Super-remunerações, sub-justiça

Questões Sociais Coexistem hoje, como no passado, as super-remunerações e a subalternidade da justiça; coexistem, na mesma ordem de ideias, as desigualdades gritantes e a pobreza extrema. Em consequência disto, degradou-se o conceito de justiça, e pouco se faz para o reabilitar.

A subalternização e a degradação da justiça verificam-se, antes de mais, na maneira como se aceitam as super-remunerações e as desigualdades gritantes. Quase toda a gente as considera inadmissíveis, mas poucos reflec-tem sobre elas e actuam sistematicamente a favor da sua atenuação e erradicação tendencial. Abundam as expressões de indignação e os «gritos de alma», em prejuízo do trabalho racional, comprometido e organizado a favor da evolução desejável.

A subalternidade e a degradação da justiça vêm sendo agravadas pela cumplicidade na injustiça. Não é raro afirmar-se que «não há preço que pague» certos trabalhos; estes quase justificam remunerações «transcendentes». Defende-se, porventura com mais frequência, que o trabalho altamente qualificado «deve ser bem pago», deixando-se na penumbra os montantes desses pagamentos; são dez, vinte ou mais vezes o salário mínimo nacional?

A nossa cumplicidade com a injustiça vai ainda mais longe, quando entendemos que só são injustas as remunerações superiores às nossas, mesmo que estas sejam bastante elevadas. Instintivamente, quase toda a gente entende que as suas remunerações são merecidas e justas, quando elevadas, e injustas, quando baixas. Participamos assim na cadeia de injustiça e condicionamos a nossa participação na luta pela justiça à permanência, e até ao aumento, do nosso estatuto remuneratório.

Salvo honrosas excepções, o laicado cristão integra-se, com toda a naturalidade aparente, na cadeia de injustiça, e parece difícil uma orientação e um testemunho diferentes, na sua prática. Cavou-se, há muito, um fosso intransponível, por enquanto, entre cristãos «idealistas» sociais, «lutadores pela justiça», mais ou menos conotados com a esquerda e, por outro lado, os cristãos «realistas» em termos económicos, «pró-capitalistas» e mais ou menos conotados com a direita.

Uns e outros sabem que não possuem respostas para os graves problemas da injustiça social. Sabem também que precisam, uns dos outros, para desenvolverem um trabalho consistente de procura de respostas. E sabem, sobretudo, que precisam de diálogo persistente entre si e com outras entidades, para que as respostas sejam alcançadas efectivamente. Quais os impedimentos deste diálogo e desta procura?