo, supliciado pelo procurador Pôncio Pilatos, sob o reino de Tibério. Esta superstição abominável, imediatamente reprimida, brotava de novo, não só na Judeia, origem daquele mal, mas também em Roma, onde tudo o que de vergonhoso e de horrível existe no mundo conflui e encontra numerosa clientela».

O movimento cristão é visto como um episódio de superstição e de desordem. É uma das tantas coisas horríveis e vergonhosas que das Províncias costumam confluir a Roma. O facto de a «origem do mal» sair da Judeia põe o Cristianismo na série dos crimes daquele povo para o qual, a juízo de Tácito, «tudo o que para nós é sagrado, é considerado como ímpio, enquanto ao contrário consideram lícito o que para nós é objeto de horror».

Ora Jesus é posto em estreita relação com tal movimento. Como fundador da seita, participa do juízo negativo pronunciado sobre o movimento cristão, movimento de desordem, um dos tantos sinais da decadência da idade imperial.

Para Tácito, o facto Jesus é um dos muitos pequenos episódios que confirmam a sua visão pessimista da história, vista sob o ponto de vista da dialética ordem-desordem, corrupção-desonestidade. Incorporado em categorias de tipo profano, o facto de Jesus assume proporções insignificantes e é digno apenas duma alusão apressada.

SUETÓNIO, escrevendo a “Vida de Cláudio”, no ano 120, diz acerca de Jesus: (O imperador Cláudio) «expulsou de Roma os judeus porque, instigados por um certo Chrestos, provocavam constantes perturbações». E, na sua “Vida de Nero”, diz dos cristãos: «…com suplícios foram castigados os cristãos, género de homens de superstição nova e maléfica».

(Continua na próxima semana)

J. Franclim Pacheco

* Secção da responsabilidade do ISCRA (Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro – www.iscra.pt)