A cultura geral como base da cidadania e a ciência solidária estiveram em foco nas conferências do CUFC
A competência de fazer perguntas é fundamental para a investigação científica. É fundamental para a cultura geral. Quem assistiu à conferência/conversa com Júlio Pedrosa, no dia 19 de Novembro, no Centro Universitário, pôde experienciar isso mesmo através de um pequeno exercício. O presidente do Conselho Nacional da Educação apresentou uma flor, um colar e um livro; e convidou a assembleia a escrever uma pergunta sobre cada um dos objectos. Na fase de diálogo, algumas pessoas partilharam as suas perguntas e o naipe não podia ser mais variado. Por que é que a flor é azul e não de outra cor? Por que há hortenses cor-de-rosa? Quem usou o colar? Quantas contas tem? Quem o fez? Que histórias encerra o livro? Que sentimentos inspiram estas três coisas? Perante os mesmos objectos, mil perguntas, mil abordagens.
Mais: não se deve recusar a procura de uma resposta a uma boa pergunta, mesmo quando a busca aparentemente se revela infrutífera.
“Será que Deus é canhoto?” foi a pergunta lançada pelo orientador de doutoramento de Júlio Pedrosa, em Cardiff, Reino Unido. Essa formulação, no contexto da bioquímica, pretendia desvendar um mistério: por que é que os aminoácidos (estruturas de átomos que constituem as proteínas), representados graficamente, se assemelham à mão esquerda humana? Será que Deus é canhoto? A investigação tomou algum tempo ao então doutorando Júlio Pedrosa e acabou por ser abandonada. Mas não foi tempo perdido. Deu, por exemplo, para estudar sobre a química da origem da vida, o que viria a ser proveitoso no percurso académico de Júlio Pedrosa.
Com boas perguntas, avança a investigação científica e cresce o espírito crítico. O contrário será a “auto-satisfação da cultura”, quando “deixa de haver busca”.
Uma definição de cultura geral poderá ser então a “condição sem condição”, a “capacidade para entender o mundo à nossa volta e dar-lhe sentido”. Por isso, a cultura geral “não pode depender da condição social, da raça, etnia ou religião”, disse Júlio Pedrosa. “Todas as pessoas devem ter acesso a uma forma de compreensão do mundo”.
A conferência de Júlio Pedrosa surgiu integrada na Semana da Arte do Centro Universitário Fé e Cultura, uma semana dedicada a conferências, ateliês de arte e exposições. No dia anterior, o professor de Física José Mendes discorrera sobre Albert Einstein, no ano em que se comemora o centenário da publicação de 5 artigos científicos que viriam a revolucionar a Ciência. Da energia nuclear ao funcionamento dos telemóveis, dos micro-ondas à televisão, tudo participa das descobertas de Einstein, um funcionário de registo de patentes na Suíça, que só queria ser professor de liceu e teve de fugir ao anti-judaísmo que grassava na Alemanha antes da II Guerra Mundial.
Um outro mundo é possível
O tema dessa terça-feira, “Ciência solidária”, trouxe ao CUFC, também, Fernando Nobre, médico, fundador da AMI – Assistência Médica internacional, que corroborou as palavras de Abel Salazar: “Um médico que só é médico, nem médico é”. Ou então, como foi igualmente afirmado: “Um cientista que só é cientista nem cientista é”.
Fernando Nobre partilhou a sua experiência e visão do mundo e foi crítico para a globalização, o mercado, o neoliberalismo e, por exemplo, as farmacêuticas, “que só pensam nas doenças dos ricos”. “Nos últimos 30 anos, investiram apenas 10% em doenças que afectam 90% da população; mas são doenças de pobres”, disse. “O Ocidente morre de doenças da fartura, enquanto os pobres morrem de fome e infecções. A vida humana não tem o mesmo valor”, acrescentou.
Como resposta à “espécie de chamamento” laico, o médico fundou a AMI e passou até hoje por cerca de 130 países, o que o leva a defender que “um outro mundo é possível”. A fome, as doenças, as migrações – defendeu Fernando Nobre – são hoje “fenómenos globais que apelam a uma solidariedade global”.
No decorrer das conferências desta semana, o Pe Alexandre, director do CUFC, anunciou que, no dia 7 de Dezembro, Rui Marques, Alto Comissário para as Migrações e Minorias Étnicas, virá ao Centro Universitário.
