Alunos do Colégio de Calvão empreenderam viagem solidária É sempre assim na semana da Páscoa: milhares de estudantes portugueses do secundário rumam ao sul de Espanha em viagem de finalistas. Os resultados, alguns lamentáveis, aparecem depois nas páginas dos jornais e na televisão e incluem “bebedeiras valentes que levaram a urgências de hospitais”, como referiu D. António Marcelino na sua “Pedrada” da semana passada.
É sempre assim, mas não é para todos assim. Uma dezena de alunos da turma D do 12º ano do Colégio de Calvão fez a sua viagem de finalistas, de uma semana, a Cabo Verde, não para “desbundar”, mas para partilhar vivências com os habitantes da Ilha de Santiago, onde estão os missionários espiritanos, entre os quais se destaca o P.e Nuno Rodrigues, de Leiria.
A ideia partiu da aluna Carla Santos, que, conhecendo a experiência missionária do professor Jorge Carvalhais (colaborador do Correio do Vouga e leigo missionário), falou com ele e divulgou o projecto entre os colegas. A turma aceitou a ideia e empenhou-se com entusiasmo na angariação dos 500 euros que custaria a viagem por pessoa. “Assámos três porcos no rodízio para arranjar dinheiro”, explica o aluno Sérgio Neves. A essa iniciativa juntaram-se outras mais habituais, como os jantares de finalistas ou os sorteios de rifas.
Uma vez em Cabo Verde, os alunos dinamizaram actividades desportivas e lúdicas, principalmente para os 130 escuteiros da Ilha de Santiago, e colaboraram com os quatro professores e três ex-alunos do Colégio que os acompanharam. Os professores Mário Paulo, Wanderley, Maria do Céu Pinho e Jorge Carvalhais, mais os três antigos alunos, ensinaram Cidadania, Higiene & Saúde, Capoeira e Inglês às crianças e jovens cabo-verdianos.
A viagem não foi de diversão, mas “foi toda ela uma diversão”, conta o Sérgio. O colega Márcio acrescenta: “Praticamente não houve trabalho”, porque as muitas actividades foram vividas com grande espírito de inter-ajuda. Durante a semana, houve ainda espaço para visitar a antiga prisão do Tarrafal, para onde a PIDE enviou opositores ao regime, as ruínas da Cidade Velha, o hospital e uma ou outra praia (desilusão: numa delas só havia pedras; nada de areia!) e serem recebidos pelo presidente da Câmara da Calheta.
Uma semana no país africano serviu também para dispensar algumas comodidades de todos os dias. O banho era de “pote e caneca”, o que implicou uma mudança de hábitos. Telemóveis, nada. Internet, muito pouca e utilizada apenas por um professor e um aluno. “Nem sequer pensávamos nisso. Estávamos muito ocupados”, refere um aluno ao Correio do Vouga, que visitou a turma numa das primeiras aulas do terceiro período.
No final da viagem, o professor Jorge Carvalhais, director de turma, faz um balanço muito positivo: “Era uma incógnita a viagem. Conhecendo-os, pensei que pudesse haver algum problema. Mas cheguei ao fim da actividade sem nunca lhes ter levantado a voz uma única vez”. Por outro lado, sublinha o valor principal subjacente à viagem: “Eles tiveram mentalidade de voluntários: deram testemunho e estiveram disponíveis para fazer o que era necessário”. E conclui: “É um lugar comum dizer que recebemos muito mais do que o que demos. Mas eles deram tudo que tinham. Agora há o compromisso de continuar a ajudar”.
Pedro Neto considerou muito positiva a actividade da turma de Calvão. Enquanto presidente da ONG Orbis, este ex-aluno do Colégio acompanhou a viagem, na perspectiva da sua organização apoiar algum futuro projecto. “Eles revelaram grande maturidade. Integraram-se bem, e acolheram a cultura que encontraram. A prova disso é que alguns estão entrançados”, afirma, referindo-se às tranças de “tipo africano” na cabeça dos alunos.
De certa forma, a viagem de finalistas só se conclui depois da festa solidária do próximo domingo (ver destaque). Mas mesmo essa não deve ser a última palavra no “assunto Cabo Verde”.
“Quero voltar lá para o ano”, afirma Carla Santos. “Depois do que vimos, temos de desenvolver algum projecto. Pode ser, por exemplo, incentivar a recolha do lixo”. É uma possibilidade entre muitas. Talvez surjam outros projectos voluntários. Talvez outras viagens de finalistas escolham como destino a solidariedade.
Experiências
“Foi tudo único. Só vivendo é que se dá valor ao que se tem. Ficamos distantes do mundo daqui e quando chegamos [a Portugal] é que damos valor ao que temos”.
Luciana
Foi uma experiência muito enriquecedora. É incrível o choque de culturas, separadas por apenas 4 horas de voo. Uma das riquezas desta viagem foi a da gratuidade do sorriso. Na Europa pagamos para ter terapias, aulas de riso, ioga… Pagamos para tirar de nós coisas que temos em nós.
Mário Paulo, professor
Sentimos saudades daquelas crianças. Para sair à noite temos todos os fins-de-semana. Não é preciso ser finalista.
Inês Resende
As despedidas de Cabo Verde foram difíceis. Estivemos lá pouco tempo, mas gostamos muito. Vimos crianças a chorar e, pode parecer lamechas, mas também choramos. Houve uma festa de despedida em que todos se vestiram a rigor.
Vasco
Festa das Famílias ajuda construção de centro social em Cabo Verde
O Colégio de Calvão promove no próximo Domingo, 20 de Abril, um grande encontro festivo para alunos e famílias. A festa começa com a apresentação da experiência “Uma semana em Cabo Verde” (10h30), seguindo-se a Eucaristia (12h) e um espectáculo musical, após o almoço, que conta com a actuação de José Alberto Reis, P.e Marcos Alvim (de Viseu) e a banda cabo-verdiana Sabura CV.
As receitas da festa (o bilhete individual custa sete euros; para grupos é mais barato) revertem para a construção de um centro social em Cabo Verde, para mães solteiras, crianças órfãs e projectos de alfabetização. A ONG aveirense Orbis apoia esta construção.
