Somos todos tão diferentes e tão semelhantes

Missão Jubilar Cineteatro de Estarreja lotado – cerca de 500 lugares –, na noite chuvosa de 23 de janeiro, para ouvir Jorge Sampaio e D. António Couto sobre os rumos do ecumenismo e do diálogo inter culturas. No encerramento, o Bispo de Aveiro convidou todos a serem “obreiros das bem-aventuranças”, obreiros de “um mundo novo que começa a germinar no coração e no horizonte, especialmente das crianças e dos jovens”. Aqui ficam as principais ideias desta iniciativa da Missão Jubilar. A próxima sessão/debate é em Águeda, no dia 26 de abril, sobre “economia e mundo operário”.

“Saber lidar com a diferença é crucial”

Jorge Sampaio

Ex-Presidente da República e Alto Representante da ONU para a Aliança de Civilizações

Aliança de Civilizações

Na sequência dos atentados de Madrid em 2004, os primeiros ministros de Espanha e Turquia pediram uma “aliança de civilizações”. A ONU lançou em 2005 a “Aliança de Civilizações” (AdC) para construir pontes sobre as divisões entre sociedades, já que os extremistas tendem a explorar essas divisões. A AdC atua sobre quatro eixos: Educação, Juventude, Imigração e Comunicação Social [este último não foi explicitado por Jorge Sampaio – “esqueço-me sempre de um” – ; mas a importância da comunicação social foi várias vezes destacada].

Colaboração na AdC

Fui convidado por Kofi Annan [secretário geral da ONU até 2006] para a AdC. Quem conhece as minhas cores, incluindo políticas, sabe que gosto de fazer pontes. Reconheço em mim algumas qualidades próprias: sei ouvir e sei agir em função do que ouço. Sei fazer sínteses.

Perceber a diferença

É necessário lançar as condições para a questão fundamental de saber viver em confronto. Perceber a diferença é difícil porque pensamos que a nossa cultura é a melhor, a nossa religião é a melhor.

As migrações do Norte de África para a Europa põem uma questão nova de diversidade cultural que não está a ser bem avaliada. É preciso aprender a falar com quem é cultural e religiosamente diferente. O mundo muda com demasiada rapidez e podemos ter problemas. Temos de começar a discutir seriamente que a Europa é bem mais complexa e ainda o será mais daqui a duas gerações. A complexidade vai aumentar.

Por outro lado, há minorias cristãs no Egito, na Tunísia, na Malásia, no Mali.

Um caso. Num centro comunitário em Israel, onde convivem palestinianos e israelitas, diz um deles, depois de algum tempo de convívio: “Agora que te conheço bem, nunca te poderei fazer mal”. Saber lidar com a diferença é crucial a nível local, regional e global.

Islão

Um dos problemas do Islão é precisamente não ter uma igreja [no sentido de estrutura hierárquica centralizada]. A unificação a nível internacional tem sido uma dificuldade. Cada pregador do Islão pode dizer coisas extremistas por sua própria iniciativa. Por outro lado, há um islão europeu, africano, do Médio Oriente… Quando estou nos países árabes, não há dia nenhum em que não me falem das cruzadas. Não podemos renegar o passado, mas podemos, a partir de lá, olhar para o futuro de maneira diferente.

Conhecimento,

educação e política

Só chegamos ao entendimento comum pela via da educação em projetos de longo prazo. Nada se faz de hoje para amanhã. A educação dá a capacidade de perceber o outro. Há um mínimo de dignidade humana que é comum a todas as pessoas. A partir desse mínimo que é um limiar inultrapassável, é possível trabalhar a sério no diálogo cultural. Estes temas têm de entrar na agenda política.

É bom em Portugal

Temos uma boa Lei da Liberdade Religiosa que deixa espantadas pessoas de outras nações. Temos um grande património de relacionamento com as outras culturas e religiões. Temos uma coesão nacional admirável, ao contrário de Espanha ou o Reino Unido. Temos a separação Igreja/Estado que a Igreja católica soube respeitar e exigir. Temos uma solidariedade entre gerações que não podemos perder.

“Que belo seria que conseguíssemos viver lado a lado, na mesma casa comum”

D. António Couto

Bispo de Lamego e presidente da Comissão Episcopal da Missão e Nova Evangelização

Casa comum

A Igreja tem a ver com os de perto e dos de longe. Passa por aí o essencial da experiência humana. Todos temos um coração, estômago, sonhos. Nos primeiros tempos, levantamos muros em vez de criarmos laços. Ecumenismo [diálogo e promoção da união entre confissões cristãs], de “oiko+mene”, quer dizer “casa comum”. Que belo seria que conseguíssemos viver lado a lado, na mesma casa comum.

Diferenças e semelhanças

Entre um israelita e um palestiniano [o conflito Palestina/Israel pairou sobre as intervenções de ambos], as diferenças são muito poucas. São mais as semelhanças. Nós, católicos, rezamos os salmos. Jovens judeus ficaram deslumbrados ao saberem disto. Pensavam que só tínhamos o Novo Testamento.

Aprender línguas

Temos de ter os olhos abertos para as tradições não-cristãs. Como é belo começar a falar a língua do outro e perceber o segredo da língua deles. E eles os da nossa. Descobrir línguas e culturas, ouvir, deixar falar – coisas maravilhosas. Temos de estar preparados para acolher os nossos irmãos.

Menos paróquias?

Não creio que vá haver arranjos nas paróquias [respondendo a uma questão do auditório: se a reforma administrativa vai reduzir paróquias], mesmo que haja paróquias com dez pessoas, sem crianças nem jovens. Deslocar pessoas? Não adianta. As pessoas idosas não se deslocam. Já trocámos impressões com as dioceses da Galiza. Somos nós que temos de ir ter com elas.

Mais democracia na Igreja?

O Evangelho não estabelece uma linha democrática. A Palavra de Deus é que tem de estar antes das coisas e dos homens. Não devemos dar passos autocraticamente, sem escutar os passos que Deus quer dar, sem seguir a vontade de Deus.

Jovens e ecumenismo

Os jovens vivem o ecumenismo, fazem dele a sua casa. Daqui a uns anos, o ecumenismo, em Portugal, será vivido com muito mais alegria por causa do Fórum Ecuménico Jovem [que todos os anos congrega jovens das principais confissões cristãs], que em novembro passado lançou a Carta da Esperança. Carta bela. Aguardemos porque vêm aí dias belos. Penso que já estou ultrapassado nesta história bela.