A Árvore de Zaqueu Porque Deus se revela «aos bocadinhos». Nem podia ser de outra forma. Todas as coisas que existem e especialmente cada ser humano é portador de uma perspectiva sobre Deus. E é da maior importância abrir estas janelas, que nos questionam e enriquecem. O próprio Jesus Cristo estava condicionado pelo tempo e espaço em que veio ao mundo e limitou-se a lançar sementes capazes de levar a humanidade, ao longo dos tempos, a descobrir lentamente, num processo de contínua reformulação feito de avanços e recuos, a realidade de Deus.
O Deus de Jesus não se revela conceptualmente ou filosoficamente. A Bíblia e muitas outras experiências religiosas atestam como está muito para além das categorias humanas. Em Jesus, Deus revela-se como um Pai que se compraz na boa relação que consegue ter com os filhos. Não é verdade que, das nossas memórias, as mais gratificantes são as que nos alimentam com testemunhos de verdadeiro amor e amizade?
A abundância de parábolas nos evangelhos, sobretudo nos de Mateus e Lucas, fala de como na vida de todos os dias podemos saborear indícios da realidade divina e da igualmente misteriosa relação entre o «reino de Deus» e os reinos dos Homens.
Muitas das parábolas atacam a estagnação religiosa do povo judaico, sendo claramente referida a responsabilidade das classes sacerdotais. Embora sujeito ao império romano, a governação local estava praticamente nas mãos dos altos funcionários do sistema religioso.
O evangelho de hoje compara dois filhos: um diz que faz mas não faz; o outro diz que não, mas depois realiza a vontade do pai. O primeiro tinha bom dizer mas mau fazer. O pai não se podia rever naquele filho. Por isso Jesus não hesita em provocar um grupo de judeus dos mais «importantes», para lhes fazer sentir que a sabedoria é muito mais do que palavras bonitas. E que o verdadeiro «povo eleito» é aquele que se deixa escolher por Deus.
Esta parábola é afim à do «filho pródigo»: ambas denunciam o perigo de uma religião instalada, onde pretendemos viver descansados porque à sombra do que está escrito ou do poder de chefes quase idolatrados.
O filho que diz «sim» automaticamente, é quem se enredou no sistema, sem pensar nas razões do seu modo de viver – sejam «grandes chefes» ou «gente simples». Perdeu a sensibilidade para detectar o que é melhor.
O que tem o «não» na boca vive mais de acordo com o que gosta e não gosta, reagindo a imposições. Mas não matou a capacidade de avaliar com independência o que se faz à sua volta, o que ele próprio faz e o que vale mesmo a pena fazer. No que está certo e no que está errado, nas alegrias e na dor, apercebe-se dos «bocadinhos de Deus».
Também S. Paulo percebeu em Jesus a estranhíssima dimensão de uma pessoa que deu exemplo de perfeita não resistência a Deus. Só uma profundíssima intimidade com Deus pode sustentar a liberdade e frontalidade com que denunciou, sabendo que arriscava a vida, o apego a esquemas de domínio sobre os outros em vez de esquemas de libertação.
Conscientemente ou não, todos nós desejamos um libertador – da doença, da guerra, da fome, da injustiça, da angústia de viver… A credibilidade do libertador mede-se pelo seu próprio exemplo. Jesus mostrou que não somos como órfãos neste mundo, lançados à morte, e que vale a pena viver e lutar contra tudo o que seja sofrimento, gerando uma vida mais plena para toda a humanidade. O seu interesse era «a causa dos Homens», «totalmente permeável» (um sentido de «obediente») ao espírito de Deus. A sua vida foi sancionada e justificada por Deus, e por isso merece o nome de Senhor, como um filho pode ser investido de toda a honra do Pai.
Deus comunica-se a cada qual na medida em que não lhe opomos resistência. Mas os pretensiosos que se autoproclamam «eleitos» perdem a sensibilidade para «ouvir» a «vontade de Deus» – a vontade de perfeição escondida nos seres humanos. A imitação da «obediência» de Cristo passa por «ouvir», por estar atento, a todas as coisas como experiências de «bocadinhos de Deus».
Manuel Alte da Veiga
m.alteveiga@netcabo.pt
