Trabalho e estudo – uma nova oportunidade

Questões Sociais Desde pelo menos o século XVIII vem sendo chamada a atenção para a dicotomia entre o estudo e o trabalho. A dicotomia traduz-se em afirmações correntes como estas: quem não tem capacidade para o estudo tem de trabalhar; nem todos os estudantes podem chegar a doutores ou engenheiros… Nestas expressões, é patente a suposição da superioridade do estudo em relação ao trabalho. Mas, por outro lado, também as pessoas do trabalho se colocam em posição de sobranceria perante as de estudo, considerando-as menos capazes de adaptação às exigências realistas da vida corrente.

Ao longo dos séculos, as universidades funcionaram como sugadoiros de recursos humanos locais, transferindo-os para os grandes centros urbanos ou para posições cimeiras em qualquer outra localidade. Em conformidade com isso, até aos anos oitenta do século passado, os diplomados do ensino superior e do ensino secundário tinham acesso quase garantido a empregos compatíveis com as suas habilitações académicas. Porém, nas últimas décadas, a situação parece estar a inverter-se; com efeito, é bastante elevado o número de diplomados sem emprego ou com emprego não adequado às suas qualificações e aspirações.

Esta realidade constitui um grave problema, evidentemente, e ao mesmo tempo uma oportunidade considerável, reforçada por dois outros graves problemas, a saber: a insuficiência da iniciativa económica e a baixa produtividade de muitas empresas que, por sua vez, se reflecte nos baixos salários.Tal oportunidade implica três grandes objectivos: a ligação entre o estudo e o trabalho; o reconhecimento e a promoção das pequenas iniciativas económicas; e a qualificação da generalidade dessas iniciativas e dos seus empresários e outros trabalhadores.

A ligação entre o estudo e o trabalho pode ser assegurada através, por exemplo, de: visitas de alunos a empresas e a outras entidades empregadoras; a inclusão, no ensino escolar, de matérias relativas ao tecido económico e social local; a participação de empresários e de outros trabalhadores na vida escolar… O reconhecimento e a promoção de pequenas pequenas iniciativas económicas poderiam ser activados através de processos de desenvolvimento local, em que participassem as escolas, procurando criar hipóteses de emprego para os diplomados. E a qualificação das empresas, dos empresários e de outros trabalhadores poderia efectuar-se através de cursos ou acções de formação e da procura de soluções para os diferentes problemas com que se defrontam. No caso de estas orientações serem adoptadas, os diplomados passariam a inserir-se nos processos de desenvolvimento das localidades em que vivem e estudam, em vez de se orientarem para estatutos de superioridade aleatórios e alienados da realidade local. Na verdade, a inexistência de oportunidades de emprego gratificante é uma oportunidade excelente para se tornarem gratificantes as que existem e para se criarem outras.