Um outro turismo é possível

Recordarei 2008 como o ano em que, por diversas razões, das profissionais ao lazer, passando pelas matrimoniais e pelas legais, fiz várias viagens ao estrangeiro, durante as quais tive possibilidade de interagir com culturas locais, nativas, extremamente ricas e diversas. Além do mais, nestas viagens, tem sido igualmente possível constatar o imenso poder dessa indústria dos tempos modernos a que se chama turismo.

Longe vai o tempo em que o turismo era apenas uma “tendência de quase todos os países civilizados (…), principalmente ingleses e americanos, para viajarem através de países naturalmente pitorescos”, tal como refere a entrada turismo na Grande Enciclopédia Luso-Brasileira.

Hoje, o turismo tornou-se uma das maiores e mais poderosas industrias mundiais. Movimentando biliões de dólares anualmente e envolvendo milhões de pessoas, acaba por ocasionar impactos fortíssimos na vida das populações e nos ecossistemas em que essa actividade se desenvolve.

Na verdade, o turismo convencional, ou turismo de massas, tem-se desenvolvido extraordinariamente, ao longo dos últimos 50 anos; porém desconhecemos, ou são-nos ocultados, o grande desrespeito às culturas nativas e os graves danos ao meio ambiente que esse tipo de turismo ocasiona. Para quem está envolvido com a causa missionária ou com activismo em organizações não-governamentais, é comum escutar as denúncias feitas pelos que trabalham no terreno e observam o impacto da indústria do turismo: grandes grupos económicos privados que, ao implantarem-se com a lógica do lucro, subordinam as populações locais, apropriam-se de territórios e do património natural, originando situações graves de exclusão social e de destruição ambiental.

Tudo isso me levou a questionar sobre o futuro da industria turística e sobre a minha atitude enquanto cidadão que, regularmente, veste a “pele” do turista.

Felizmente, no pequeno arquipélago equatorial, perdido no Mar Eritru, onde usufruí dos direitos matrimoniais, o turismo pauta-se por um enorme respeito às culturas locais, ao ecossistema e até, em pequenas conversas com os trabalhadores nativos, deu para perceber que os seus direitos laborais são bem salvaguardados, o que tem possibilitado uma evolução no nível de vida da população.

Ao retornar de viagem, e ao colocar em dia a leitura do meu correio electrónico, fui surpreendido com uma “newsletter” brasileira que subscrevo, onde, curiosamente, se apresentava uma declaração saída do II Seminário Internacional de Turismo Sustentável, que tinha acontecido, por essas mesmas alturas, em Fortaleza, Nordeste Brasileiro.

O conteúdo da declaração apresenta, de uma forma bem atraente, a opção por um turismo alternativo, sustentável, a que se chamou “turismo comunitário solidário”.

Trata-se de um turismo radicalmente diferente do turismo convencional de massas!

São experiências que já acontecem em diversas regiões do mundo (América Latina, Índico ou Sudeste Asiático) e que contrariam a lógica do modelo turístico convencional, pelo qual as empresas se estabelecem num determinado lugar, mas retiram dessas regiões os seus lucros, não deixando muitos benefícios à base comunitária ou à sociedade local. Isto mesmo foi denunciado por algumas vozes, como o catalão Ernest Cañada que, desde a Nicarágua, consciencializa os seus conterrâneos para o impacto negativo das empresas turísticas na destruição do meio ambiente: “uma vez destruído um lugar, degradado um território, emigram para outro, a fim de implantar o mesmo modelo depredador”.

Contra estes efeitos nefastos do turismo convencional se batem os que preconizam o turismo comunitário solidário, pois no turismo sustentável dá-se especial destaque à autonomia das culturas locais, à conservação ambiental, à sócio-economia solidária que está na origem do comércio justo.

Assim, reconheço que a aposta deve ser feita no turismo rural comunitário, no ecoturismo comunitário e no turismo responsável, uma vez que estas formas de turismo alternativo se pautam pela ética da sustentabilidade e da autonomia, construídas, colectivamente, de forma solidária. E, por tudo isto, passei a dar o meu apoio à pressão que se vem fazendo para defender o turismo comunitário como um interesse universal.

É urgente mostrar que (também) um outro turismo é possível!