Entre Sever do Vouga e Castro Daire poderá voltar a haver pequenos cervídeos. Lobos e população agradecem.
A reintrodução do corço, cervídeo mais pequeno e esquivo que o veado, nas serras de Montemuro, Freita e Arada, está a ser estudada pela Universidade de Aveiro (UA), mais propriamente pelo grupo de investigação liderado por Carlos Fonseca, professor do Departamento de Biologia/CESAM, ao abrigo de um contrato de um ano entre a UA e a Associação de Conservação do Habitat do Lobo-Ibérico (ACHLI).
O estudo visa apontar orientações para reintroduzir o corço nestas serras, que se estendem de Sever do Vouga e Arouca até S. Pedro do Sul e Castro Daire, e recuperar uma das vertentes do habitat do lobo-ibérico, classificado como “em perigo” no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal.
Como o corço é uma presa natural do lobo-ibérico, a estratégia de conservação deste predador concebida pelo Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade (ICNB) aponta para a reintrodução do corso que, tanto na fase juvenil como na fase adulta, serve de alimento ao lobo, medida que contribuirá para a redução dos ataques ao gado por parte deste predador de topo. Vários estudos têm demonstrado que em zonas onde existem presas naturais em número suficiente, como corço, veado e javali, há uma redução significativa de ataques de lobo a rebanhos.
A Associação de Conservação do Habitat do Lobo-Ibérico (ACHLI) congrega esforços dos promotores eólicos naquela área, como resposta à necessidade legal de investir em medidas de conservação da natureza para compensação da instalação dos parques eólicos. A ACHLI já tem em curso quatro projectos com o objectivo de conservação da população de lobo-ibérico, em declínio a Sul do Douro e muito fragmentada principalmente pelas auto-estradas.
Processo complicado e moroso
A reintrodução de qualquer espécie em zonas onde se extinguiu, e particularmente de uma espécie como o corço, é um processo complexo, delicado, moroso e que implicará um conjunto articulado de medidas de curto, médio e longo prazo, salienta o investigador Carlos Fonseca, coordenador do bem-sucedido projecto de reintrodução do veado e do corço na Serra da Lousã.
O investigador enumera três fases fundamentais neste processo e refere alguns critérios subjacentes. Desde logo, a escolha dos locais onde vai decorrer a reintrodução do corço terá de ter em conta aspectos como o acesso a alimento, a necessária tranquilidade do animal e possibilidade de refúgio. Numa segunda fase, será necessário seleccionar os animais a reintroduzir que, na opinião de Carlos Fonseca, deve ser feita com animais trazidos da população existente na zona de Montesinho e Gerês e Galiza que mantém alguma integridade genética há muitas gerações. Esta preocupação ajudará a prevenir problemas de adaptação e de sanidade nos animais. Numa terceira, fase será feita a monitorização e acompanhamento da população reintroduzida para tirar conclusões sobre o sucesso da operação e da adaptação dos animais reintroduzidos.
C.F.
