Isabel Segadães é um dos principais rostos da defesa dos animais abandonados em Aveiro. Dirigente da associação Perdidos e Achados (www.perdidos-e-achados.info), ainda que demissionária, aceitou falar com o Correio do Vouga sobre a protecção animal, embora critique que a imprensa só se lembra da questão por altura do Dia Mundial do Animal (4 de Outubro, dia de S. Francisco de Assis). Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.
CORREIO DO VOUGA – Como está a associação Perdidos e Achados?
ISABEL SEGADÃES – Está numa letargia total, como associação. Eu própria já pedi ao presidente da assembleia, por carta, a minha demissão, por nenhum outro motivo que não o meu cansaço e por achar que a associação deve ter uma nova direcção. Entendi não me envolver demasiado na associação no que diz respeito aos aspectos formais, mas obviamente continuo o trabalho – isso farei sempre –, pela defesa dos animais abandonados.
Não é a filiação a uma determinada associação que nos garante a qualidade do nosso trabalho ou quantidade do nosso envolvimento. Não é por ter o carimbo de uma associação que continuo a fazer este trabalho 24 horas por dia 365 dias por ano.
Como é esse trabalho?
Essencialmente é ter o telemóvel ligado e começar a receber telefonemas às 9 da manhã até ao final do dia. Telefonemas que são pedidos e apelos para protecção de animais que estão na rua, que são denúncias de maus tratos, pedidos de adopções, alguns, felizmente. E pessoas que querem fazer perguntas: “Acha que devo ter um cão?”, “Que tipo de cão para o meu apartamento? Qual o perfil mais indicado?”
Aconselha essas pessoas?
Claro que sim, por dois motivos, primeiro, porque tenho alguma experiência – já lá vão 19 anos –, o que nos dá a capacidade para conhecer todo o tipo de situações, quer de acomodação, quer da saúde, reacções, treino. Por outro lado, entendi fazer formação nessa área para poder responder às solicitações que me são feitas.
Isso levou a fazer um curso…
Isto levou-me a fazer um curso de auxiliar de veterinária, que terminou em Junho deste ano, e a matricular-me no curso de enfermagem veterinária, que vou começar, se Deus quiser e eu tiver saúde, agora em Outubro. Isto tudo na sequência da necessidade que eu própria sentia de ter a capacidade de lidar com os animais, observá-los, ter conhecimentos técnicos que me permitam detectar se o animal está mal ou bem. Dou um exemplo. Na semana passada foi encontrado na Universidade de Aveiro um animal caído no chão. Vieram ter comigo a dizer-me que o animal estava a morrer. Era um cão. Graças aos conhecimentos técnicos, auscultei-o, fiz a palpação, ouvi o batimento cardíaco, observei as gengivas e outros sinais que me permitiram concluir que o animal estava óptimo. Estava era exausto. Isto permitiu-me, logo à partida, eliminar o pânico de encontrar um animal e dizer que ele está a morrer, como me acontecia antes, quando via um animal que não se levantava. Permite lidar com os animais com alguma calma e perceber o que é um animal em perigo. Levei-o a um hospital veterinário e verificou-se que o meu diagnóstico, de facto, estava correcto.
Falou-me do atendimento permanente do telemóvel. Mas o seu trabalho também é no terreno.
Também.
Quantas saídas faz por semana?
Não muitas. Uma ou duas. Costumo dizer que não sou bombeira. Não é essa minha finalidade. Muitas das chamadas que recebo são aparentemente de perigo, mas nem sempre há perigo algum.
E quando alguém lhe denuncia um caso de maus tratos, por exemplo, o que faz?
Infelizmente, não podemos fazer nada. As associações não têm qualquer poder legal para intervir no que diz respeito à protecção dos animais. O poder legal é das autoridades. Quando nos denunciam um caso, comunico-o às autoridades. E todos sabemos que nada vale. Cai em saco roto. A PSP diz que é com a Protecção Civil. A Protecção Civil diz que é com a GNR. A GNR diz que é com o SEPNA (Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente), uma brigada da GNR que lida com estes casos. Isto é o que me dizem. Mas quero deixar claro que só tenho a dizer bem da brigada da GNR. Todas as vezes que pedi uma intervenção, tive uma resposta. Mas note-se que eu faço os telefonemas, dou-lhes as moradas, mas depois estou lá no local com eles. De todas as vezes eles apareceram, nós conversamos e tentaram resolver. Mas é a única autoridade de quem tenho essa opinião. Das outras a resposta é zero.
Qual é o tipo de maus tratos mais comuns?
Deixá-los à fome e à sede. Tê-los amarrados a uma corrente que não permite movimentos. Deixá-los à chuva e ao sol. Espancá-los.
A par disso há sempre o abandono. Há números sobre o abandono de animais em Aveiro? Aumenta por causa da crise?
Eu não tenho números. Há muitas pessoas, em grupo e individualmente, a trabalhar pelos animais. Angariam fundos, recolhem animais, castram animais. Quantos mais grupos, melhor, pelo que é difícil ter dados concretos.
Mas, na sua sensibilidade, aumentam ou diminuem os casos de abandono?
Está aumentar. Mas isto não tem a ver com a crise económica, mas sim com a cultura de um povo. Em Aveiro, salvo raras e honrosas excepções, o animal ainda é tido como uma coisa que se tem amarrada lá em casa para dar sinal. Enquanto a cultura for esta… Mas também há pessoas que percebem que não é bem assim. Há muita gente a querer o seu animal e a tratá-lo como ele merece. O abandono tem vindo a aumentar porque não há uma cultura de responsabilização.
Não acontece nada a quem abandona um animal?
Em tudo o que fazemos, até a conduzir um automóvel, se não houver responsabilização, nós transgredimos. A cultura portuguesa é esta. Eu estou na estrada. Se não vir a polícia, carrego no acelerador. Atropela-se uma pessoa. Se não há ninguém a ver, foge-se. Esta é a cultura que temos também em relação aos animais. Se eu tenho um animal e não o quero, deito-o fora. Se não me penalizam, continuo a fazê-lo.
Há alguma zona da cidade onde se abandone mais?
Nas aldeias abandona-se mais. E onde houver uma feira, quando a feira acaba, ficam sempre animais abandonados. A feira de Bustos, de Oliveirinha, da Palhaça… Quando acaba a feira, ficam sempre animais.
São as pessoas que os deixam, ou são os animais à solta que vão lá parar?
Não são os animais que vão à feira. São os feirantes que levam os animais à feira.
Nessas alturas, ligam-lhe.
Nessas alturas, devia estar lá a autoridade, porque a lei dá uma coima de 500 a 3400 e tal euros a quem abandona um animal. Quem é que já pagou alguma coima?
E no tempo das férias? Diz-se que é a altura de maior abandono.
Não sei se há um pico de abandono das férias. A minha experiência diz que os motivos são outros. Ou porque o animal era pequeno e cresceu. Ou porque a cadela não foi castrada e fica prenha ou está com o cio. Ou porque nasce uma ninhada – porque as pessoas não castram os animais nem têm apoio para o fazer. As gatas e as cadelas enchem e as pessoas vão pôr à porta do vizinho uma caixa com as crias. Ou nos quintais dos outros. Ou no caixote do lixo. É diário.
As pessoas também se dirigem a si para adoptar animais?
Sim, Tenho três ou quatro casos desses por mês.
Como faz? Quais são os procedimentos?
Conto como faço eu e o grupo que trabalha comigo. Somos quatro. Outros podem fazer de outra maneira. Detectamos o animal. Só resgato o animal da rua se tiver onde o acolher. Sou contra o resgate ilimitado para espaços exíguos, sem qualidade, onde estão centenas de animais sem donos para eles. O animal só é retirado da rua por dois motivos: ou porque está em perigo de saúde, porque foi atropelado, por exemplo, ou porque tenho alguém que o acolha até à adopção. Temos famílias de acolhimento que ficam com os animais até à adopção. Têm espaço e qualidade de vida. Antes disso, o animal vai sempre à clínica para ser observado. Temos protocolo com o Hospital Veterinário de Aveiro. É desparasitado interna e externamente. Contamos também com a colaboração prestimosa do “Diário de Aveiro”, que faz o anúncio do animal. Recebo oito a dez chamadas por anúncio. Depois é feito o cuidadoso filtro para escolhermos a pessoa indicada para receber o animal. O animal nunca vai sozinho. Vamos e verificamos se o novo dono tem condições para o receber. Sou muito chata a fazer perguntas. Temos de saber se tem possibilidade económicas para lhe comprar ração, levar ao veterinário, meter o microchip, etc. Se temos a certeza de que encontrou um bom lar, é adoptado. Mesmo assim, durante dois ou três meses, eu vou visitá-lo. Quero confirmar se efectivamente está bem.
Esse processo tem bons resultados?
É o único que resulta bem.
Como estão os poderes públicos de proximidade – câmaras, juntas de freguesia – em relação à protecção dos animais?
Não estão. Conhece algum? A Câmara de Aveiro, em relação aos animais, não a conheço.
Mas há boas práticas municipais neste domínio, no país. Ou não?
Cito sempre a Câmara de Valongo. Tem a inteligência de ter um veterinário municipal, jovem, com uma cultura muito correcta em relação à protecção dos animais. Tem um canil com um bloco operatório que castra todos os animais que entram no canil. Faz campanhas de adopções. Trabalha com escolas e lares de terceira idade. Organiza visitas de estudo. Aveiro nem sequer deixa entrar no canil municipal, que são os armazéns ao pé do Hospital. Não tem condições para ter animais.
Mas fala-se da construção de um canil…
Fala-se há quase dez anos. Já falei sobre isso com Alberto Souto e com Élio Maia e a sua equipa. E já não falo com mais presidente nenhum, enquanto não houver uma cultura de cidade para proteger os animais.
De onde vem o seu amor e carinho pelos animais?
Desde nascença. A minha mãe dizia que eu era bebé e já dormia no meu berço com um cachorro. É quase genético. Isto também tem a ver com a minha ligação ao ambiente, às questões do planeta, à salvaguarda do ar puro, da beleza do planeta, à convivência pacífica e saudável entre todas as espécies.
Tem algo a ver com fé?
Penso que não. Eu não tenho fé, mas tenho muita fé em quem tem fé. Às vezes apetece-me ter fé, mas a fé é complicada para mim. Tem a ver com a organização natural do planeta.
Que animais de estimação tem em sua casa?
Tenho um cão, o Caju, o último abandonado que recolhi, e duas cadelas, a Tica, já velhota, e a Cuca, que foi abandonada na clínica. Não tenho gatos, para desgosto meu, porque os meus cães não gostam de gatos. Se entram lá gatos, temos um filme de terror.
