O tom é exigente. À semelhança do fulgor paulino, que em muitos despertou caminhos de renovação interior, motivou itinerários espirituais que desaguaram em compromissos surpreendentes, o Ano Sacerdotal anuncia-se como uma revisão de vida não apenas dos sacerdotes, mas de toda a Igreja, o reencontro de uma identidade e missão que permanentemente tem de se alimentar das origens e refrescar nas fontes.
Numa das catequeses dedicada a este assunto, o Papa Bento, que lançou este desafio de ousadia e lampejo de esperança, propôs a quantos quiserem aderir a um processo de conversão o problema da dupla vertente da vida e avaliação do sacerdócio ministerial.
Por um lado, não se pode minimizar a dimensão ontológica-sacramental. Ser humano, que o não deixa de ser, o sacerdote é irreversivelmente consagrado. Ou seja, como o baptismo e o crisma não é uma questão apenas de rito, mas transforma irrenunciavelmente o “ADN” espiritual de quantos os recebem, a ordenação sacerdotal transforma para sempre – e radicalmente – aquele que a ela acede.
O próprio não pode deixar de considerar, para se realizar plenamente, esta dimensão nova do seu ser, do seu existir, que o identifica com o único Sacerdócio – o de Cristo – em prol dos irmãos. Ignorá-lo ou minimizá-lo é trilhar um caminho de frustração! Vivendo entre as pessoas, sendo da sua “raça” e devotado ao seu serviço, a sua igual dignidade de pessoa humana e de baptizado reclama que assuma a sua diferença como consagrado. E a Comunidade não pode pretender nem insinuar que o “padre, cá fora, é um homem como os outros”. Antes o deve ajudar a ser um entre os cristãos, com um carácter próprio, que o distingue, para melhor servir esta radical igualdade.
Por outro lado, a sua missão específica exprime-se numa dimensão social-funcional. Isto é, o seu “ADN” espiritual específico transforma-o, na sua relação com os demais cristãos, definindo-lhe uma missão que configura a visibilidade social da Igreja e desenhando-lhe uma função que plasma a organicidade da mesma Igreja. Reduzir-se o próprio a membro de uma classe ou suportando a sua vida numa perspectiva simplesmente funcional, o sacerdote desfigura-se a si próprio e perverte o rosto da própria Igreja.
O caminho faz-se caminhando! Temos pela frente um longo caminho de um ano, que nos poderá conduzir a uma excelência de vida sacerdotal e a Comunidades recriadas no seu reconhecimento e relação com o ministério ordenado.
