Shakespeare e os Morangos

A propósito de uma tertúlia sobre “públicos juvenis para a cultura” O tema era “públicos juvenis para a cultura” e juntou numa tertúlia pessoas que trabalham com jovens e para jovens na área da cultura. Foi na noite de 8 de Fevereiro, no bar do Teatro Aveirense. No ar havia perguntas como: Quem será o público de amanhã? Como fidelizar o público jovem? Como levar jovens aos espectáculos culturais? De que é que eles gostam? Quais são os seus interesses culturais?

O debate foi animado, mas inconclusivo, até porque, logo de início, se notou uma ausência. Os jovens, os destinatários, não estavam lá. Estava quem pensa neles, o IPJ, a Casa Municipal da Juventude, o Teatro Aveirense, elementos de companhias teatrais e de associações, políticos… Mas eles não. Notaram-se, sim, quando, noite dentro, passaram na rua a gritar pelo clube de futebol que acabara de passar a eliminatória, depois das grandes penalidades.

O debate não foi conclusivo nem tinha que ser. Cada pessoa tinha as suas ideias e, provavelmente, com elas continuará. Mas a partilha enriqueceu. Já dizia Baden Powell: “Se eu te der um cêntimo e tu me deres um cêntimo, cada um de nós fica com um cêntimo. Mas se eu te der uma ideia e tu me deres uma ideia, cada um de nós fica com duas ideias”.

Ora, das ideias partilhadas na noite, vale a pena reter algumas:

– O público jovem é, contra as aparências (disse uma socióloga), o maior consumidor de cultura (música, cinema, teatro).

– Quando se prepara uma actividade cultural para os jovens (um curso, um debate, um espectáculo), adianta pouco pensar em “quais são os seus problemas?” ou “quais são os seus gostos?” A adesão é imprevisível.

– Os jovens (alguns) podem ir ver o “Romeu e Julieta” (como há semanas, no Aveirense) sem ligarem grande coisa à história escrita por William Shakespeare, a não ser quando aparecem uns “Morangos” no palco.

– É importante formar os gostos, mas não pensemos que há uma espécie de fidelidade cultural. Os jovens, como quaisquer outros, escolhem a cultura de que gostam. O mais importante é que gostem do que vêem, ouvem, lêem.

– Levar um grupo a ver um teatro (quer seja uma peça, quer seja como funciona o espaço teatral em si) pode fazer milagres. Passam a estar atentos à programação, passam a telefonar, passam a ver.

– Há mais crianças, adolescentes e jovens a levar pais, tios e avós aos espectáculos do que o contrário.

– Os jovens e os seus gostos mudam mais depressa do que a capacidade de percepção dos adultos, das instituições e mesmo das indústrias culturais (as grandes editoras musicais só agora estão a perceber que os jovens sacam tudo da net).

– Os jovens funcionam em regime de grupo; quem se dirige ao público jovem tem de saber trabalhar as relações de amizade.

Como tudo muda tão rápido, por este conjunto de frases até parece que a tertúlia só serviu para desfazer ideias. Não. Uma das ideias foi várias vezes sublinhada: o asso-ciativismo juvenil. Para “fazer coisas”, para dar asas à imaginação, para educar o próprio gosto e promover a cultura, para mexer com o seu meio, uma associação ainda é o melhorzinho que meia dúzia de jovens pode fazer.

J.P.F.