Só se pode crer quandfo se morreu alguma vez

Poço de Jacob – 17 Esta frase ouvi-a na semana de espi-ritualidade carmelita, em Marco de Canavezes, na conferência do P.e Agostinho Leal. É uma frase de Dorothe Solle, no seu livro “Viagem de Ida”. Lembra a mudança radical da vida da Samaritana do poço de Sicar. Diz Dorothe que, pelo divórcio, que ela não queria que acontecesse no seu casamento, Deus despedaçou o seu primeiro e único projecto de vida. Sem explicações dos porquês, como faz na vida de todos nós. Atirou-a por terra. Ela só queria ou o marido de volta ou a morte. Como tantos homens e mulheres do nosso tempo. Diz que entrou numa catedral gótica e só lhe apetecia, não gemer, nem chorar, mas gritar… Ouviu dentro de si uma frase que detestava, “basta-te a minha graça”, que ela sabia ter sido dita a S. Paulo quando este também gritava. No entanto, sentiu paz. Sentiu que só a dimensão da Fé dá sentido ao irremediavelmente perdido. Que a experiência de fé é insubstituível. Que basta a Graça de Deus para se viver. Saiu dali sem se angustiar se o marido voltaria ou não, mas ainda querendo morrer. Mas, pouco a pouco, aquela frase da Bíblia foi-se fazendo vida nela, e entendeu que uma nova vida, sozinha, sem dúvida, se abria diante dela: Uma viagem de ida, na aventura do crer, que dá sentido ao que parece absurdo. Na dor, redentora, que gera vida. Samaritanas angustiadas, gente perdida que só sabe gritar ou que até nem consegue fazê-lo, há muitas. Algumas terminam no suicídio. Dorothe descobriu Deus sentado ali, no seu poço fundo e negro, a pedir-lhe: “Dá-e de beber”. E descobriu uma fonte viva dentro dela.

Não desanimes, pois.

Olha à tua volta.

Ele está aí.

Não o vês?

P.e Víctor Espadilha