1 – Poder dizer “sim” ou dizer “não” é um exercício de democracia – afirmava um ilustre constitucionalista, a propósito do desaire que tomou posse da classe política, face ao “não” da França e da Holanda ao texto da Constituição Europeia, já seguido da suspensão da mesma consulta em Inglaterra, do anúncio da possível retoma de circulação da Lira italiana, do voto de adiamento da consulta em Portugal… Isto é, face a um cenário de aparente derrocada do projecto europeu.
2 – Não basta poder dizer “sim” ou “não”, para se estar em democracia. É fundamental ter razões para dizer um ou outro, assumi-las e escolher consequentemente. E aí reside a maior dificuldade de quem propõe e de quem escolhe. De quem propõe, porque se lhe exige a necessidade da transparência da proposta e a humildade de desejar o contributo dos eleitores na discussão prévia à votação. O que, à partida, desfaz quaisquer ilusões de manipulação em função de uma decisão oculta já tomada – aquilo que a nossa classe política “vende” com mais facilidade.
3 – Da parte de quem escolhe, não é menor o empenho exigido. Primeiro, de procurar todos os modos de entender o que é proposto. Não bastam as opiniões dos amigos ou a publicidade dos meios de comunicação social; como não basta a indicação dos preferidos políticos. O exercício da cidadania reclama uma busca de informação e uma capacidade crítica sobre essa informação – o que exige trabalho, nem sempre muito ao nosso jeito. Por outro lado, uma escolha de cidadania amadurecida implica a nada fácil tarefa de ultrapassar os interesses pessoais, para aferir o interesse comum como guião essencial da escolha.
4 – Em relação às instituições europeias como face aos projectos nacionais, em relação à coisa pública como em relação às iniciativas privadas… Amadurecer uma opção fundamentada não é muito esse o hábito de bastantes de nós. Porventura não por culpa própria, mas por um défice de formação cívica. Seguramente por um défice de formação integral, que nos torna cronicamente míopes face à ousadia do futuro e nos molda como avarentos de “lucros” imediatos e pessoais. Quando se trata de reconhecer a verdade dos outros, de pôr em causa o interesse pessoal… as coisas tornam-se difíceis! E não há pior cegueira do que aquela de quem não quer ver!
5 – Com ou sem referendo em Outubro, misturado ou separado das autárquicas, decisivo é que os políticos se habituem a respeitar os seus eleitores. Sem necessidade, como é evidente, de com eles discutirem ao pormenor todas as iniciativas, não podem é projectar nas suas costas o que quer que seja que implique impacto profundo e duradouro nas suas vidas, sem os fazerem participar de uma discussão clara e conclusiva, que lhes permita dizerem “sim” ou dizerem “não” como exercício de cidadania activa!
