Sendo Jesus tão importante para a humanidade, porquê o silêncio da história acerca dele? (2.ª parte)

Perguntas e Respostas Flávio Josefo (escritor judeu dos finais do séc. I) sabe algo da existência de Jesus: a alusão no seu livro Antiguidades Judaicas não é posta em dúvida por ninguém. Falou com uma certa simpatia de João Baptista, o que prova que não ignora completamente o facto de Jesus. Eis o texto de Ant. Jud. XX,9,1: (Ananus, tendo morrido Festo e vivendo ainda Albino, convocou o tribunal) «e levando a juízo o irmão de Jesus chamado Cristo – Tiago é o seu nome – e com ele alguns outros, tendo instituído acusação contra eles como réus de violação da lei, mandou-os lapidar».

Mas o texto dedicado diretamente a Jesus é o famoso “Testimonium Flavianum” de Ant. Jud. XVIII,3 e sobre o qual se discute desde há quatro séculos, pois alguns autores a partir do séc. XVI consideram-no não autêntico, ou pelo menos com adições cristãs, expressas e itálico: «Apareceu, por essa altura, Jesus, homem sábio, se é que se pode chamar homem, que realizava coisas espantosas. Mestre de todos quantos acolhem com agrado a verdade, atraiu a si muitos judeus e também muitos gentios. Ele era o Messias. Quando Pilatos, instigado pelos principais do nosso povo, o condenou à cruz, os que antes o seguiam não puderam esquecê-lo, pois lhes apareceu vivo ao terceiro dia; na verdade, os divinos profetas tinham predito dele estas e mil outras coisas maravilhosas. Os cristãos, que dele recebem o nome, não se extinguiram até aos dias de hoje».

Flávio Josefo julga o facto de Jesus na perspetiva das várias perturbações e agitações de tipo messiânico que precedem e preparam a catástrofe do ano 70. Ora estas perturbações foram, segundo Josefo, uma desgraça para o seu povo, porque o levaram à ruína. O fim miserando de Jesus representa para Josefo um dos episódios da grande inquietação daqueles anos. O facto de Jesus é assim englobado na interpretação política da história judaica própria de Josefo Flávio e, por isso, reduzido a ínfimas proporções.

Esta tomada de posição perante o fenómeno de Jesus deixa entrever uma singular prerrogativa do facto de Jesus. É um facto que não se deixa acolher com inércia e enquadrar pacificamente em qualquer síntese histórica de tipo profano. Para quem o aceita na sua totalidade e nas suas consequências, torna-se o centro da história; é o caso dos autores do Novo Testamento. Quem não o aceita religiosamente, com fé, vê-se obrigado a tentar neutralizar o aspeto religioso – que constitui a sua substância – relegando-o no mundo das categorias profanas, «politizando-o» e reduzindo-o a proporções exíguas. Portanto, o silêncio dos autores não cristãos a respeito de Jesus não é um fator negativo para o seu conhecimento histórico. Este silêncio não é total. Além disso, este relativo silêncio é compreensível, dada a escassa ressonância política do facto de Jesus e da orientação sobretudo política e militar da historiografia profana do tempo.

Facto significativo! Jesus não foi testemunhado de maneira completa senão por testemunhos comprometidos, crentes. Isto, longe de ser motivo de inquietação, é uma indicação da transcendência do fenómeno de Jesus. Se realmente o facto de Jesus e o seu significado religioso são inseparáveis, segue-se que quem refere o facto de Jesus na sua totalidade anunciará também necessariamente o seu valor salvífico. Quem, pelo contrário, se fecha ao Evangelho, deve fechar os olhos perante o facto de Jesus, excluindo assim o seu verdadeiro significado histórico. Este silêncio é um sinal providencial da inseparabilidade do elemento humano e divino, histórico e religioso, no facto de Cristo.

J. Franclim Pacheco

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