Sophia ou o prazer da escrita

À procura do rosto de Cristo Estamos na segunda semana de Advento; e a Campanha que a pastoral juvenil propôs aos jovens continua esta semana com o desafio destes descobrirem a personalidade que foi Sophia de Mello Breyner Andersen.

Se o Homem é expressão de Deus, porque feito por Ele à Sua imagem e semelhança, a pessoa humana relaciona-se com o Mundo e com os outros de formas bem concretas.

E esta semana de advento somos convidados a entender a expressão literária como uma destas formas concretas de relação do Homem com Deus, com o Mundo e com os que o rodeiam.

Sophia de Mello Breyner Andersen, poeta e contista portuguesa, nasceu no Porto em 1919, no seio de uma família aristocrática, e aí viveu até aos dez anos, altura em que se mudou para Lisboa. A sua educação decorreu num ambiente católico e culturalmente privilegiado, que influenciou a sua personalidade. Frequentou o curso de Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, não tendo todavia chegado a concluí-lo.

Teve uma intervenção política empenhada, opondo-se ao regime salazarista, sendo co-fundadora da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos e também, após o 25 de Abril, como deputada. Presidiu ao Centro Nacional de Cultura e à Assembleia-geral da Associação Portuguesa de Escritores.

O ambiente da sua infância reflecte-se em imagens e ambientes presentes na sua obra, sobretudo nos livros para crianças. Os verões passados na praia da Granja e os jardins da casa da família ressurgem em evocações do mar ou de espaços de paz e amplitude. A civilização grega é igualmente uma presença recorrente nos versos de Sophia, através da sua crença profunda na união entre os deuses e a natureza, tal como outra dimensão da religiosidade, provinda da tradição bíblica e cristã.

A sua actividade literária e política pautou-se sempre pelas ideias de justiça, liberdade e integridade moral.

Aquilo que defendia e aquilo em que acreditava transparece na sua escrita.

Na sua escrita podemos encontrar a sua grande sensibilidade e atenção às coisas de Deus e às coisas do Mundo:

Como o rumor

Como o rumor do mar dentro de um búzio

O Divino sussurra no Universo

Algo emerge: primordial projecto”

(Livro Sexto,1962)

É uma mulher que dá grande valor ao silêncio e ao que dele pode surgir:

As Grutas

Caminha até encontrares uma Igreja alta e quadrada. Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível. (Livro Sexto, 1962)

É ela própria que afirma:

“…aquele que vê o espantoso esplendor do Mundo é logica-mente levado a ver o espantoso sofrimento do Mundo…E é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia. E a busca da justiça é sempre uma coordenada fundamental de toda a obra poética…” (discurso ao receber o Grande Prémio de Poesia)

Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil

Actividade

A Caixa das Palavras

Aos jovens foi proposto que, tendo como base aquilo que podemos comunicar através da expressão escrita, pudesse surgir no grupo a caixa das palavras. Nesta caixa, estão variados papéis com palavras ou pequenas expressões retirados de poemas da Sophia de Mello Breyner (por exemplo: paz, esperança, justiça, vida, verdade, liberdade, povos destruídos, pecado, peço-Te, princípio, silêncio, escuto, Deus, mar, universo, presença…). A caixa das palavras circula por todos e cada um tira um papel. Todos são convidados a escrever um pequeno texto poético (prosa ou verso) com base na palavra que lhe coube. Os textos são colocados na caixa e redistribuídos. Haverá partilha dos textos construídos por cada um.

Reflexão sobre aquilo que podemos comunicar através da expressão escrita e daquilo que os outros nos comunicam. Comunicamos aquilo em que acreditamos?

A Sophia de Mello Breyner foi alguém que comunicou aquilo em que acreditava.

O encontro de jovens poderia terminar com a leitura de um dos poemas da escritora em jeito de oração.

A paz sem vencedor e sem vencidos

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos.

Que o tempo que nos deste seja um novo

Recomeço de esperança e de justiça.

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos.

Erguei o nosso ser à transparência

Para podermos ler melhor a vida

Para entendermos vosso mandamento

Para que venha a nós o vosso reino.

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos.

Fazei Senhor que a paz seja de todos:

Dai-nos a paz que nasce da verdade

Dai-nos a paz que nasce da justiça

Dai-nos a paz chamada liberdade.

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos.