Entrevista a Manuel Pinho Ferreira no centenário de D. António Ferreira Gomes Completam-se hoje 100 anos sobre o nascimento de D. António Ferreira Gomes, o bispo do Porto que Salazar obrigou ao exílio. Na origem do episódio, esteve um documento com assuntos a abordar num encontro que nunca veio a acontecer. Esse Pró-Memória (ou simplesmente “Carta a Salazar”), datado de 13 de Julho 1958, surgiu um mês após as eleições fraudulentas que derrotaram Humberto Delgado (8 de Junho de 1958).
Sobre estes acontecimentos, o Correio do Vouga entrevistou o padre Manuel de Pinho Ferreira, em plena preparação de uma conferência no Congresso sobre D. António Ferreira Gomes, que por estes dias decorre no Porto. Pinho Ferreira é autor da tese de doutoramento “A Igreja e o Estado Novo na Obra de D. António Ferreira Gomes”, fundamental para compreender a vida o pensamento do bispo que incomodou o Estado Novo. J.P.F.
Qual o conteúdo da carta enviada a Salazar?
O conteúdo da carta é uma análise muito detalhada dos grandes problemas que afligiam a sociedade portuguesa nesse tempo.
Em que circunstâncias surgiu?
Tinham ocorrido as eleições de 8 de Junho de 1958, em que concorreu Humberto Delgado, e havia todo um conjunto de queixas de que Humberto Delgado tinha vencido as eleições. Mas, oficialmente, não foi considerada essa vitória, porque a Legião portuguesa encarregou-se de invadir várias secções de voto, principalmente na margem sul do Tejo, onde Humberto Delgado tinha ganho por uma expressão muito grande e mesmo até no distrito do Porto.
Ora, uns dias antes da eleição, soube-se que D. António Ferreira Gomes não iria votar por estar em Barcelona, onde ia fazer uma conferência no congresso dos empresários católicos.
Foi então ao Paço do Porto a Sr.a Lívia Nosolini [esposa de José Nosolini, deputado e militante católico, que Salazar conhecera no Centro Académico da Democracia Cristã, em Coimbra], acompanhada por um grupo de católicos do Porto, que insistiram que era importante que o bispo votasse, para exemplo das outras pessoas, porque sabiam que o bispo era um pouco avançado no seu pensamento social. Ele disse que não, que até se tinha ausentado em outras eleições. Ausentava-se propositadamente, porque não concordava com certos problemas a que o governo não dava solução. A senhora sugeriu então que ele tivesse uma conversa séria com Salazar. Mas ele, que acabou por votar, considerava que não ia adiantar nada, argumentando que há meses Salazar recebera o bispo da Beira (Moçambique), D. Sebastião Soares de Resende, e deixara-o falar, falar, falar, falar, sem dizer nada. No fim, limitara-se a dizer: “Se faz favor, vá-se embora que eu já o ouvi”. “Portanto – concluíu o bispo do Porto – , seria inútil eu ir lá”.
Mas ela telefonou ao Presidente do Conselho e ele disse que sim, que o receberia com todo o gosto. Decidiu então redigir esse Pró-Memória, quando Humberto Delgado contestava que tinha vencido as eleições.
Que assuntos eram abordados no Pró-Memória?
Era uma espécie de memorial, de rascunho, dos problemas de que queria falar com Salazar. Um dos assuntos era o corporativismo. D. António não podia conceber o cor-porativismo. Segundo a doutrina que ele conhecia muito bem, o corporativismo de Estado não era um verdadeiro direito de associação. É uma estrutura do Estado. Para ele, o ideal era o sindicalismo livre.
Depois, havia a questão dos partidos. Não concordava com esta organização política de haver apenas o partido único, que era a União Nacional. Outro dos assuntos era a questão da greve. Ele sabia que a doutrina da Igreja reconhece a greve como direito dos trabalhadores, desde que seja como última instância, se ponha de parte a violência, e que
o bem público não venha a sofrer um grande prejuízo com a paralisação do trabalho. D. António conhecia muito bem a doutrina da Igreja e não concordava de forma nenhuma com a proibição absoluta da greve, considerada um crime. E ele dizia que tinha muita pena, porque os comunistas, ao aceitarem a greve, estavam com a Igreja, enquanto o Estado Novo, que tantas vezes se cobria com a doutrina da Igreja, realmente não aceitava um direito dos trabalhadores, reconhecido pela Igreja. Outra questão era a participação dos católicos na política. D. António não podia conceber que a Igreja pudesse permitir que os seus filhos fossem pessoas diminuídas ao não se lhes reconhecer um direito de participação política. O bispo fazia uma série de perguntas, como se ele tinha alguma coisa a opor a que os católicos se reunissem para discutir problemas político-sociais, que quisessem publicar os seus discursos sobre isso e que resolvessem concorrer às eleições, não como partido, mas como associação cívica… Outros problemas ali apareciam, como a miséria congénita do povo português: o subdesenvolvimento crasso em relação às outras nações europeias. Ele conhecia bastante bem a Europa. Dizia que não andava de olhos fechados e que via que, no povo português, ainda predominava o farrapão, o faminto, o pé descalço…
O encontro nunca chegou a acontecer…
Não houve encontro, porque pouco depois a carta começou a ser divulgada. Corria em cópias nas mãos do grande público.
Quem é que divulgou essa carta?
Ainda hoje é um mistério. D. António, um dia, veio aqui [Seminário de Aveiro] falar com D. Domingos da Apresentação Fernandes [Bispo de Aveiro]. Veio de noite, para não se dar conta da vinda dele. O Pe João Paulo Ramos [então secretário do Bispo de Aveiro] ficou de plantão a recebê-lo. D. Domingos ficou com uma cópia da carta e deu-a ler ao dr. Francisco do Vale Guimarães [antigo governador civil de Aveiro]. Este tê-la-á dado ao seu motorista para fazer uma cópia. O D. António esteve sempre persuadido de que essa foi uma das fontes de divulgação.
Outra possibilidade de divulgação terá passado por Bragança. O ministro do Interior, que era de Trás-Os-Montes, terá mostrado a carta a um cunhado, ou este a terá tirado da sua pasta. A verdade é que o D. António queixou-se que foi uma traição essa divulgação.
A Carta precipitou uma série de acontecimentos…
Houve um imenso falatório a propósito da carta. O próprio Avante (jornal do Partido Comunista) a saudou como uma sinal de que os próprios católicos começavam a contestar o regime. No dia 18 de Setembro, Salazar manda um ofício ao Núncio, em que põe o problema: ou a Santa Sé resolve o problema do bispo do Porto, ou então romperá o cumprimento da Concordata. Pôs a Santa Sé entre a espada e a parede. O Núncio ficou muito atrapalhado. Ele estava em Roma, mas recebeu a carta e outros documentos por mala diplomática. Levou à Secretaria de Estado; e esta respondeu passados uns tempos, não vendo grande gravidade no problema.
Entretanto, na coroação de João XXIII, D. António esteve em Roma e quis oferecer à Santa Sé o governo da diocese do Porto. A Santa Sé não aceitou. Ora, as pressões de Vasco Vieira da Cunha, ministro de Salazar, sobre a Santa Sé continuaram e o Presidente do Conselho fez saber que, se o Bispo do Porto saísse do país, não voltava a entrar – o que veio de facto acontecer, a pretexto de umas férias, sugeridas pelo administrador apostólico do Porto, D. José da Costa Nunes, amigo de Salazar.
D. António, que nessa altura estava na Espanha, andou a ser procurado; e na Nunciatura de Madrid dizem-lhe que ele não pode entrar em Portugal.
Como reagiu o Bispo do Porto?
D. António aceitou; mas no primeiro domingo de Outubro de 1959 apresentou-se na fronteira. Não era para entrar, porque ele sabia que não entrava. Mas é que Salazar dizia a toda a gente que não tinha nada a ver com o assunto. Ele apresentou-se na fronteira de Valença para desmascarar Salazar. Como ele dizia, “a mão do tirano mostrou-se”. Ali, toda a gente veio a saber que era Salazar que não o deixava entrar.
Havia antecedentes nas críticas do Bispo do Porto?
Na conferência dos bispos portugueses, que decorreu no Seminário dos Olivais [Lisboa] em 1955, e já antes, D. António insistiu numa pastoral colectiva sobre a condição dos trabalhadores. Os trabalhadores estavam numa situação deplorável; e quem lucrava com isto era o Partido Comunista. O D. António insistiu que era necessário publicar algo. Os bispos acabaram por concordar e entregaram a D. António a responsabilidade de redigir o projecto dessa pastoral colectiva. No dia 5 de Janeiro de 1955, D. António apresentou à CEP o projecto. Esse projecto não era mais do que um conjunto de citações de Doutrina Social da Igreja, que iriam servir para redigir essa pastoral. D. António coligiu essas fontes, para que depois os bispos tivessem a máxima liberdade para redigir conforme entendessem. Ele apresentou aquilo; e alguns bispos começaram a contestar, que era um assunto delicado, principalmente o arcebispo de Évora, D. Manuel Trindade Salgueiro. Resolveram então nomear uma nova comissão que acompanhasse D. António, mas nomearam precisamente aqueles que foram os mais contestatários. O D. António viu aquilo e dispensou-se de continuar. Considerou que não valia a pena. E essa pastoral foi abandonada.
Noutras ocasiões, D. António tomou posições que incomodaram o regime, como quando defendeu o livre sindicalismo numa reacção ao jornalista Lello Portella, do Jornal de Notícias, ou o direito à greve, numa conferência do CACD de Coimbra. Essas conferências tiveram uma difusão enorme. Na Universidade de Coimbra, havia gente que perguntava se ele não teria perdido o juízo…
A inspiração do D. António é sempre a Doutrina Social da Igreja, ou houve algum autor que o marcasse?
Na última fase, depois do 25 de Abril, foi sem dúvida Karl Rahner (teólogo alemão, jesuíta, 1904-1984). Criou uma admiração por ele e está sempre a citá-lo. Os seus escritos até se tornam um bocadinho aborrecidos.
No número 16 da Gaudium et Spes (Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo contemporâneo), aparece uma concepção da pessoa humana muito curiosa. Diz-se que a pessoa humana é um ser aberto ao transcendente e que “é no santuário da sua consciência que Deus espera o homem para travar com ele um diálogo de amor…” Isto é de Rahner. Ora o D. António sempre teve esta concepção de pessoa. Isso foi para o bispo de Porto uma espécie de motivo de sedução para ler Karl Rahner. Foi o seu grande mestre.
Conheceram-se, uma vez que ambos estiveram no concílio, um como bispo e o outro como teólogo perito?
Creio que sim. Uma vez, no Colégio Português, houve uma conferência de Rahner, em que eu também estive presente, e o D. António estava lá. Em Roma, o D. António estava sempre muito atento aos melhores mestres.
Como nasceu a sua paixão por D. António Ferreira Gomes?
Eu era um jovem padre e ensinava no ISET de Lisboa, uma escola frequentada pelos seminaristas de Aveiro, que estavam no Seminário dos Olivais. Quando o ISET fechou, porque entretanto surgiu a Universidade Católica, reuniram os livros da biblioteca e quiseram oferecer livros aos professores, como uma espécie de retribuição suplementar. Nessa distribuição calharam-me várias coisas de D. António: um livro sobre o ministério sacerdotal e a paz e uma colectânea de escritos antes do exílio. Comecei a lê-los e entusiasmei-me. Sempre gostei muito do capítulo do Direito que aborda as relações Igreja Estado. Quando pensei em fazer uma tese sobre D. António, consultei o arquivo diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros e ainda mais impressionado fiquei. Depois, o arquivo de Salazar foi aberto ao público. Nesse arquivo encontram-se as cartas dos bispos a D. António, mas não se encontram as cartas de D. António para os bispos. O D. António não utilizava o correio porque sabia que a carta era interceptada. Utilizava portadores pessoais. Consultei então o arquivo da Fundação Spes, que ainda não está organizado. Penso que até hoje fui a única pessoa que consultou essas cartas.
D. António Ferreira Gomes foi um percursor do Concílio…
Em muitos aspectos, sem dúvida. Desde a primeira hora defendeu que a Igreja não quer mais para exercer a sua missão do que a liberdade que lhe permita anunciar o evangelho e ensinar a sua doutrina. Não precisa de privilégios. Isso veio a ser abalizado na Declaração sobre a Liberdade Religiosa (Dignitatis Humanae – documento do Vaticano II).
Na conferência que vou fazer na terça-feira (ontem), vou referir que, quando saiu a Pacem in Terris (PT – encíclica de João XXIII, publicada em 1963, sobre os direitos humanos), criaram-se os boatos de que o D. António teria participado na redacção da PT ou que se sentia vingado pela encíclica. Mas ele próprio deixou manuscrito; “afinal está aqui tudo aquilo que eu queria dizer”. Vou precisamente fazer uma comparação entre a doutrina da PT e a doutrina do D. António nesse Pró-Memória enviado a Salazar. O D. António conhecia, como ninguém em Portugal, a doutrina social da Igreja, mas também o pensamento cristão clássico. Há quem diga que de pastor ele não tinha nada. Ele era mais filósofo do que pastor. Há um bocado de razão nisso, porque ele passava a vida a estudar. Alguns livros dele, que eu consultei, tinham papelinhos de resumos que ele fazia depois de ler um texto.
Depois de ter deixado a dio-cese do Porto, o bispo retirou-se para Ermesinde, em 1982. Como passou esse tempo?
Passou-o a estudar, embora já muito debilitado pela visão, e escre-veu as célebres “Cartas ao Papa”. Não é um livro de memórias, mas um testemunho pessoal aos outros homens de igreja…
…que o Papa não leu…
Quando o Papa João Paulo II veio a primeira vez a Portugal (1982), disse: “Cá está o famoso bispo do Porto”, ao que D. António terá respondido: “Famoso, mas mais por más famas do que por boas”. D. António enviou as cartas [a seguir], mas nunca recebeu qualquer resposta. Nem uma carta de agradecimento. Pensava que o livro nem sequer teria chegado ao Papa, que talvez tivesse ficado retido em algum secretário.
Nota final: O livro “Cartas ao Papa”, cuja visão teológica está hoje em discussão no congresso internacional “Ser cristão na sociedade aqui e no futuro”, que hoje termina no Porto, tem edição por estes dias em Itália e França.
