“Somos uma família para os sem família”

Os Gaiatos vão dar uma festa no Centro Cultural e de Congressos de Aveiro como forma de agradecimento à cidade, à diocese e ao distrito. Será no domingo, 19 de Setembro, às 15h. Padre Manuel Mendes, director da casa de Miranda do Corvo (perto de Coimbra), fala-nos desta iniciativa e da instituição fundada pelo Padre Américo (1887-1956). Destacado para a Obra da Rua, P.e Manuel Mendes, 48 anos, tem a particularidade de ser um “neto da Casa do Gaiato”, pois o seu pai, Júlio Mendes, cresceu na instituição, sendo durante muitos anos responsável pela tipografia. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.

CORREIO DO VOUGA – Os Gaiatos regressam a Aveiro, desta vez ao Centro Cultural e de Congressos, lembrando os grandes espectáculos do Teatro Aveirense. É um regresso feliz?

P.E MANUEL MENDES – Sempre tivemos boas referências de Aveiro, que é uma terra que acolhe bem os rapazes da Casa do Gaiato. Havia e há uma amizade muito grande com esta obra, que é uma obra da Igreja. Somos um “restinho de Israel”, uma força viva presente em Portugal e em África. Continuamos a viver sem subsídios do Estado. Vivemos do nosso trabalho e da generosidade e amizade das pessoas. Este não é um espectáculo de angariação de fundos, mas um agradecimento público à cidade, à diocese, ao distrito pela amizade que têm por nós. Há uma boa relação entre os bispos desta diocese e a obra: o D. António Francisco, que em seminarista colaborou com a casa de Paço de Sousa durante as férias, D. António Marcelino [que até nas páginas deste jornal tem defendido a Casa do Gaiato] e D. Júlio Tavares Rebimbas [bispo emérito do Porto], que me acolheu quando entrei para o seminário [sem esquecer D. Manuel de Almeida Trindade, que escreveu sobre o Padre Américo e o seu trabalho]. E recordo ainda o Doutor Loureiro, vice-reitor da Universidade de Aveiro, autor da primeira tese de doutoramento sobre a pedagogia da Obra da Rua.

O que se poderá ver neste espectáculo?

Brincadeira, teatros, músicas. Os nossos meninos não são uns “coitadinhos”. Têm os seus dons, são capazes de se mostrar em palco, sem vergonha, com alegria, dizendo que é possível ser feliz mesmo numa instituição como a nossa. Será um espectáculo de variedades. Começa com uma apresentação sobre o “Calvário”, uma vertente da nossa obra para doentes incuráveis, em Beire (Paredes), que é uma forma de se dar a conhecer este gosto da Igreja pelos frágeis e mais débeis. Sei que há uma grande predilecção em Aveiro por essa casa. Há dias, falando com um pároco, isso ficou patente.

Teremos um conto tradicional português, o “Coelhinho Branco”, dizendo que os mais pequenos são capazes de mudar o mundo, e algumas partes mais engraçadas com sketches e músicas modernas. Também participam as casas de Paço de Sousa e de Setúbal.

Como é actualmente o ambiente nas Casas do Gaiato? Há alguns anos a instituição esteve na comunicação social por maus motivos…

O ambiente é bom. Os rapazes participam na vida da casa, os colaboradores são voluntários, há o papel do pai e da mãe. O pai é o sacerdote, a mãe é a senhora Nazaré, que está lá em casa há oito anos, uma senhora livre e entregue totalmente aos miúdos. Cuida deles, veste-os e deita-os na cama, zela por eles. É evidente que não podemos ter um esquema idêntico a outros. Mas respeitamos o que os outros fazem. Ali em Coimbra, temos sentido a melhor colaboração das instituições oficiais. Respondemos aos pedidos de quem não tem mais ninguém. Ainda ontem à noite [7 de Setembro] recebi mais um pedido de uma criança. Um casal divorciado. O miúdo anda perdido. Há dias estivemos num quarto, em Lisboa, em que viviam oito pessoas. Quatro dormiam numa cama e quatro dormiam no chão. Nós somos uma obra de caridade e não de assistência. Não somos mais uma IPSS [instituição particular de solidariedade social].

Mas houve alguma instabilidade há uns anos.

Nessa altura eu era pároco, por isso prefiro não falar do assunto. Mas quem é pela verdade sofre perseguições. Vem no Evangelho. Se quisermos ser fiéis ao Evangelho, com certeza que em certos momentos temos de ir contra o sistema.

Com as autoridades, o nosso relacionamento é bom. Na sexta-feira [10 de Setembro], o ministro da Administração Interna, Rui Pereira, vai estar na nossa casa de Miranda do Corvo a entregar os 15 títulos de residência das novas crianças guineenses que acolhemos. Os processos foram regularizados com transparência total. A Segurança Social comunicou ao Tribunal de Menores e este atribuiu-nos a tutela, nos passos legais. Há uma ratificação pública no nosso trabalho. As crianças estavam legais, mas precisavam de uma autorização de residência. Fomos nós que pedimos humildemente para agilizar os processos destas crianças. E aqui devo dizer como o Padre Américo: “Quando a autoridade está com a justiça, então é verdadeira autoridade”.

Crianças que vieram da Guiné?

Não. A maior parte vem de Lisboa, de pais imigrantes. A Guiné é um país à deriva. As crianças têm pai e mãe. Mas estes não têm condições para os criar. Não são para adopção. E muitas delas têm problemas de saúde.

Quer dizer que o ideal é a criança viver numa família, sendo a Casa do Gaiato a sua família?

Depois de andar cinco anos em colónias de férias com as crianças da rua de Coimbra, acompanhado de seminaristas e de estudantes universitários, o Padre Américo criou a casa de Miranda do Corvo porque percebeu que as crianças têm necessidade de família. A Casa do Gaiato surgiu em 1940 como uma família para os sem família. Não somos uma instituição pela técnica. Mesmo sendo poucos – mas em África [Angola e Moçambique] as nossas casas estão a abarrotar – somos uma instituição que valoriza a família. Nas nossas casas há um modo de vida familiar. Temos bons colaboradores, na catequese, na música, no desporto, na área administrativa – porque é importante dar boa conta das contas –, mas somos essencialmente uma família.

Ninguém queria o João e o Diogo – que tem epilepsia. Os pais estão em processo de divórcio. O técnico social telefonou-nos porque não encontrou instituição que os recebesse. Naquela região, ninguém os queria. E nós fomos lá no próprio dia. Enquanto for necessário, estarão lá em casa.

Da vossa casa não sai ninguém para adopção?

Não. Os que chegam à nossa casa já passaram por todos os crivos. Achamos que as crianças não devem ser disputadas por ninguém. As nossas crianças vêm dos meios mais pobres, são as de piores condições, até em termos de perigos morais.

O que significa perigo moral?

Imagine o que é viverem muitos no mesmo quarto, por exemplo. Ou pais que se dão mal…

Um dos princípios da Casa do Gaiato é o da “porta aberta”. Ainda se mantém?

Esse princípio mantém-se. Porta aberta para todos os nossos amigos. Não é porta aberta para os perigos. À noite fecham-se. Temos de zelar não pela vigilância, mas pela segurança das nossas crianças. Não há grades. Porta aberta no sentido do acolhimento e da hospitalidade para os mais pobres e para as pessoas que vêm por bem, com o princípio da liberdade e da responsabilidade.

Estiveram nas páginas dos jornais, neste Verão por causa de transferência do jogador Bebé (Tiago Correia) do Vitória de Guimarães para o Manchester United…

Não posso falar sobre isso porque esse jovem esteve numa instituição que não pertence à nossa obra.

Mas falou-se várias vezes que fora da “Casa do Gaiato”.

A chamada Casa do Gaiato de Santo Antão do Tojal (Loures) desde 2007 que não nos pertence, apesar do nome que ostenta. De qualquer forma, pela experiência que tenho, o futebol costuma dar dissabores. Já no tempo do Padre Américo assim foi. Ele teve muitos dissabores porque foram buscar rapazes para os futebóis que depois morreram na desgraça.

Nesta instituição, sendo padre, é pai de uma forma muito concreta.

O sacerdote, no seu carisma, tem a missão da paternidade. Um pastor na comunidade é pai da comunidade. A paternidade não é estritamente biológica. Se se compreende o celibato, é neste radicalismo evangélico de entrega a uma família. Não é biológica, mas é efectiva [efectiva e afectiva, acrescenta o professor Paulo Sousa].

Quantos jovens vivem na casa de Miranda do Corvo?

Cerca de 40 dos 3 aos 25 anos. A nossa casa é a que tem maior população infantil devido ao filão da Guiné-Bissau. Não podemos crescer muito porque é necessário um acompanhamento muito personalizado aos miúdos. Vários deles têm problemas de saúde e deslocam-se com frequência aos hospitais. Olhe, pode pôr no jornal um elogio grande a todas as unidades de saúde de Coimbra e também às escolas, porque eles são muito bem acolhidos. O Estado de que nós gostamos é o Estado que faz bem aos nossos filhos e que programa para eles um futuro melhor.

Como é dia típico na Casa do Gaiato?

Começa às 7 da manhã. Toca a sineta. O cafezeiro ajuda a senhora a fazer o pequeno-almoço. Antes do pequeno-almoço há a bênção da mesa. Agrademos o que partilham connosco e o que conseguimos com o nosso trabalho. Os nossos miúdos estão expressamente proibidos de pedir na rua. Os miúdos servem à mesa com avental – à maneira de Jesus que, com uma toalha, lavou os pés dos apóstolos. Isto não é trabalho infantil. É serviço à comunidade desde pequenos. Depois vão para a escola. Podem almoçar na escola ou em casa. Depois do regresso, têm tempo de estudo, de lazer e a merenda, numa fila que eles próprios organizam. É um caos organizado. Às 19h30 temos o terço. Numa casa como esta, a oração não deve ser excessiva – não estamos num seminário. Deve ser comedida mas efectiva. É um importante momento de paragem. Porquê oração mariana? É a oração mais simples para quem não tem uma mãe. Vejo a pressa do João, que tem dez anos, a pegar nas contas do Rosário… Os mais pequenos são os mais fervorosos e os mais atentos. Às 20h é o jantar. Alguns fazem as tarefas de arrumar a sala, a cozinha, lavar a louça…

Há televisão?

Sim. O mínimo possível, mas sim. Os mais pequenos deitam-se entre as 21h e 21h30. A senhora dá-lhes banho e deita-os mais cedo. Os médios deitam-se pelas 22h. Os mais velhos deitam-se às 22h30. É evidente que os adolescentes tentam “esticar a corda”. Quando forem pais, também vão tentar que ela não estique.

Ao fim-de-semana regressam os estudantes de Coimbra. Temos um lar na cidade para os estudantes até ao 12.º ano. Para além do teatro e da música, o desporto é rei ao fim-de-semana. A coisa que mais pedem é uma bola de futebol, que é um bom psicólogo. Embora tenhamos um psicólogo na casa [Paulo Sousa acrescenta que no tempo de lazer há matrequilhos e ping pong, também há computadores e Internet para o estudo e, uma ou outra vez, para jogos, e uma piscina].

Vivemos numa quinta e isso é importante. As crianças e os jovens ocupam-se nas tarefas mais simples ao fim-de-semana e principalmente nas férias. É terapêutico o contacto com a natureza, que em perspectiva cristã é a Criação. O Padre Américo sempre quis tirar as crianças dos estabelecimentos de educação tradicional, em espaços fechados e com grades. Estamos num espaço aberto, em contacto com natureza.

Como vê o futuro da Casa do Gaiato?

Vejo como via o Padre Américo: “O dia mais feliz é quando as casas não forem precisas e tiverem de fechar”. Mas por enquanto somos família para os sem família. “O regresso a Nazaré é progresso social cristão”, dizia o nosso fundador. O desenvolvimento de uma sociedade só acontece quando essa sociedade valoriza a família. A família é o nosso toque. A obra continua a ser um sinal profético de que não nos podemos esquecer dos mais pobres.