D. Ximenes Belo no Centro Universitário Fé e Cultura “Como pode um homem falar de paz, quando a sua terra não vive em paz?” D. Ximenes Belo, natural de Baucau, ordenado padre em 1983, bispo em 1988, alvo de tentativas de homicídio em 1989 e 1991, Nobel da Paz em 1996, falou com serenidade de paz e foi escutado com atenção por uma centena de pessoas, muitas delas jovens. O Correio do Vouga resume aqui os principais pontos da sessão, que decorreu no Centro Universitário, na noite de 4 de Outubro.
4 de Outubro, dia de S. Francisco de Assis, paz com o ambiente
Francisco de Assis foi um santo universal. Com a sua vida e através dos seus filhos e filhas, que fazem parte da grande família franciscana, continua a espalhar pelo mundo a paz e o bem. “Irmã morte”, “irmão fogo”, “irmã terra”, “irmã água” – como ele dizia. Isto diz-nos quão grande amor este santo tinha pela natureza, pela ecologia. Quando falamos de paz, falamos também de paz com o ambiente, paz com o universo, paz no respeito pelos rios, pelos mares, pelas montanhas e pelas florestas. Tudo ensinamentos do evangelho e ensinamentos particulares de Francisco de Assis.
Definição de paz
A palavra correspondente em hebraico é “shalom”. Em árabe, “shalam”. Nós, durante o tempo de ocupação indonésia, saudávamos os nossos irmãos indonésios dizendo “Assalam maleikon”. E eles respondiam “Salam”. A raiz destas palavras é “seleimut”, que significa plenitude, perfeição, felicidade. “Shalom” significa isso mesmo. Quando em Israel os rabinos falam de “shalom”, significa uma realidade próxima de Javé. Deus é sinónimo de “shalom”. A paz é um dom de Deus e de Jesus Cristo, que depois da ressurreição se apresenta dizendo: “Dou-vos a paz, a minha paz vos dou”. Ele é o princípio da paz.
Só ausência de guerra?
Quando falamos de paz, queremos significar ausência da guerra. Porém, esta expressão está muito ultrapassada. Em Portugal, não há guerra. Não há rebentamentos de bombas ou morteiros, não há destruição de infra-estruturas ou bens necessários. Mas isso não quer dizer que não haja conflitos, não haja violência, não haja ódio. Quando ligamos a televisão, ouvimos falar da violência doméstica. Fala-se dos filhos que batem nos pais, alunos que batem nos professores. Antes, os professores batiam nos alunos. Agora é o contrário. Há desentendimentos, há desacordos. A paz é algo muito mais profundo do que a ausência da guerra.
Desenvolvimento da pessoa toda e de todas as pessoas
Nos últimos tempos, a compreensão da paz ganhou uma maior dimensão. Paulo VI dizia que a paz significa desenvolvimento integral, equilibrado, progressivo, harmonioso, do homem e da mulher. Podemos igualmente falar do desenvolvimento dos povos. Verificamos grandes diferenças entre níveis de civilização e bem-estar entre o Hemisfério Norte, rico, gordo – mas velho –, e o Hemisfério Sul, com grandes multidões de pobres. Mas, mesmo dentro do Norte, há muitos pobres: cidades e bairros de imigrantes, refugiados, marginalizados, anciãos. Tudo isto faz pensar que a paz não é para todos.
Direitos humanos
Depois de 1948, com a aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, quando falamos de paz queremos significar também esse respeito pelos direitos do homens e da mulher, da criança, do ancião, direito do ambiente, do universo. Tudo isto significa paz.
O âmbito da paz significa ainda: cidadania, solidariedade entre pessoas e povos, desenvolvimento equilibrado para todas as regiões do mundo, cooperação internacional, prática da justiça.
Onde começa a paz
Paz é, também, paz connosco próprios. O orgulho, a vaidade, o ódio brotam do coração do homem, como nos tem dito São Tiago, nas leituras dos últimos domingos. Por isso, enquanto dentro de nós não houver tranquilidade e perfeição (em japonês, a palavra paz significa “mar tranquilo”), claro que não haverá paz. O segredo todo está em nós. Então haverá paz na família, na escola, no bairro. O esforço que devemos fazer é começar a paz por nós próprios.
Timor
Estar a falar de paz convosco parece uma incongruência, quando na minha própria terra, sobretudo na capital, que é Dili, não há paz. Há crispação de líderes, há gangs e grupos que incendeiam, atiram pedras, que não deixam as pessoas dormir em paz.
Vendo Timor nesta crise, parece que todo o trabalho foi em vão. Foi um momento feliz ver que Timor seguiu o caminho da independência, mas a independência não representa tudo. Há muito trabalho para fazer.
Todos somos candidatos ao Nobel
O dom de Deus que é a paz exige da nossa parte um esforço muito grande, um esforço contínuo. Embora apenas eu tenha ganho o Prémio Nobel da Paz, somos todos candidatos. Por isso, cada um, segundo as suas possibilidades, saber e preparação, é promotor e agente da paz. O mundo precisa do esforço de cada um.
A luta continua
Vamos continuar a lutar pela paz. Nunca houve um ano completo sem guerra, apesar de tantos tratados e convenções, mas não podemos desistir. Como dizia a Fretilin ou Fidel Castro, “a luta continua”. Continua para erradicar o mal, para erradicar sementes de ódio e de violência e semear uma civilização de amor.
A paz cultiva-se
Todas as coisas têm de ser ensinadas. É fundamental que a família, a escola, as organizações e os meios de comunicação social eduquem para paz. A ética, a cidadania e os valores humanos têm de ser cultivados. Se cultivamos os campos para ter couves e cenouras, para termos paz, também precisamos de gente que saiba cultivar com ciência, técnica e virtudes.
Grandes instituições
Depois das guerras mundiais, as nações concordaram em formar as Nações Unidas, que têm como primeiro objectivo trabalhar a paz. Mas têm de trabalhar eficazmente. Enquanto a ONU for governada por países que querem impor a sua ideologia, quer de direita, quer de esquerda, do socialismo ou do liberalismo, claro que não haverá paz. Por outro lado, temos as religiões. Hans Kung dizia que, se as religiões entrarem em acordo, haverá paz. Se não, haverá guerra. Os esforços das grandes instituições só são possíveis graças aos esforços individuais e à educação da juventude.
A CPLP (Comunidade dos Países de Língua oficial Portuguesa) tem sido solidária com Timor. Os países de língua portuguesa apoiaram durante a ocupação; e, após a independência, integraram a força da ONU.
Papel da língua portuguesa
Em Portugal, a língua é uma só, apesar dos sotaques e do mirandês. Em Timor, no tempo colonial, apenas 8% falavam correcta e correntemente o português. A grande maioria falava um dos 19 dialectos. Na escola, quando eu era jovem, falávamos o português na aula, mas no recreio e em casa, cada um falava o seu dialecto.
Durante os 24 anos de ocupação indonésia, a língua portuguesa foi totalmente proibida. Quem falasse ou cumprimentasse em português apanhava uma bofetada da “inteligentzia”; por isso ninguém falava português. Agora a constituição consagra o português a par do tetum como língua oficial. A nível do básico, a língua está a entrar. A juventude ainda tem mais facilidade em exprimir-se em indonésio do que em português. Agora nota-se um esforço de toda a gente. Havendo televisão que cubra todo o território e jornais, o português entrará com mais facilidade. Levará tempo.
Conhecer o outro
A educação para a paz inclui o aspecto activo e dinâmico de respeitar dialogando, respeitar estudando a cultura dos outros. É necessário estudar a geografia, a literatura, a psicologia de outros povos. A educação exige abertura.
Paz e desenvolvimento económico
O bem-estar dos povos inclui naturalmente o desenvolvimento económico. O bem comum inclui habitação, vestuário, alimentos, medicamentos, estradas… Enquanto não houver satisfação dos bens fundamentais, há desequilíbrio e injustiça social. A Igreja, em muitas dioceses, tem comissões de Justiça e Paz e de “human development”. Mas, se as nações económica e politicamente fortes não conseguem resolver as injustiças, quanto mais a Igreja, que vive das esmolas dos seus fiéis.
Tolerância mútua
Os católicos, na Indonésia, para construírem uma capela levam anos, porque têm de ter a aprovação de todo o bairro. Por isso, reúnem na casa de um deles, que lentamente se transforma em capela. Mas, quando é apanhado, paga multa ou a capela é destruída. Exigem de nós tolerância, mas não são tolerantes. O segredo está na educação inter-cultural e intercivilizacional.
O dinheiro e a política são importantes
Quando há desastres naturais ou guerras, de onde vêm as primeiras ajudas? Vêm da Europa e da América do Norte. Da Ásia quanto vem? O capital, o dinheiro, tem a sua razão de ser. É importante. Mas é importante a formação política dos cidadãos, a formação de líderes e elites segundo valores humanistas, se queremos revolucionar o mundo.
A paz tem de passar pela ciência e pela cultura, mas também pela política, que á a vida prática de cada dia, da “polis” [cidade], da aldeia, do bairro.
Paz e “media”
Os “media” são variados e dependem de ideologias e dos meios financeiros. Apenas esperamos que foquem igualmente aspectos positivos. Os aspectos positivos atiram-nos para cima. Ajudam-nos a ultrapassar-nos a nós próprios.
Paz e economia de mercado
Para já temos um grande rio que é a economia da concorrência. Espero que caminhemos para a economia da solidariedade e da comunhão entre os povos do Norte e do Sul. Se falamos da formação dos políticos, devemos também falar da formação dos economistas.
“Um rapaz do terceiro mundo”
Tive uma juventude pobre. O meu pai morreu cedo. Eu tinha dois anos. Jogávamos à bola com uma meia ou papéis atados com um cordel. Mas também jogava ao murro com os meus colegas! Não tinha paz! Trabalhava nos nossos campos de arroz e era pastor de búfalos. A nossa mãe recordava-nos: “Hoje é domingo”. E nós fazíamos 30 ou 40 km para ir à missa. Todas as noites rezávamos o terço ajoelhados, diante do oratório. Rezávamos, por exemplo, pela paz na Hungria, em 1955/56. No meio disto, surgiu a ideia de ser padre. Foi a adolescência de um rapaz do terceiro mundo.
O Nobel
Quando anunciaram o Nobel da Paz, eram seis horas em Timor. Eu estava a presidir à Eucaristia. Depois da homilia, num momento de silêncio, entrou um irmão coadjutor trazendo um bilhetinho onde estava escrito: “Tu ganhaste o prémio Nobel da Paz. A rádio acabou de anunciar”. Peguei no bilhete, meti-o no bolso e vamos lá de con-tinuar a missa. Depois da comunhão, também no momento de silêncio, aparece o vigário-geral e sugere que se diga às pessoas que estão na missa. “Sr. Padre, faz favor de não dizer nada. Acabamos a missa e vamos para casa”, disse eu. Estávamos num momento difícil. Sabia que isso seria um trunfo nas mãos dos jovens timorenses, que começariam a gritar “Viva a liberdade!”, “Viva Xanana Gusmão!” e a reacção podia ser pior. Por isso é que actuei desta maneira, até à recepção do prémio, no dia 10 de Dezembro.
Próxima sessão do Fórum Universal:
8 de Novembro, às 21h00, no CUFC. João de Deus Ramos, ex-embaixador de Portugal na China, é o convidado.
Tema: “Que ‘sonho’ comanda a China?”
