Cartas dos Leitores Ao ler atentamente “Formação do Coração” do Sr. Bispo de Aveiro, D. António Marcelino, publicado neste mesmo Jornal do dia 15 de Março, senti a necessidade de passar o meu pensamento para este papel, com o desejo de o partilhar com todos os senhores leitores. Em primeiro lugar, começo por dizer que também me sinto comovido ao ver e ao ouvir a inocência das pessoas (com mais de 80 anos), quando estas se abrem para dizerem às “senhoras do Estado” o quanto a sua vida é difícil. O facto fundamental é que toda a acção do Estado devia ser segundo o modelo de Jesus, em que a raiz de toda essa mesma acção, enraizada no amor e na humanidade, é de considerar e servir o outro (seja ele de que condição for) como uma pessoa.
Em segundo, gostaria de dizer o que penso sobre o país estar “mal de finanças”. Talvez esteja realmente mal, sem dúvida alguma, para 80 % da população em Portugal, pelo menos; já não é verdade o que se passa para os restantes 20 %. Estes na sua maioria poderiam ser mais Comunhão nas suas actividades, nas suas empresas, enfim, no seu dia a dia.
Não desejo criticar aquilo que ganham ou aquilo que possuem. Critico, sim, é o desprovimento do SER em relação ao TER, da maioria desses 20 % (como escreveu o Economista António Bagão Félix neste mesmo jornal). Na verdade, se esse TER fosse acompanhado pelo SER, o que importava não seria o que se possui mas sim o que se faria, e não se faz, em prol do outro semelhante. A economia de comunhão, pela qual Chiara Lubich se tem debatido, não é uma utopia, mas sim uma realidade que pode acontecer, se assim quisermos.
Para ser franco, não me parece que as finanças do país estejam assim tão mal. Primeiro, o que verdadeiramente não está bem são os interesses de alguns que se fundem em “lobbies” particulares, com a capacidade de promover, sob o título do bem comum, um distribuição não justa da riqueza. Segundo, o desperdício de recursos (materiais e humanos), que se vê e sente nos mais variados sectores públicos do país, não é denunciado porque interessa que assim seja. Daqui se conclui que o que realmente importa fazer não se faz, porque se diz que não há dinheiro.
Sugiro um exemplo prático, bem real, do nosso quotidiano e por mim mesmo experimentado. No âmbito de um estudo (1) de higiene, segurança e saúde no trabalho realizado ao Serviço de Imagiologia do Hospital Infante Dom Pedro, estimou-se que, com a implementação das medidas investigadas, poder-se-ia reduzir em cerca de 85% os custos totais anuais no Serviço. Tais medidas implicariam vantagens quantitativas, como por exemplo a quase inexistência de efluentes químicos e, deste modo, os custos no tratamento destes passariam a ser praticamente nulos; e, vantagens qualitativas, como são os exemplos da melhoria substancial da qualidade do ar interior e da redução em cerca de 40% das emissões de radiações (raios X), directamente nos utentes e indirectamente nos trabalhadores.
Acontece que não é comum olhar, ou pouco interessa, este tipo de esforços, de empreendimentos para melhorar o bem-estar de todos quanto utilizam este Serviço de Saúde, em particular utentes, e os próprios trabalhadores que diariamente ali exercem a sua actividade. Diz-se que não há recursos financeiros para combater o desperdício, que, neste caso, como se viu, equivale a cerca de 85 % de custos anuais; e não entendem que, se fosse combatido, este desperdício se traduziria numa poupança dos mesmos.
Devo dizer que a própria Administração do Hospital Infante Dom Pedro (que tomou posse cerca de 5 meses depois de efectuado este trabalho), encontrando-se, como o país se encontra, numa crise financeira, uma das suas primeiras me-didas tomadas foi a aquisição de viaturas próprias, dizendo alguém que “numa situação destas é normal”.
Na verdade, o dinheiro — que vem de mim, do senhor leitor e, em suma, de todos nós, através dos impostos — existe; mas pouco importa controlar, pois é no supérfluo e não no essencial que é aplicado!
Actualmente, no Serviço em questão, praticamente tudo continua na mesma, com a excepção de se efectuarem consultas mais detalhadas para os trabalhadores expostos aos raios X.
Fernando Alves da Fonseca
(1) Estudo realizado por Fernando Alves da Fonseca, no âmbito do Curso de Técnico Superior de Segurança, Higiene e Saúde do Trabalho, intitulado “Higiene e Segurança no Serviço de Imagiologia do Hospital Infante D. Pedro”, Novembro 2005, Centro de Formação Profissional de Aveiro.
