A Árvore de Zaqueu Mais do que «direito à expressão», temos o dever de exprimir o que é bom e o que é mau. Mas para isso temos que pensar, saber escolher, adquirir conhecimentos, desejar saber sempre mais, e reconhecer que sabemos sempre muito pouco, e que o melhor meio de o pouco dar muito é partilhar as experiências entre gerações, entre a riqueza feminina e masculina, entre profissões e estatutos sociais diferentes. Isto é, precisamos de «mesas redondas».
Onde o próprio Deus possa abancar connosco no melhor cantinho de uma tasca.
A 1.ª leitura conta o resultado de um longo entretém entre Deus e Moisés. E assim a Lei fundamentou-se numa experiência religiosa. Mas Jesus alargou o círculo da mesa redonda, sensível ao sofrimento de multidões. E «apenas» quis semear em cada ser humano «o grão de mostarda» da Justiça – para que esta seja o motor de cada dia, orientando até as acções mais simples e rotineiras. A casa mais sólida (evangelho) não seria a mais imponente… mas só ela resistiu às tempestades da vida. Seremos nós os proponentes e os juízes das leis com que nos regemos.
Deus revela-se como gostando de ouvir as nossas histórias, por muito esquisitas ou mal contadas que sejam, e para isso tem mais do que toda a paciência que possamos conceber. Grandes histórias alegres ou tristes, pequenas histórias como à mesa de um café, ou mesmo como um rápido «olá!» ao virar da esquina.
E assim vai dando achegas aos nossos projectos, mostrando a janela aberta quando só vemos a porta fechada, e empurrando-nos para crescer sempre, mesmo quando as nossas forças diminuem e quando os «palácios» (políticos ou religiosos…) revelam a incorrecção das estruturas. É a estes construtores de «grandes obras» que Jesus aplica as palavras do salmo 6, 9: não quero nada convosco, pois a Justiça não está no vosso coração («iniquidade» significa falta de justiça ou de «equidade» e «equilíbrio»).
Conversas onde há lugar quer para “arroubos místicos” quer para a singela oração do publicano, que num cantinho humilde do templo dizia a Deus: «perdoai-me e ajudai-me, porque não ando a acertar na melhor escolha» (Lucas 18,9-14). Era um sábio, o publicano, e usou bem a esperteza de quem nada tem: abriu o jogo perante a única pessoa garantidamente fiel na criação de uma sociedade de responsabilidade ilimitada.
Deus gosta tanto de se meter na nossa história, que se revelou na vida de um humilde judeu, nas suas alegrias, sofrimentos, entusiasmos, amizades, traições e solidão. E esse homem, Jesus, põe-nos de aviso contra as lindas orações que não reflectem intenção sincera de construir os projectos sobre alicerces a toda a prova.
Vamos construindo «a nossa casa» pela vida fora. Pedra a pedra, tijolo a tijolo, emendando aqui, deitando abaixo acolá, mas com o gozo de quem se vê resistir a todas as tempestades à volta, incluindo aquela tempestade que nem nós próprios poderemos contar. Firmes, sobre «o rochedo que é Cristo» (1.ª Carta aos Coríntios 10,4).
É no riscar os planos, é nos dissabores da construção, é na derrocada de uma parede inteira mal construída… que aprendemos a pensar sobre o que estamos a fazer – e a ouvir o Deus que nos ouve.
As razões da nossa escolha precisam de ser pensadas e discutidas, e progressivamente joeiradas nos tais encontros de «partilha de diferenças», sem medo de dizer o que é bem ou mal – e onde nos apercebemos da «diferença» de Deus.
Numa grande «mesa redonda» a um cantinho do templo, ou, juntando o útil ao agradável, à volta das mesinhas de café com melhor paisagem…
Manuel Alte da Veiga
