Questões Sociais Com alguma sobranceria inquisitorial, muita gente se considera vítima da crise actual, e defende que os seus responsáveis sejam «punidos exemplarmente». Em contrapartida, não se encontra difundida a prática do «exame de consciência» pessoal e colectivo, nem se procuram caminhos verdadeiramente novos. Talvez seja legítima a seguinte pergunta: aquilo que os «grandes responsáveis pela crise» fizeram não será aquilo que nós faríamos se estivéssemos nos seus lugares? As grandes desigualdades que contestamos não serão uma projecção extrema das desigualdades de que beneficiam alguns de nós?
Há quem ganhe, com toda a naturalidade, dez e mais vezes o montante do «salário mínimo nacional». Há quem ache normal que algumas remunerações no sector público sejam muito superiores à do Presidente da República. Há quem defenda que os deputados e outros políticos deveriam auferir remunerações superiores, para motivação dos «melhores» candidatos. Muitos de nós procedemos como se as verbas multimilionárias pagas pela transferência de craques do desporto não fizessem parte do sistema gerador da crise actual; há quem adimita que elas são uma justo reconhecimento de mérito extraordinário. Com toda a naturalidade, compramos bens diversos produzidos em regime de escravatura, considerada ou não como tal. Com a mesma naturalidade, aproveitamos os baixos preços que resultam do esmagamento comercial da produção agrícola e industrial…
Defendemos, com toda a razão, que a superação da crise implica uma «ética absolutamente vinculante» (Cf. a encíclica de João Paulo II, «A Solicitude Social da Igreja», 1987, nº. 38); contudo, por via de regra, entendemos que esta exigência se destina aos outros. Sobretudo, não assumimos que o sistema económico e os demais sistemas de vida se encontram minados por «mecanismos perversos» e «estruturas de pecado», em que somos parte activa (cf. ibidem, nºs. 35-37); tais mecanismos e estruturas têm uma existência objectiva, fora de nós, mas não se dissociam da nossa responsabilidade pessoal. Torna-se indispensável, por isso, uma interacção permanente das pessoas e a dos sistemas (ibidem, nºs. 38-40). Enquanto não nos comprometermos nesta dupla transformação, agravamos a nossa co-responsabilidade pela crise.
Não conseguimos evitar a crise, para cujo risco nos alertava a encíclica acima referida (nº. 47). Saibamos evitar «uma guerra tremenda, sem fronteiras, sem vencedores nem vencidos», também aí objecto de alerta.
