Surpresa, coragem, lição

A Igreja e a comunidade internacional ficaram esta manhã [11 de fevereiro] suspensas daquela figura branca, que, ao longo destes últimos anos, nos habituámos a ver e ouvir orientar com firmeza e lucidez o redil de Jesus Cristo.

Bento XVI, depois de ter examinado reiteradamente a sua consciência perante Deus, considera que já não tem forças para exercer adequadamente o seu ministério petri-no, isto é, o serviço à Igreja universal, na sucessão de Pedro.

Surpresa para todos! Na verdade, o hábito secular de exercício desse ministério até à morte criara, na convicção de muitos, a ideia de que tal faria parte da Tradição Apostólica. Excecionais e raríssimas foram as circunstâncias em que tal aconteceu, na história de dois mil anos de catolicismo.

Coragem de quem tem a profundidade de inteligência e o heroísmo da humildade próprio dos santos! Superar séculos de rotina eclesial e a explicável pressão, suposta, de uma inteira comunidade católica, dispensar-se de presumíveis honrarias no termo da sua missão, reclamam uma ousadia que só pode ter-se ante a consciência da seriedade deste ato, feito em plena liberdade. E o Papa confessa que tem essa consciência. Que decide em liberdade, que confia plenamente no cuidado do Sumo Pastor, Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Seu rebanho. Afinal, reconhece que é o Espírito que guia a Igreja, pela mediação das nossas forças limitadas.

Lição de grande mestre! As rápidas transformações que sofre o nosso mundo, as questões complexas que se colocam à Igreja, as exigências de uma revitalização do impulso evangelizador, pedem que saibamos todos estar, de alma e coração, nas responsabilidades a que somos chamados, na predisposição de dar lugar a outros que possam injetar sangue novo nas veias deste Corpo eclesial.

Lição de quem reconhece que há outros modos de servir a Igreja e o Mundo e, concretamente, nesta forma discreta, silenciosa, que é o recolhimento e a oração, como raízes que se não veem, mas que alimentam e dão segurança à planta que cresce e lança múltiplos ramos.

Arcando com o peso de quem sabe que esta decisão tem de ser livre, manifestada e assumida de responsabilidade própria, já que a ninguém é pedido que a aceite, Bento XVI virou uma inédita página da história. Aprendamos com ele que a Igreja, mistério de instituição e vida divina, é visível nesta fragilidade do que nós somos. Não se confunde com a caducidade das pessoas e instituições; e sobrevive para além dos dotes de cada um, dos tempos da história, dos rostos culturais pelos quais passa sucessivamente, ao longo dos tempos e através do mundo.

Inteligente e humilde, Bento XVI marca a história da Igreja das últimas décadas com reflexões ímpares e gestos proféticos.