Questões Sociais A encíclica de Bento XVI «Caritas in Veritate» assume o «terceiro sector» como o conjunto de entidades privadas sem fins lucrativos (nº. 46). Mas acrescenta que o sector privado, com fins lucrativos, também se pode orientar por objectivos não redutíveis ao lucro; este não é excluído nesse caso, evidentemente, mas surge como «instrumento para a realização de finalidades humanas e sociais», contribuindo para a «humanização do mercado e da sociedade» (nº. 46). O espírito do «terceiro sector» pode influenciar toda a sociedade ou, por outras palavras, pode encontrar-se em qualquer parte. A Profª. Sílvia Ferreira, da Universidade de Coimbra, afirma, na mesma ordem de ideias, que se observam «misturas virtuosas» entre os três sectores – público e privado, com e sem fins lucrativos (cf. o artigo publicado na edição portuguesa do «Le monde diplomatique» de Novembro último, citado no artigo anterior).
A mesma autora e Bento XVI utilizam os termos, respectivamente, «hibridação» e «hibridização» para designar estas «misturas» (nº. 38 da encíclica). Subsistem, sem dúvida, os conflitos de interesses e a exploração económica; mas, segundo a encíclica, verifica-se uma certa evolução do «sistema para uma assunção mais clara e perfeita dos deveres por parte dos sujeitos económicos» (nº. 46).
Tal evolução expressa-se, mais visivelmente, na «responsabilidade social» da empresa, apesar de nem todos os «parâmetros» dessa responsabilidade serem «aceitáveis» (nº. 40). No nº. 46, referem-se como actividades recomendáveis e já praticadas: «os pactos de ajuda aos países atrasados» e a prossecução de «objectivos de utilidade social». A encíclica vai ainda mais longe na redignificação da empresa: reconhece o mérito da sua «sustentabilidade» a longo prazo» e, com Paulo II, afirma o «significado moral» do investimento (nº. 40).
Na base da dignidade da empresa, encontra-se o «espírito empresarial». Este, «antes de ter significado profissional, possui um significado humano; está inscrito em cada trabalho como «actus personae (…)» (nº. 41). Não pode ser dissociado das «motivações metaeconómicas», que transcendem a economia, no sentido mais corrente do termo, e conferem um «significado polivalente» ao espírito «empresarial» (nº. 41). Em suma: existem realidades «metaeconómicas» que transcendem a economia e que podem ser vividas no sector público e no privado, com e sem fins lucrativos; por aqui passa a superação do sistema capitalista explorador e o encontro da economia de «mercado mais humano (…)» (nº. 46).
