UA acolheu Seminário “Arquitectura de Terra em Portugal”

Departamento de Engenharia Civil activo no sector A construção em terra, nomeadamente em adobe, esteve em debate no 5º Seminário “Arquitectura de Terra em Portugal”, que decorreu na Universidade de Aveiro (UA), numa organização conjunta da UA, da Escola Superior Gallaecia, da Fundação Convento da Orada e da Associação Centro da Terra, e que juntou cerca de uma centena e meia de participantes, oriundos de vários países da Europa, da América Latina, da África e da Ásia.

Para Humberto Varum, do Departamento de Engenharia Civil da Universidade de Aveiro e membro das comissões organizadora e executiva do evento, o interesse por esse tema “surge pelo facto de que aqui em Aveiro há muita construção em terra, em especial em adobe, muita da qual é património histórico. Em Aveiro, a construção em adobe apurou-se bastante, tendo até chegado a haver uma produção de adobe semi-industrial. A qualidade do adobe produzido em Aveiro é muito boa, as técnicas de construção com adobe também foram sendo apuradas ao longo dos tempos”.

No entanto, com o aparecimento do cimento e do aço, e já antes disso, com o surgimento da construção com material cerâmico e a alvenaria estrutural, o adobe perdeu peso na construção e praticamente deixou de ser utilizado.

No Departamento de Engenharia Civil da Universidade de Aveiro, trabalha-se muito na área da reabilitação de estruturas e das construções, pelo que, como diz Humberto Varum, “havendo em Aveiro tanta construção em adobe, havia necessidade de que alguém aqui se dedicasse ao estudo concreto dessas construções e da sua reabilitação. Daí o nosso interesse, interesse que surgiu concretamente despoletado por uma acção de intervenção num edifício histórico de Aveiro. Nós trabalhamos nesta área há quatro anos, temos desenvolvido muitos projectos de investigação nesta área, temos também envolvido muitos alunos de pós-graduação, de mestrado e de doutoramento nesta área. Temos um trabalho iniciado, e o resultado desse trabalho fez com que o Centro da Terra, a Fundação Convento da Orada e a Escola Superior Gallaecia nos convidassem a organizar em parceria este evento”.

Em Aveiro há “alguma construção de interesse patrimonial importante e relevante que se mantém de pé nos dias de hoje, construções com dois ou três pisos, outras de um só piso mas com uma volumetria importante, com cargas associadas importantes. Há um caso muito concreto de um silo, que tem cargas muito elevadas, aqui no concelho de Aveiro, cuja estrutura principal é toda ela em adobe. Essa ideia de que o adobe é um material pobre, que se utilizou mais nas regiões suburbanas e nos meios rurais, é totalmente falsa”.

Como ficou demonstrado neste seminário, neste momento, em Portugal, há já arquitectos a projectar obras em terra, há engenheiros a projectar e a construir em terra, pelo que o mais importante é, no dizer de Humberto Varum, “romper alguns tabus em relação ao adobe e às suas soluções construtivas”, após o que é preciso fazer com que “as primeiras construções novas que se venham a fazer em terra saiam do empirismo e da construção do método de tentativa e erro, e que os construtores, os donos de obra, os arquitectos e os engenheiros que optem por este tipo de construção, se associem às universidades, procurando nelas o saber e a capacidade técnica para avaliar deficiências mecânicas, para avaliar comportamentos de uma forma mais vigorosa. Tudo passa por transferir para a construção em terra o conhecimento, as tecnologias e as metodologias que são utilizadas correntemente em outros materiais”.

Entre as vantagens da construção em terra, Humberto Varum aponta o comportamento térmico, que nas construções em terra é “nitidamente melhor”. “Em muitas situações, duas construções equivalentes, com a mesma exposição, a mesma percentagem de aberturas, com a mesma orientação solar, a construção em terra pode ter menos perdas e ter um comportamento térmico muito melhor que uma construção equivalente em outro material”, reafirma. A par disso, se a construção em terra se generalizar, se o adobe começar a ser construído de uma forma mais industrial, este investigador da UA não tem dúvidas de que “o custo final de uma construção em terra seria muito inferior a uma congénere feita com outro material”.

A isso Humberto Varum junta ainda outras vantagens, como o facto de que “sendo a terra um material disponível em toda a parte, é possível utilizá-la como material de construção, diminuindo os impactos ambientais”. A par disso, “a terra é um material que permite fazer uma construção, permite gastar um material natural, mas quando essa construção chega ao fim da sua vida, esse material volta às suas origens, volta à terra, dilui-se na própria terra. Uma construção em terra devoluta, quando se começa a degradar, ela própria se intercepta com o solo, solo esse que deu origem à sua estrutura”, conclui este co-organizador do evento “Arquitectura de Terra em Portugal”.

C.F.