Teresa de Calcutá: luz desde a escuridão

O Pe. Brian Kolodiejchuk, postulador da causa de canonização de Madre Teresa de Calcutá, é o autor do livro “Come Be My Light”, que recolhe os escritos da beata, em parte inéditos, revelando o sofrimento de não experimentar o amor de Deus. Em entrevista à Agência Zenit (Roma), o autor fala desta “noite escura”, que tanta polémica tem gerado.

Durante os anos 50 do século passado, Madre Teresa rendeu-se e aceitou a escuridão. O padre Joseph Neuner [um dos directores espirituais] ajudou-a a compreender isso, relacionando a escuridão com o seu carisma: saciar a sede de Deus.

Ela costumava dizer que a maior pobreza era não se sentir amado, solicitado, cuidado por ninguém, e era exactamente o que ela estava a viver na sua relação com Jesus. O seu sofrimento redentor era parte da vivência do seu carisma ao serviço dos mais pobres entre os pobres.

De maneira que, para ela, o sofrimento era não só um meio para identificar-se com a pobreza física e material, mas, no âmbito interior, identificava-se com os não amados, com os que estão sozinhos, com os que são rejeitados.

Renunciou à sua própria luz interior para iluminar os que viviam na escuridão, dizendo: “Sei que não são mais que sentimentos”.

Numa carta a Jesus, escreveu: “Jesus, ouve minha oração, se isso te agrada. Se minha dor e sofrimento, minha escuridão e separação te dá uma gota de consolação, faz comigo o que queiras, todo o tempo que desejes. Não olhes aos meus sentimentos nem à minha dor”.

“Sou tua. Imprime em minha alma e vida os sofrimentos do teu coração. Não olhes aos meus sentimentos, não olhes nem sequer à minha dor”.

“Se a minha separação de ti permite que outros se aproximem de ti e tu encontras alegria e deleite no seu amor e companhia, quero de todo coração sofrer o que sofro, não só agora, mas pela eternidade, se for possível”.

Numa carta às suas Irmãs, torna mais explícito o carisma da Ordem: “Minhas queridas filhas, sem sofrimento, nosso trabalho seria somente trabalho social, muito bom e útil, mas não seria obra de Jesus Cristo, não participaria da redenção. Jesus desejava ajudar-nos partilhando a nossa vida, nossa solidão, nossa agonia e morte. Tudo isso ele assumiu em si mesmo e levou-o à noite mais escura. Somente sendo um de nós podia redimir-nos”.

“A nós, permite-nos fazer o mesmo: toda a desolação dos pobres, não apenas a sua pobreza material, mas também a sua profunda miséria espiritual, deve ser redimida e compartilhada. Orai, então, assim quando isso se torne difícil: «Quero viver neste mundo que está longe de Deus, que se distanciou da luz de Jesus, para ajudá-lo, para carregar uma parte do seu sofrimento»”.

E isso resume o que considero o fundamento da sua missão: “Se um dia chegar a ser santa, seguramente serei uma santa da ‘escuridão’. Continuarei ausente do Céu para dar luz aos que estão na escuridão na terra…”

Assim compreendeu a sua escuridão. Muitas das coisas que disse têm mais sentido e acabam por ser mais profundas agora que sabemos isso.

Então, o que dizer a quem qualifica a sua experiência como uma crise de fé e que ela realmente não acreditava em Deus, ou a quem sugere que a sua escuridão era um sinal de instabilidade psicológica?

Ela não teve crises de fé, ou falta de fé, mas teve uma prova de fé na qual experimentou o sentimento de que ela não acreditava em Deus. Esta prova requereu muita maturidade humana, porque, se não, não teria sido capaz de suportá-la. Teria ficado desequilibrada.

Como disse o padre Garrigou-Lagrange, é possível experimentar simultaneamente sentimentos contraditórios entre si. É possível ter uma “alegria cristã objetiva”, como a chamou Carol Zaleski, e ao mesmo tempo entrar na prova ou sentimento de não ter fé.

Não há duas pessoas aqui, mas uma pessoa com sentimentos em diferentes níveis.

Podemos realmente estar a viver a cruz de algum modo – é dolorosa e faz doer – e, ainda que a espiritualizemos, isto não tira a dor. Agora, ao mesmo tempo, podemos estar alegres porque estamos a viver com Jesus e isto não é falso.

Aqui está o como e o porquê a Madre Teresa viveu uma vida tão cheia de alegria.

Como postulador de sua causa de canonização, quando julga que poderemos chamá-la santa?

Precisamos de outro milagre – examinamos alguns, mas nenhum é suficientemente claro. Houve um para a beatificação, mas estamos à espera do segundo.

Talvez Deus tenha esperado que se publicasse antes o livro, pois muitos tinham a Madre Teresa por santa, mas era tão simples e se expressava de uma maneira tão simples que não compreendiam a profundidade da sua santidade.

No outro dia, escutei dois sacerdotes falarem sobre isso. Um dizia que nunca tinha sido muito fã da madre Teresa, porque pensava que era piedosa, devota, e que fez obras admiráveis, mas que quando ouviu falar da sua vida interior, isso mudou o que pensava dela.

Agora temos algo mais que uma mera ideia da sua evolução espiritual e uma parte da sua profundidade foi revelada.

Assim que chegar o milagre, demoraremos pelo menos dois anos, ainda que o Papa possa acelerar o processo, se desejar.

O que aconteceu com a Ordem [Missionárias da Caridade] desde a morte da Madre Teresa?

A Ordem cresceu quase em mil irmãs, passou de 3850 para a 4800, hoje, e acrescentamos cerca de 150 casas em mais de 14 países. A obra de Deus continua.