Poço de Jacob – 104 “Ao ouvir-te, pergunto a mim mesma se não O terás encontrado fisicamente”. Esta frase está no livro “O Preço a Pagar”, de que falamos no artigo anterior, neste jornal. Quem a pronuncia é a esposa recém-convertida de Joseph Fadelle, o muçulmano convertido a Cristo, o Pão da Vida. Ele, por seu turno, diz que “ninguém se torna cristão num tapete de rosas”. E isto: “A ânsia de comungar o Pão da Vida é de tal modo aguda que estou pronto a tudo para lá chegar…”
Em Fátima, sou adorador uma noite por mês, das 4h até às 6h da manhã. Faço como padre unido ao meu presbitério e ao meu bispo, como reparador e como pároco de duas paróquias. Uma hora por cada. Essa noite é o mais belo que vivo em cada mês. Não há palavras para expressar o que se vive ali, com Ele a sós!
Quando chego, substituo uma senhora de Coruche. Há 15 anos ou mais que ela sai de Coruche para começar a adoração das duas horas da manhã até às 4h. Depois, regressa a Coruche. Quase 90 km… Com o seu marido, que a espera, depois de rezar um pouco, pacientemente, no carro. Todos os meses sem falhar. Quando a vejo, ela está radiante. Não dormiu, mas parece como se tivesse despertado do mais belo dos sonos e tivesse tido o mais belo dos sonhos….
Pensamos que somos uns sortudos. Deus chamou-nos para estarmos ali, naquele lugar onde o mundo inteiro gostaria de estar, em audiência privada e a sós, como será no dia da nossa morte, com o Rei dos Reis. Ninguém nos incomoda. As palavras ali escasseiam. Não apetece dizer. Só estar… Ouvindo Deus no silêncio gritante da noite, ora fria no inverno, ora fria no quente no verão. E de repente, vemos, desolados, que já passaram as duas horas…
Se infelizmente o mundo não descobriu esse tesouro, por outro lado, até ficamos felizes por não partilhar esse espaço com mais ninguém, como se Ele fosse todo para nós, embora, pela nossa mente passem todas as pessoas e situações que nos são confiadas pela vida. Adorar assim o Senhor, ainda que sintamos que o nosso progresso é muito lento por causa do peso dos nossos pecados, é sem dúvida a mais bela forma de apostolado, que só Ele, o Senhor do Cosmos e da Igreja, vê e abençoa cem por um.
Por isso, pensei fazer um apelo ao nosso bispo, tão aberto à Igreja do Espírito Santo: que, na cidade de Aveiro, assim como existem os nossos escritórios de apostolado e pastoral, agora bem centralizados – e muito bem –, também se arranje um sítio, uma loja alugada ou comprada, ali naquela zona da Câmara Eclesiástica, para que se promova a adoração perpétua do SS.mo Sacramento, com um serviço regular de atendimento ao nosso povo, quer em confissões quer em direção espiritual, na arte de simplesmente acolher. Permitiria que as pessoas mostrem o quanto amam Jesus também por esta forma de apostolado. Há cristãos, leigos, religiosas e padres, que têm essa veia de carisma em si e só precisam de uma oportunidade para o desenvolver. Há sacerdotes que se oferecem para esse serviço do acolher, que pode ser diário ou semanal.
Seria assim possível adorar dia e noite o Senhor pelas necessidades desta Diocese, como retaguarda dos que tanto trabalham na pastoral, unidos ao nosso Carmelo, que é comunidade contemplativa da Diocese.
Tenho a certeza de que ficaremos admirados… com os frutos… e estaremos a proporcionar a muitas pessoas da Diocese os momentos que acabamos de sublinhar. E, então, sim. Com o Pão da Vida que se recebe na Comunhão eucarística e na Palavra, que se adora, poderemos dar eficaz testemunho de Cristo, ao ponto de a nossa gente nos dizer como a esposa de Fadelle: “Parece que O encontrastes fisicamente!”
Vitor Espadilha
