“Temos que dedicar mais tempo a ouvir as pessoas”

Emílio González Magaña, 57 anos, é padre jesuíta, professor de Teologia Espiritual na Universidade Gregoriana, em Roma. Mexicano, entrou para os jesuítas em 1978, depois de se ter formado em Contabilidade e de ter trabalhado seis anos para o Estado mexicano, fazendo auditorias a empresas. Foi ordenado em 1988. Fez o doutoramento em Teologia em Madrid e coordenou as seis universidades que a Companhia de Jesus tem no México ao mesmo tempo que participou num projecto latino-americano de definição do estilo de educação dos jesuítas. Desde há nove anos é professor em Roma. Esteve em Aveiro para falar ao clero nas jornadas de formação permanente.

CORREIO DO VOUGA – A proclamação do Ano Sacerdotal por Bento XVI significa que a identidade do padre está em crise, que precisa de ser discutida, aprofundada, valorizada, não só por padres, mas também por leigos?

P.E EMÍLIO MAGAÑA – Sobretudo depois do Concílio Vaticano, com o desejo de a Igreja dar aos leigos o seu lugar, houve muitos sacerdotes que entraram em crise. Efectivamente houve uma crise. Parece que estamos a sair, contudo, há em muitos sacerdotes, em muitos partes do mundo, uma falta de solidez naquilo que somos. A nossa identidade não está onde devia estar. Por vezes, o sacerdote procura noutros lados o que deveria encontrar no seu ministério. A identidade do sacerdote tem de estar sobretudo no coração de Cristo, no serviço, na entrega total do Senhor aos outros. O Ano Sacerdotal procura justamente que o sacerdote reflicta no que está chamado a ser e também no que as pessoas querem e precisam que seja. O Santo Padre insiste que temos de ser sobretudo homens de Deus, capacitados para responder aos desafios dos nossos dias, com uma alta preparação teológica, sociológica pedagógica, sim, mas acima de tudo homens de Deus, ao serviço de Deus numa igreja determinada. E por isso apresenta-nos um modelo, o Cura d’Ars, que foi um homem completamente entregue ao seu ministério sacerdotal. Foi alguém com poucas luzes intelectuais, com uma preparação sem grande brilho teológico, mas que se entregou até à morte num serviço recatado, que foi o do confessionário e da oração pelos pecadores, o da disponibilidade contínua para as pessoas. É o verdadeiro sentido de ser sacerdote hoje.

Até há pouco o Cura d’Ars era um modelo esquecido. Para um pároco de aldeia, podia ser um modelo adequado. Mas já nem há aldeias como havia… Os padres têm várias paróquias, muitos serviços. A cultura das aldeias é igual à urbana. Ainda é modelo?

Pois. Temos uma grande tentação de andar com senhores falsos. Por vezes, julgamos que o sacerdote bem preparado é o que tem muitos livros publicados, muitas conferências dadas, muitos países visitados. Pensamos que tem de ser um grande guru da teologia, da espiritualidade, da filosofia, da psicologia…. Há aí um grande erro. O sacerdote pode acreditar que é mais porque aparece mais, porque tem mais êxito, porque publicou não sei quantas histórias… O Cura d’Ars apresenta-se a todos os sacerdotes – foi nomeado o padroeiro de todos – como modelo de sacerdote simples, mas não tonto, simples, mas não ingénuo. Simples. O Cura d’Ars foi duramente criticado pelos seus próprios irmãos sacerdotes. Também isso nos faz pensar que, às vezes, em vez de criarmos fraternidade sacerdotal, atacamo-nos, somos rivais.

Um dos temas de que falou ao clero de Aveiro foi esse, o da fraternidade presbiteral. Um leigo poderia interrogar-se: “É preciso falar da fraternidade aos padres? Eles não deveriam ser os primeiros promotores da fraternidade entre eles?”

É um ponto que, de facto, devemos corrigir. Primeiro, temos de rezar muito para percebermos que somos causa de escândalo porque não somos irmãos. A fraternidade sacerdotal é algo em que temos de crescer muito. E isso passa por vários âmbitos: aprender a trabalhar em equipa; aprender a valorizar as riquezas e o carisma dos outros; aprender a ajudar e a ser ajudado. É o que nos diz S. Paulo: somos um corpo. Se eu não estou sereno, se não me aceito, invejo os carismas do outro, invejo o sacerdote que tem êxito em alguma área da pastoral, que tem êxito como confessor, professor ou pregador. Temos de apostar na fraternidade sacerdotal para pedir aos nossos irmãos leigos que vivam como irmãos.

Faz parte de uma comunidade, os jesuítas. Mas os padres diocesanos não têm comunidade. São poucos os que vivem em equipa. Isso não dificulta a fraternidade?

O padre diocesano tem algumas desvantagens em relação aos religiosos, mas insisto em algo muito simples: crer não somente com a cabeça mas com o coração de que fazem parte de um presbitério. “O presbitério da minha diocese é a minha família e a minha comunidade” – insisto muito nisto. O desafio de uma fraternidade sacerdotal diocesana é crer que é possível serem irmãos, é aprender a trabalhar juntos, aprender a criar espaços de unidade, de colaboração, de respeito, de visitas mútuas, de ajuda, de se corrigirem. É preciso aceitar as diferenças e ter a valentia e a coragem para receber e pedir ajuda quando as coisas não vão bem. A fraternidade sacerdotal ajuda a suportar os fracassos, porque o sacerdote enfrenta realmente essa possibilidade. A fraternidade sacerdotal ajuda-me a sentir o apoio dos outros. Com fraternidade, eu não sou julgado, não sou criticado, mas sou apoiado, impulsionado, corrigido. É importante sentir que alguém está comigo e me ajuda a corrigir erros. Na vida diocesana, como na vida religiosa, é um risco muito grande que não nos ajudem ou que não nos deixemos ajudar. Às vezes ficamos escandalizados com alguns irmãos, mas também somos motivo de escândalo quando não nos respeitamos, quando dizemos mal uns dos outros, quando não criamos corpo de igreja, quando criamos grupos contra o bispo… Há muitos temas para rezar, rever e corrigir. Caso contrário, não temos o direito a incentivar os nossos irmãos leigos a viver em família e em fidelidade… Para poder exigir, temos de começar por nós mesmos.

Uma das queixas que mais se ouvem da parte dos leigos é que os padres não têm tempo.

É algo que nós, padres, temos de rever. Antes, o sacerdote estava mais disponível para escutar as pessoas. Obviamente, as pessoas não iam ao psicólogo. O sacerdote, sem ser psicólogo, entendia as pessoas, escutava-as e fazia a sua missão pastoral da cura de almas, de estar com a pessoa, de cuidar da pessoa. Creio que temos de rever o tempo que dedicamos a ouvir as pessoas. Não é fácil, porque requer muita paciência, muito tempo, muito amor para escutar. Requer saber escutar. De facto, as pessoas não encontram padres com uma grande disponibilidade para ouvi-las. E nós, padres, em muitos casos, esquecemos de assumir mais o ministério da direcção espiritual e o sacramento da confissão. É urgente voltar a valorizar o sacramento da confissão e ajudar as pessoas através da direcção espiritual. Isto requer uma preparação e sobretudo a atitude de querer ouvir as pessoas.

CV – O padre tem de estar sempre a aprender a ser padre?

PADRE EMÍLIO MAGAÑA – O sacerdote de hoje tem de aprender com os 30 anos de solidão e de vida oculta de Jesus. Não sabemos praticamente nada desse tempo. O que significa? Significa aprender a servir, aprender a ser homem, no anonimato, na mais recatada solidão. Há aqui um paradoxo e o sacerdote tem de aprender isso. Enquanto o homem do nosso tempo quer subir, quer ser importante, quer ter dinheiro, que ter um nome, ser reconhecido, brilhar, Deus esconde-se. O homem quer subir e Deus esconde-se. Há aqui uma mensagem muito importante para o sacerdote: aprender a partir da encarnação. O próprio Jesus encarnou num povo pobre, esquecido, insignificante. O sacerdote de hoje tem de formar-se nisso: não aspirar ao brilho, mas a ser como Jesus. Aliás, hoje ser sacerdote já nem é motivo de orgulho para uma família, como era noutros tempos.

Poderá ser essa, também, uma razão para a crise vocacional na Europa? Ou reside na identidade do próprio sacerdote?

A crise vocacional não acontece só por causa de uma crise de identidade sacerdotal ou porque não soubemos contagiar os jovens com a nossa vocação. As famílias reduziram-se notavelmente, têm um ou dois filhos. Antes a família promovia a vocação sacerdotal. Agora não. É preciso animar a família como sítio onde se forma a vocação, ajudá-las a ser ge-nerosas, falar-lhes do sacerdócio como uma possibilidade antiga de ser feliz e fazer felizes os outros… A família é fundamental na promoção vocacional. As famílias pequenas têm de ser generosas quando um filho pensa na possibilidade de ser padre. Por outro lado, toca-nos dar outra imagem do sacerdócio. O padre dá uma imagem de tristeza, de cansaço, como se tivéssemos escolhido uma vocação se segunda. Parece que vivemos com um complexo de inferioridade em relação aos cientistas, professores ou advogados e um complexo de superioridade em relação aos leigos, aos diáconos permanentes, às mulheres. Por isso, tornamo-nos clericalistas. Temos de mudar a imagem e de saber criar comunidade com o que somos: sacerdotes simples, com problemas, com sonhos, com dificuldades, graças e qualidades. Temos de nos entregar ao Senhor nesta Igreja com o que temos e somos.

O que foi determinante na sua vocação?

A minha vida era normal. Pensava em casar-me. Estava muito apaixonado, mas sentia que havia mais alguma coisa. A minha mãe era muito crente. O meu pai, sendo crente, era muito prático. Era médico e tinha uma grande caridade. Encontrei na minha família algo que tenho agora na comunidade de jesuítas: possibilidade de explicitação da fé no culto e do culto no serviço. Tive também o exemplo de dois tios padres (um jesuíta e outro diocesano) e uma tia religiosa. Falaram-me do sacerdócio. Mas, decisivo para mim, foi querer viver intensamente. Os espanhóis têm uma expressão de que gosto muito: “vivir a tope” (viver ao máximo). Eu queria viver ao máximo, com mais liberdade para amar, para me entregar. Encontrei isso no profundo amor a um Senhor que, com o tempo, fui percebendo melhor, no amor a um Deus que me chama a dar as minhas misérias e debilidades para que outros tenham vida. Foi e continua a ser isto o fundamental.