Sigismundo Gorazdowski, “olho do cego, perna do coxo e pai dos pobres”

Santos de Bento XVI Sigismundo Gorazdowski foi canonizado na primeira celebração deste género presidida por Bento XVI, em Roma, no dia 23 de outubro de 2005. João Paulo II gostaria, com certeza, de ter presidido à cerimónia que, entre os cinco declarados santos, tinha dois polacos-ucranianos, Gorazdowski e Bilczewski, ambos ligados à arquidiocese de Lviv, de que o segundo foi arcebispo. Lviv, hoje, pertence à Ucrânia (e foi palco de dois jogos portugueses no Euro 2012), mas teve soberania polaca do século XIV aos finais do séc. XVIII e de 1919 a 1939. Ambos foram beatificados por João Paulo II na viagem à Ucrânia, em 2001.

Nascido em Sanok, Polónia, em 1845, Sigismundo Gorazdowski (Zygmunt Gorazdowski ou Zygmunta Gorazdowskiego) teve uma saúde muito frágil na infância e juventude. Decidiu ser padre quando já frequentava em Lviv o segundo ano do curso de Direito e entrou para o seminário maior desta arquidiocese. Devido à doença, viu ser suspensa a sua ordenação sacerdotal, o que levou uns amigos a escreverem: “A não admissão à ordenação sacerdotal foi para Segismundo um golpe muito doloroso. Sofreu moral e fisicamente, mas não perdeu a confiança no Senhor Deus”. Dois anos depois, em 1871, recebe finalmente a ordenação na Catedral de Lviv, para primeiro trabalhar em algumas paróquias mais pequenas e depois, a partir de 1877, na cidade da arquidiocese.

Formação e solidariedade

Podemos ver duas grandes preocupações no agir pastoral de Gorazdowski, que tinha por lema “ser tudo para todos, para salvar pelo menos um”: formação e solidariedade, ambas guiadas “pelo espírito de comunhão, que se revela plenamente na Eucaristia”, como referiu Bento XVI na canonização.

No capítulo da formação, este padre elaborou e editou um “Catecismo” que foi um grande sucesso de tiragens, preparou para rapazes e raparigas a obra “Conselhos e Admoestações”, publicou para pais e educadores o livro “Princípios e Normas de Boa Educação” e, para padres, a revista “Sociedade do Bom Pastor”. Iniciou ainda a publicação do “Jornal Diário”, respondendo ao apelo papal para editar e propagar entre o povo jornais e revistas baratos.

No capítulo da solidariedade, P.e Gorazdowski fundou a Casa de Trabalho Benévolo para mendigos sem lar. Muitos dos que entraram para este lar “abandonaram a mendicidade e recuperando a sua dignidade, voltaram à vida decente”, lê-se num relatório desta obra. Iniciou a Cozinha Popular para servir refeições a baixo preço a trabalhadores, crianças e pobres de Lviv. Como resposta à lei que obrigava os doentes a abandonar os hospitais após seis dias de internamento, fosse qual fosse o estado de saúde, criou um abrigo para doentes incuráveis. Fundou uma escola para estudantes pobres, o Internato de São Josafat, e um lar para mães solteiras e meninos abandonados, o Instituto Menino Jesus. Criou ainda a Escola Católica, instituição que, a par do jornal, enfrentou grande oposição em alguns espíritos da época, proporcionando “muitas aflições, sofrimentos, incompreensões e humilhações ao P.e Sigismundo, praticamente até à sua morte”, como refere a biografia elaborada pelo Vaticano na altura da canonização.

Irmãs Josefinas

A este padre deve também a arquidiocese de Lviv duas práticas que hoje estão disseminadas por todo o lado: a celebração solene e comunitária da primeira Comunhão e a oferta de lembranças na primeira Comunhão e no Crisma.

Se, por alguns dos seus feitos, P.e Gorazdowski sofreu incompreensões, por outros, granjeou admiração, recebendo títulos populares como “olho do cego”, “perna do coxo” e “pai dos pobres”, ele, que quase não foi ordenado padre por motivos de saúde.

Para dirigir a maioria das obras fundadas (nem todas foram referidas no que ficou escrito), P.e Gorazdowski criou em 1884 a Congregação das Irmãs de São José, ou Irmãs Josefinas, que têm como lema, seguindo o exemplo do fundador, “coração em Deus, mãos ao trabalho”.

A congregação trabalha atualmente na Europa (Ucrânia, Polónia, Alemanha, França e Itália) e em missões na América do Sul e África. J.P.F.

Grandes datas

de S. Gorazdowski

1845 – 1 de novembro. Nasce em Sanok, na Polónia, Sigismundo Gorazdowski

1869 – Uma doença grave impede-o de receber a ordenação

1871 – 25 de julho. É ordenado padre na catedral de Lwow (atual Ucrânia)

1884 – 17 de fevereiro. Fundação da Congregação das Irmãs de S. José (irmãs josefinas)

1920 – 1 de janeiro. Morre em Lviv

1989 – Início do seu processo de beatificação

2001 – 26 de junho. Beatificação por João Paulo II; este dia é o da sua memória litúrgica

2005 – 23 de outubro. Canonização por Bento XVI

“Viver a oferta de Cristo estimulou-o a dedicar-se

aos doentes, aos pobres e aos necessitados”

Bento XVI na homilia da canonização, no dia 23 de outubro de 2005