Um outro «1.º de Maio»

Questões Sociais O sangrento «1.º de Maio» de 1886 constituíu uma marco imorredoiro na história do trabalho humano. Entretando, quase de imediato, foi apropriado pela luta de classes, entre capital e trabalho; isto foi mais visível na União Soviética e no seu espaço de influência, mas verificou-se também em inúmeros outros países. Dentro dessa tradição, a mensagem fundamental do «1.º de Maio» parece consistir em quatro teses: (a) – existe um conflito insanável entre o capital e o trabalho; (b) – o trabalho deve lutar contra o capital, até à «vitória final»; (c) – durante o predomínio da União Soviética, essa vitória consistia na universalização do seu modelo; (d) – agora, deixou de ser explicitada, prevalecendo talvez a ideia de revolução permanente e o espírito do «Maio de 1968».

Ao longo de mais de um século, os «1.º de Maio» vêm passando à margem de duas realidades candentes: (a) – o capital é indissociável do trabalho, e vice-versa; (b) – para além da «empresa capitalista» de «exploração do homem pelo homem», existem a economia familiar, a luta autónoma pela subsistência e as empresas, de menor ou maior dimensão, que procuram actuar de acordo com a moral. Quando se alimenta a ideia de que, um dia, o traba-lho vencerá o capital, afirma-se uma orientação correcta, envolvida em miragem suicida: a orientação correcta é a de que o capital deve estar ao serviço do trabalho e do bem comum (tese fundamental no pensamento social cristão); a miragem consiste no pressuposto simplista de que a apropriação do capital, pela «classe operária» ou pelo Estado, eliminaria automaticamente as raízes do capitalismo; pelo contrário, a experiência tem mostrado que o carácter «proletário» ou «público» da detenção do capital não lhe altera a relação dialéctica com o trabalho. Nesta ordem de ideias, já está consagrada, há muito, a expressão «capitalismo de Estado».

É compreensível que o «1.º de Maio» continue a ser um dia de luta contra a opressão e contra o capitalismo; mas não se ultrapassará o primarismo intelectual e ético enquanto prevalecer a tese maniqueísta de que o bem e o mal estão só de um lado, e de que não existem outros dinamismos para além da luta. Em 1 de Maio ocorre a festividade de «S. José Operário», cuja oficina simboliza um «1.º de Maio» diferente. Este não se opõe aos aspectos positivos do outro, mas traz ao de cima realidades complementares, tais como: as referidas economia familiar, luta pela subsistência, empresas norteadas pela moral, bem como os avanços conseguidos no diálogo social, formal ou informal, na negociação colectiva, na concertação social, na legislação laboral, na regulação da economia, na segurança social…