Separação…

Separação, sim! Mas respeito e justiça.

Consideramos, certamente todos, um bem a separação da Igreja do Estado. As teocracias, sejam elas de que confissão forem, não têm sido os exemplos mais edificantes ao longo da história; muito menos nos nossos dias. Mesmo quando determinados contextos históricos permitam tolerá-las, facto é que os extremismos opressores manipulam com facilidade a evocação de um deus para justificar as maiores atrocidades.

Mas separação significa respeito e justiça. Significa reconhecimento da identidade das forças que constituem o tecido da sociedade civil, discernimento do seu contributo para a construção social – seja no campo educativo, da saúde, da solidariedade social, da cultura, da educação para a cidadania, do enriquecimento do património artístico… – e apoio, na medida desse reconhecimento de público serviço prestado, às mesmas forças vivas, incluindo as igrejas e religiões.

Aliás, o apoio que o Estado concede, seja ele de cariz material ou de recursos humanos, não é pago com dinheiro dos governantes. Esses ganham – e não tão mal como isso – do erário público. Os ditos subsídios ou comparticipações saem do bolso dos contribuintes, nacionais ou de outros países, nestes tempos de apoios comunitários, que voltam a ser contribuintes nas ajudas directas às instituições das suas igrejas ou crenças e, às vezes, ainda uma terceira vez, pagando serviços de sua escolha que o Estado não apoia – como é o caso das escolas não estatais.

Agora, vir um ministro à inauguração de uma IPSS da Igreja Católica, tomar por sua alta recreação a presidência e tomar a palavra final para desenhar o triângulo do mérito – Estado (que contribuiu com vinte e poucos por cento – e do tal dinheiro dos contribuintes!), Autarquia e Instituição – ignorando por completo que é o facto de existir uma Igreja Católica, com provas dadas de serviço público, soa a atrevimento, falta de elegância, clara injustiça!

Mas esse é um comportamento a generalizar-se, pelo menos em relação à Igreja Católica, procurando diluir o seu significado social. É evidente que a Igreja não pretende ser um instrumento de luta pelo poder, nem pode enfeudar-se a qualquer força política – que necessariamente a manietará com um cenário de favores concedidos. Ela tem é de ser uma voz profética, que grite as injustiças, as distorções de governação, os abusos do autoritarismo, o massacre da iniciativa social, privada ou cooperativa… E anunciar, com o fruto da sua acção, os caminhos novos que se podem trilhar, de verdadeira cidadania activa, de cultura da vida, de comunhão nas diversidades… E a Igreja Católica tem provas dadas, diante das quais muitos dos nossos políticos deveriam estacar, em admiração, para aprender a ser disponíveis e dedicados, gratuitos (mesmo que, naturalmente, remunerados) no poder que assumiram, para dele fazerem um serviço à sociedade, em vez de uma rota de protagonismo de ascensão pessoal.