António Lobo Antunes apresentou a sua última obra, “Ontem não te vi em Babilónia”, na Biblioteca Municipal de Aveiro. O escritor revelou que escreve na mesa da cozinha, de frente para a parede, e falou da influência do pai e do avô.
“Só deve ler, se lhe der na gana! Era o que faltava dizer-lhe para me ler a mim! Não tem nenhuma razão para me ler. Até lhe digo que não leia, porque os livros dão trabalho e são muito caros!” – foi uma das respostas de António Lobo Antunes no sábado, 4 de Novembro, na Biblioteca Municipal de Aveiro, a uma das interpelações relativas ao último livro que lançou, “Ontem não te vi em Babilónia”.
Vagueando entre a estante repleta de livros em casa do seu avô – “Estou a ver os livros na estante…” – e a sua profissão de médico (que lhe transmitiu sobretudo a perplexidade e a incompreensão perante o sofrimento), o escritor falou durante uma hora para uma plateia de cem pessoas, sobre os actos de escrever e ler.
Referiu as histórias aos quadradinhos e as publicações das Selecções como as suas grandes referências, porque é em criança que se acorda o desejo de escrever, pela leitura. “Comecei a escrever por causa do Mandrake, do Pato Donald. Quando um dos filhos estava doente, o pai lia-lhes os livros de que gostava, lia em português, em francês e em inglês”, disse. Também no Inverno, recordou, não saía muito de casa, pelo que lia. E escrevia. Praticou hóquei, mas seguiu a carreira de Medicina por influência paterna. Hoje, lê sobretudo poesia. Destacou o poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto.
Apesar do que se diz, o escritor considera que em Portugal se lê muito. Lamentou, todavia, que nunca tenha havido uma política cultural: “Nunca se ensinou a ler, porque ler aprende-se.”
Lobo Antunes escreve na mesa da cozinha, sentado de frente para a parede, para não se distrair. Quanto ao acto de escrever, divide-o em dois momentos: numa primeira parte, decide escrever, mas começa sem uma ideia, sem um título. É uma altura de sofrimento. Na segunda parte, “o livro já anda sozinho, sem a minha intervenção. Parece que alguém me está a ditar”. O título aparece com um nexo afectivo, impossível de se explicar, como o amor e a amizade. “Não imagino o livro com outro nome”, afirmou, como “não imagino o meu camarada da tropa com outro nome!”
Para Lobo Antunes, um livro é um cofre que se abre com uma chave. Essa chave é feita com a experiência de vida de cada leitor (uma vez publicado, um livro deixa de pertencer ao escritor, é do leitor). Porém, se o livro for bom, ele traz a sua própria chave, é lido como é, aceite como é.
Com uma boa dose de humor, António Lobo Antunes provocou várias gargalhadas no público (por exemplo, confessou que, quando não está a escrever, sente-se culpado, como se não tivesse tomado banho antes de se vestir), mas também comoveu quando relembrou o rapazinho morto ao colo de um enfermeiro, cujo pé nu o marcou quando tinha 22 anos. Há 42 anos. É para esse menino que escreve, “para os que não têm voz.”
