De 28 de Fevereiro a 7 de Março vive-se em Portugal a Semana Cáritas, um tempo de sensibilização para os problemas sociais e de recolha de fundos para o organismo da Igreja Católica que tem como principal missão o exercício e sensibilização para a caridade. O Correio do Vouga falou com o diácono José Alves, que recentemente foi reconduzido na presidência da Cáritas da Diocese de Aveiro. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira
CORREIO DO VOUGA – A crise está a afectar muitas pessoas. A Cáritas Diocesana tem dados que revelam as dificuldades crescentes?
JOSÉ ALVES – Os dados mais claros que temos sobre os efeitos da crise são os do atendimento social que a Cáritas faz diariamente. Em 2008, tivemos 1439 atendimentos. Em 2009, o número subiu para 2189, o que significa um aumento de 52 por cento. Em termos de novos casos de pobreza, todos os meses aparecem cerca de 20 novas situações, que depois reflectem-se em vários atendimentos.
As respostas da Cáritas passam pelo atendimento permanente, mas não ficam por aí…
O atendimento social é apenas um dos serviços. A Cáritas tem também o Centro de Acolhimento Infantil, para receber de crianças em situações de risco, o Centro de Acolhimento Temporário, para os sem-abrigo, o núcleo de apoio às vítimas de violência doméstica. E agora temos dois novos projectos. O primeiro é o MultiSendas, na comunidade cigana de Ervideiros (Esgueira/Cacia), e que visa essencialmente o aproveitamento escolar, evitando que as crianças abandonem a escola e procurando que os que a abandonaram regressem. É um trabalho direccionado principalmente para as crianças e jovens e para as respectivas famílias. Em Março, vamos dar início ao projecto “Géneros”, no âmbito da igualdade de género. As principais acções serão de sensibilização para a igualdade de género, de combate à violência entre géneros, onde se engloba a violência doméstica. É financiado por dinheiros públicos e vai ter acções nas escolas, em associações, e outros espaços. Será executado pela Cáritas por uma assistência social e por uma psicóloga clínica.
Falou da violência doméstica. Pode dar-nos alguns dados?
É um serviço muito procurado. Em 2009 tivemos 115 atendimentos psicológicos e 109 atendimentos psicossociais. De Janeiro a Setembro de 2009 foram abertos 72 processos. Além disso, o núcleo tem feito acções de sensibilização em escolas (Arouca, Estarreja, Águeda, Aveiro, Bustos…) e acções de formação para profissionais.
A ajuda ao Haiti tem passado pela Cáritas de Aveiro?
A Cáritas tem recolhido donativos, quer de particulares, quer de algumas paróquias, que os têm encaminhado para a Cáritas Diocesana. Depois encaminhamos para a Cáritas nacional. Posso dizer que até este momento chegou-nos uma quantia que ronda os 30 mil euros.
Vamos agora entrar na semana Cáritas, em plena Quaresma…
Começa no dia 28 de Fevereiro e termina no dia 7 de Março. Tem como tema “Erradicar a pobreza, radicar a justiça”. Procuramos sensibilizar através das paróquias e da comunicação social e distribuímos cartazes. O tema surge em linha com o Ano Europeu de Combate à Pobreza e à Exclusão Social. A semana Cáritas é por excelência o evento de sensibilização e de recolha de fundos junto das populações. Iremos levar a efeito um peditório público por toda a diocese. Na zona da cidade, é feito por voluntários, enquanto nas paróquias é feito pelos elementos dos grupos paroquiais da Cáritas e através dos ofertórios das eucaristias dos dias 6 e 7 de Março. No ano passado, excluindo os ofertórios das eucaristias, o peditório nas ruas recolheu 3480 euros.
Qual é o destino dado a esse dinheiro?
Do dinheiro que recebem, os grupos Cáritas e as paróquias ficam com 30 por cento e entregam o restante. Do montante global recebido, a Cáritas entrega 30 por cento das verbas à Cáritas Portuguesa. Há aqui toda uma dimensão de solidariedade.
Neste momento qual é a grande preocupação da Cáritas portuguesa?
A Cáritas Portuguesa tem centrado a sua acção no apoio às novas vítimas da pobreza, principalmente desempregados. Foi assim no ano passado e continuar a ser assim este ano. O projecto Dez Milhões de Estrelas (no Natal) também contribuiu nesse sentido. Em termos diocesanos, o dinheiro é para a ajuda do dia-a-dia, para as necessidades que vão surgindo.
Para apoio aos novos pobres, obteve algum eco nacional o “Ticket Restaurant”, que a Cáritas de Aveiro também distribui. Pode explicar como funciona?
É um apoio direccionado a situações de pobreza envergonhada, por assim dizer. A Cáritas entrega estes vales que depois as pessoas podem trocar por géneros alimentares e por artigos escolares nos supermercados. Isto não tem nada a ver com restaurantes, tem a ver com a troca por géneros. Muitas empresas dão parte da compensação aos seus colaboradores através destes vales e há até empresas que sugerem que os seus trabalhadores os ofereçam a Cáritas, caso não tencionem usá-los.
Grupos Cáritas paroquiais – tendo a Diocese de Aveiro vivido o ano pastoral 2008/09 centrado na caridade, seria de esperar que tivessem surgido mais grupos deste género nas paróquias… Qual é o panorama?
Não estão tão bem quanto nós desejaríamos. Há 38 grupos activos, alguns a traba-lhar muito bem. É nossa preocupação dina-mizá-los. Temos uma equipa praticamente constituída para trabalhar com eles e para reactivar os que estão parados, cerca de uma dúzia. É nossa intenção reactivá-los porque há necessidades. De facto, no ano passado não surgiram grupos. Mas os que existem foram mais dinamizados.
Os cristãos estão pouco despertos para a caridade, para o empenhamento social?
O nosso povo é muito generoso e é muito sensível. O que falta é organizar a boa vontade das pessoas através de equipas. Não é preciso um mundo de gente para organizar um grupo Cáritas. Com 4 ou 5 pessoas pode-se trabalhar muito bem desde que depois se socorram de outras pessoas para resolver os problemas.
Do seu ponto de vista, como deve ser um grupo paroquial da Cáritas?
Como pessoas, somos um todo e não só alimento para a boca. Um grupo Cáritas deve estar preocupado com os bem alimentares, sem dúvida, mas há todo um outro caminho a fazer: o apoio espiritual; o apoio de acompanhamento; apoio a pequenas tarefas de que as pessoas precisam, como seja ir aos correios, à farmácia, ao banco; companhia na solidão, que é uma nova forma de pobreza. Outra missão passa por alertar a comunidade para as novas dificuldades.
A Cáritas tem nova direcção para 2010/12. Vai mudar o modo de funcionamento?
A nova direcção tomou posse no dia 20 de Janeiro. Eu continuo como presidente. Diamantino Neves é o vice-presidente, cargo criado com os novos estatutos. Antes era secretário. O Dr. Aparício, que era tesoureiro, é agora vogal. O Dr. Manuel Domingos continua como vogal. O superintendente chefe Vítor Santos continua como vogal. A Dr.ª Conceição Pisco, por razões de ordem familiar, saiu. E entraram dois novos elementos, o Dr. José Pereira, tesoureiro, e a professora Joana Condesso, secretária da direcção. O assistente é o P.e João Gonçalves. Entretanto, estamos a constituir, pedir, recrutar um grupo de voluntários para apoiar de forma próxima a direcção. Trata-se de pessoas para trabalhar em diversos grupos: equipa de apoio aos grupos paroquiais, equipa de angariação de fundos para apoiar a sustentabilidade; grupo de organização das campanhas (Semana Cáritas, 10 Milhões de Estrelas, etc.). Em todas estas equipas estará um elemento da direcção.
Como vai trabalhar a equipa de angariação de fundos?
A sua primeira tarefa é ver a melhor forma de economizar. Depois, estudará a melhor forma a angariar e recolher fundos, seja com campanhas, eventos, ou indo às empresas e a particulares. Todas hipóteses são possíveis.
Como chegam esses voluntários?
Os que neste momento já temos foram contactados pela direcção. Mas, já agora, faço um apelo: precisamos de alguém na área do marketing. Ainda não temos ninguém. Quem aparecer, para esta ou outras áreas, será bem-vindo.
Porque queremos trabalhar melhor para servir melhor, estamos envolvidos no projecto Qualis, por proposta da REAPN (Rede Europeia Anti Pobreza), que visa melhorar a qualidade dos serviços das instituições de solidariedade, de forma a respondermos melhor às exigências das instituições oficiais. Nesse sentido, vamos implementar manuais de qualidade nas nossas valências. O projecto terminou, em termos teóricos, e estamos agora a pôr em prática o que aprendemos. Vamos mudar procedimentos para melhor servir.
Este é o seu terceiro mandado. Que balanço faz dos dois anteriores?
Foram anos de muito trabalho, de continuidade com o trabalho realizado e de novos projectos. Considero momentos altos destes cinco anos (o primeiro mandato durou apenas dois anos) o projecto Sendas Gintana, continuado com o Novas Sendas e agora com o Multi Sendas. No Centro de Acolhimento Infantil, o trabalho foi de continuidade. Situações novas: o núcleo de apoio às vítimas de violências doméstica e a candidatura para a construção do edifício destinando a portadores de deficiência.
Como está essa candidatura?
Está aprovada. Estamos em tempo de elaboração das especialidades do projecto, para logo que possível avançar com o lançamento e adjudicação da obra. Neste momento aguardamos respostas da Segurança Social. O edifício terá um lar residencial para 22 portadores de deficiência, um centro de actividades ocupacionais com 30 vagas e prestará apoio domiciliário a 15 utentes. Para o mesmo terreno, na freguesia de Santa Joana, prevê-se a construção do novo centro de acolhimento infantil (que actualmente funciona no Caião – Esgueira). Estamos com alguma dificuldade, porque não abrem candidaturas para projectos de infância e o edifício actual tem muitas carências.
As duas obras correm o risco de não avançar ao mesmo tempo?
É uma situação que estamos a estudar. Não aparecem candidaturas para a área infantil e estamos um pouco tontos, por assim dizer, devido à incerteza.
Ponderam avançar com fundos próprios na construção da obra para as crianças em risco?
Essa é a questão. Temos de ponderar muito bem se temos capacidade para tal, já que para a obra de apoio aos portadores de deficiência há financiamento público, ainda que não na globalidade, na ordem dos 66 por cento.
Estas obras são o grande projecto deste mandato que dura até 2012?
Sim, mas não vamos esquecer a continuidade de todos os outros serviços.
