Trabalhador-empresário

Questões Sociais No mundo laboral, o trabalhador-empresário é, porventura, o agente principal, o maioritário e o mais menosprezado. Em termos de luta de classes, «não é peixe nem carne». O trabalhador-empresário mais típico é o trabalhador por conta de outrem, que também trabalha por conta própria na agricultura, no comércio, no artesanato ou noutras atividades. Mas também se incluem aqui várias outras situações, como por exemplo: o empresário que trabalha, em pé de igualdade, com os respetivos trabalhadores; o trabalhador por conta de outrem que procede como se trabalhasse por conta própria; o empresário que, devido às dificuldades da sua empresa, admite vir a trabalhar por conta de outrem; os trabalhadores empregados ou desempregados e os empresários sem atividade que aspiram à criação de suas atividades.

Três características são bem notórias no trabalhador-empresário: ele sabe que, para ganhar dinheiro, é necessário produzir; ele não procura emprego mas sim trabalhar; e sente a empresa como sua, mesmo que não seja seu proprietário. O trabalhador-empresário é um esteio fundamental da economia e da sociedade, como é bem visível em todo o país, e constitui um agente determinante na resistência à crise; dentro dele existe uma força anímica permanente a favor do trabalho, da iniciativa e da justiça.

O trabalhador-empresário tem consciência de que existem interesses divergentes, mas coloca a convergência acima da divergência; e, quando esta parece invencível, procura alternativas de convergência, dentro ou fora da empresa onde trabalha. Ele sabe que a dimensão empresarial está dentro de si.

A figura do trabalhador-empresário não implica a criação de um tipo de associativismo diferente daqueles que já existem: sindicalismo, associativismo empresarial, associativismo de artesãos, cooperativismo… Mas também nada a impede, e tudo aconselha a que, em todas as modalidades de associativismo, nunca se perca de vista que: a empresa é um bem comum ao empresário e ao trabalhador; um e outro são corresponsáveis por esse bem comum, embora de maneira diferente; a luta de classes, levada ao extremo, pode configurar-se como extremismo leviano e suicida, quando se perdem as coordenadas da corresponsabilidade. Uma releitura atenta da encíclica de João Paulo II «Laborem Exercens» parece altamente recomendável na atual conjuntura.