Editorial 1 – A noite eleitoral proporcionou sensações muito díspares, face aos televisores, e à medida que avançava a divulgação de resultados. É que deu para ver e ouvir de tudo: declarações sensatas de quem reconhece serenamente a derrota; moderadas e realistas declarações de vitória, com proposta de acolhimento à cooperação de todos; comentários serenos, esclarecedores, com intuitos de transmitir uma visão crítica; mas também o histerismo de cariz populista, quase a raiva de ter vingado uma qualquer ofensa pessoal, com o resultado do plebiscito…
2 – Uma declaração justa e sincera – esperamos – do senhor Primeiro Ministro: os objectivos do seu partido não foram alcançados; mas a sua missão será a de cooperar com todos os eleitos, em benefício de todas as comunidades locais, para proveito da comunidade nacional. Teria sido também interessante que o líder do partido vencedor pusesse ao dispor da nação o potencial de “poder local” alcançado; apesar da serenidade da alegria da vitória, julgamos que poderia ter ido mais longe, dizendo claramente da disponibilidade para construir o futuro de mãos dadas com os vencidos.
3 – Uma dupla de comentadores, coincidindo uma vezes, divergindo algumas outras, deu provas de lucidez na análise dos resultados, ajudando-nos a equilibrar o resultado das vitórias, interpretando o motivo das derrotas, deixando no ar sinais de abertura e diálogo, em vez de sementes de euforias agressivas e divisionistas. Precisamos de “mestres”, que nos ajudem a crescer em cidadania, mesmo quando não somos vencedores, que nos guiem a construir solidariedade, e não interesses mesquinhos, com as vitórias.
4 – Feio é o espectáculo de quem, ainda que presumido inocente até que a justiça se pronuncie, vem usar o plebiscito, de forma histérica, para limpar a sua imagem. O apoio da multidão nem sempre é sinal de verdade e liberdade. As manifestações de afeição pelas pessoas, justas, legítimas, não podem ser transformadas em legitimação – se esse for o caso – de um poder que tem sombras de suspeição. Caberia, nestes casos, a satisfação discreta, que, essa sim, seria sinal de consciência tranquila. Veremos, entretanto, o que nos revelam os próximos episódios.
5 – Por último, o civismo do povo que votou. Na generalidade a afluência foi aceitável; em algumas zonas, foi mesmo surpreendente. Seria óptimo que tal significasse a reconciliação do povo com os mecanismos de governação. Digna a participação e o comportamento de tantos portugueses que decidiram escolher, em vez de deixar correr. É assim que se vai aprendendo e exercitando a cidadania.
