Poço de Jacob – 110 A nossa relação com Deus tem diferentes aspetos conforme a nossa formação, a correspondência à graça do Senhor. Os que vamos à Eucaristia, somos convidados a dar passos em frente, quer na nossa vida de oração quer na de compromisso com a comunidade paroquial.
Nunca entendi que pessoas mudem de paróquia por não gostarem do seu pároco. Os confrontos muitas vezes são inevitáveis, mas devemos florescer onde Deus nos plantou. Se não for o caso de termos sido marginalizados na comunidade, caso que também existe, os desentendimentos devem ser resolvidos pelo diálogo e pelo perdão mútuo. Vejo muita gente que descobre a sua situação na Igreja e há sempre um lugar para quem quer dar algo aos outros.
Por vezes chocamos com pessoas muito difíceis que nos querem impor as suas ideias e querem usar o serviço da Igreja para a realização de um oculto desejo de poder. Tornam então a vida difícil aos seus colegas de coro, catequistas, zeladoras das igrejas. Vi, ao longo da minha vida, tanto sofrimento causado por esses apóstolos que querem servir-se da Igreja para poderem mandar na rua o que não conseguem mandar em sua casa. Por vezes, são pessoas frustradas na sua vida familiar, profissional, afetiva… A Igreja é o refúgio para a superação de tantas frustrações que enchem este mundo.
De facto, alcançar o equilíbrio é muito difícil. Por isso, há dias, estivemos a estudar a temperatura de Deus. Como medir a temperatura da minha união com Deus? Até posso ter uma vida intensa de oração, ser padre, freira, bispo ou papa. Haverá um modo de medir a minha união com Deus? Com base na Bíblia, não é difícil considerar que o modo como eu aceito a cruz na minha vida revela se a temperatura está alta ou baixa. O modo como cumpro o meu dever também, a maneira como construo um mundo melhor, o modo de enfrentar a morte própria e alheia, lutar contra o pecado, vencer as tentações… Mas não duvido, até por experiência própria, que a maneira privilegiada de eu saber se estou quente ou frio em relação a Deus é o modo como eu cuido do meu irmão. Se me vejo intolerante com as pessoas, se elas me irritam com facilidade, se na condução do carro eu me enervo diante do que anda devagar ou faz as mesmas asneiras que qualquer um de nós faz, mesmo sendo polícia, se a murmuração, a crítica, a negatividade aumenta em relação ao próximo, então isso diz-nos que posso até rezar muito e ter imensas coisas feitas na Igreja, mas a minha relação com Deus está muito fria.
Quanto mais bem estiver com Deus, mais cheios de amor. Mais Deus, mais humanidade. Mais Deus, mais perdão. Mais Deus, mais caridade. Mais Deus, mais mão estendida para ajudar, mais tolerância, mais paciência, mais dedicação, mais obras que palavras. Rezar, por vezes, pode ser uma alienação, pois a pessoa refugia-se na crença para se esconder dos desafios da vida. Oração e apostolado e pastoral exigem compromisso de santidade. E ninguém pode amar o Deus que não vê se não amar o irmão que vê. E se tiveres de oferecer algo no altar e aí te lembrares que tens algo contra o teu irmão ou ele contra ti, deixa a oferta e vai fazer as pazes. Só depois a oferta será aceite… Não nos enganemos: Quem pensa que ama a Deus ou O serve, mas não O ama no irmão e não O serve no irmão, sem fazer aceção de pessoas, e anda na Igreja a virar as costas a metade dos seus irmãos, então está doente. A temperatura não manifesta saúde interior. E a cura exige conversão.
Vitor Espadilha
